| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 99 - Junho de 2004 |
|||||||
|
CULTURA Carolina
Pontim No dia 30 de março foi oficializado pelo Ministro da Cultura, Gilberto Gil, em reunião com Antônio Augusto Arantes, presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a proposta de transformação do samba, tomado como manifestação singular de música e dança, em Patrimônio da Humanidade. O objetivo é o seu encaminhamento à UNESCO para inclusão na categoria de Obra-prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade. Essa proposta é parte da política pública de salvaguardar a cultura nacional, orientada segundo o preceito constitucional do ‘direito à memória’, parte do ‘direito de acesso à cultura’ e, por conseguinte, à cidadania, e está inserida no contexto contemporâneo de afirmação das expressões culturais qualificadas como universalmente importantes, porque profundamente entranhadas na história social e formativa dos países. Essa postura do governo brasileiro, pouco comentada pela maioria dos veículos de comunicação, levanta poeira. Primeiro, no que se refere ao valor atribuído ao samba: manifestação popular alçada à categoria de expressão cultural nacional. Segundo, quanto aos inúmeros questionamentos que propõe: o sentido da patrimonialização do samba; a imaterialidade de um bem que, ao mesmo tempo, guarda como condição para sua manutenção a necessidade da presença concreta de seus produtores frente a um público; o sentido político da preservação de um patrimônio que não está preso a qualquer lugar do passado, mas constitui-se em expressão pulsante, mergulhada que está na prática social, sendo ainda produzida e apropriada socialmente; a garantia de um tombamento livre de prerrogativas cristalizadoras. Patrimônio cultural é tudo aquilo que, fruto do trabalho humano, seja capaz de propiciar a ampliação do conhecimento e da consciência do homem sobre si mesmo e sobre o mundo que o cerca, que se configura em testemunho de um tempo e local específicos, de uma história e cultura. Tomar o samba como patrimônio popular nacional, de relevância universal, e ensejar por uma institucionalização da sua valorização e preservação tem o importante significado de, por um lado, desclassificar abordagens em torno do ‘exótico’ e do ‘folclórico’, afirmando a capacidade do samba de pensar e construir múltiplos discursos sobre a cultura brasileira e a memória nacional a partir de uma perspectiva popular, por outro, de compreender, implicitamente, o sentido da importância da música como linguagem e expressão, e não apenas como bem de consumo descartável – como tem se caracterizado a música nestes tempos bicudos de ‘idiotização cultural’ generalizada. O samba é síntese musical e coreográfica de matriz cultural afro-brasileira: descendente do lundu, do maxixe, da umbigada (semba), dos terreiros, e mostrou-se expressão de grande vigor, responsável por um vasto e variado repertório musical, indo do samba-de-roda à bossa-nova. É um patrimônio da cultura brasileira. Patrimônio em permanente estado de renovação na tradição. Já disse Paulinho da Viola, o samba fala coisas da gente. Seus produtores, artistas e músicos populares, que ‘não são doutores, mas são doutores’ (no belo jogo de palavras do mestre Assis Valente) enquadram-se na categoria de verdadeiros cronistas sociais, que pensaram o Brasil nas suas músicas, seja cantando a história do país, registrando acontecimentos, revelando gente, desmistificando heróis, seja cantando suas cidades, o lugar das práticas sociais: as ruas, as casas, os morros, os botequins, as praças, onde sua gente se movimenta, circula, se relaciona. Nesse sentido, o samba fixou sua qualidade como rico documento dos territórios urbanos e suas memórias e, ao mesmo tempo, ultrapassando as fronteiras geográficas e sociais, abarcou a cultura brasileira e a memória nacional, a partir sempre de uma perspectiva popular, ligada aos setores tradicionalmente subalternos da sociedade. Além de fonte
de memórias populares o samba constituiu-se como espaço
de representações coletivas as mais amplas, afinal de contas,
como sua história nos conta, o samba foi negro, perseguido, estigmatizado,
‘caso de polícia’, foi também símbolo
da brasilidade, alvo de instrumentalizações oficiais, resistiu,
influenciando, foi branco, precisou (e ainda precisa) sobreviver à
ação padronizadora (e muitas vezes imbecilizante) dos meios
de comunicação de massa, tornou-se síntese cultural
brasileira. Portanto, o samba é experiência histórica,
social e cultural da nossa gente. Finalmente, se o samba carrega essa complexidade de sentidos, sendo patrimônio imaterial, sem excluir uma dimensão material, como lhe aplicar a prática do tombamento? Tombar um bem cultural consolidou-se no Brasil como prática que guarda implicitamente a noção de proteção a um bem que tem na materialidade a sua expressão, a despeito do pioneiríssimo projeto marioandradiano, nos anos 30, que afirmava a idéia de que o patrimônio cultural está também presente nas manifestações intangíveis da alma popular (para além da ‘pedra e cal’ e das representações do erudito). Tombar um bem se conformou como meio de evitar sua destruição ou modificação. Mas como tombar um patrimônio que é vivo, atuante, e garantir a sua manutenção? É uma questão polêmica. É preciso considerar o tombamento como algo dinâmico, no sentido de que supõe mecanismos outros de salvaguarda, que não congela o bem cultural, mas, ao contrário, assegura sua pulsação. No caso do samba, para que isto se cumpra, é imprescindível que a proteção inclua, além dos procedimentos usuais do tombamento de um bem imaterial (especificados no muito recente Decreto 3.551, de 04 de agosto de 2000, que instituiu o registro do patrimônio imaterial), ações de apoio a seus produtores, a sua gente, e de difusão, visando a formação de público. Promoção e divulgação do samba, portanto, tornam-se prerrogativas fundamentais para evitar sua fossilização e garantir sua eterna inspiração. Com a patrimonialização do samba e o reconhecimento internacional da Unesco espera-se que o Brasil dê um passo adiante nas políticas públicas para a salvaguarda do seu patrimônio e promova condições concretas de reprodução e transmissão do samba, com a valorização e preservação da sua música, sua dança, e elevação da sua gente. A cultura brasileira, honrada, agradece. |
||||||