Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 99 - Junho de 2004


A PAIXÃO DO CRISTO
(The Passion of the Christ)

Gerson Valle
poeta e escritor, membro do conselho editorial de Poiésis. (valle@compuland.com.br)

Há uns três meses que a imprensa veicula artigos sobre o filme de Mel Gibson “A Paixão dO Cristo”. O leitor poderá perguntar meio entediado, como fez meu editor, o poeta Camilo Mota: ainda uma matéria sobre tal filme? Ocorre que jamais se dirá tudo sobre a questão, que envolve uma história que vem sendo minuciosa e constantemente recontada há dois milênios! Fundamentalmente, ela é a base de nossa civilização. As contradições que avultam no mundo (sobretudo ocidental) dizem respeito aos princípios cristãos de caridade e amor ao próximo numa sociedade competitiva, insensível ante as diferenças sociais, onde o homem é o lobo do homem. Perpassa, no entanto, todos os nossos crimes e desafetos, a memória de Jesus, com sua pregação em palavras e sacrifícios físicos. Sim, indubitavelmente, desde o jejum dos 40 dias no deserto (que parece simbolizar um fortalecimento do espírito para o início de Seu caminho como pregador), até o final crucificado, evidencia-se a necessidade de sacrifício do corpo ante a grandeza de sua posição ética e espiritual, dando primazia ao obstinado cumprimento de uma missão que se dirige mais à coletividade que à individualidade, como que a exemplificar, para quem o quisesse seguir, ser mais importante o amor ao próximo, voltado para uma Harmonia em evocação ao Cosmo, Deus, que o apego às transitoriedades da Terra, onde os prazeres do corpo seriam a mais evidente manifestação (prazeres estes que Jesus não desprezava, por outro lado, seja na passagem bíblica em que aceita os óleos perfumados que lhe são passados por uma mulher, ou quando se diz diferente do João Batista que vivia no deserto em constante jejum, enquanto Ele come e bebe com publicanos e pecadores, e, ainda, de certa forma, na inteiração da carne - o pão e o vinho - com o espírito, na Eucaristia...Este Seu reconhecimento dos prazeres e da matéria aumenta ainda o sentido de sacrifício!).

E este é exatamente um dos pontos acentuados no filme em questão que mais causou polêmica: o sofrimento físico do Cristo, que foi tido, por muitos, como uma exacerbada pontuação de agressividade em atendimento ao gosto de determinada platéia formada pelos filmes norte-americanos violentos de estupidez pela estupidez, sadomasoquismo, e outras questões doentias colocadas no baixo nível da depravação e decadência que têm sido a escola já de algumas gerações habituadas por este tipo de espetáculo. Parece-me haver aí um equívoco. Normalmente, em tais filmes, a violência é vitoriosa, e se encontra do lado do herói da história. No caso de Cristo, Ele é quem sofre a violência, e não há o igual revide contra os seus algozes, como costuma ocorrer nesses casos. O que se passa na tela, de resto, não é novidade alguma. Isto está em todas as igrejas, um pouco mais ou um pouco menos sangrento nas cruzes e na Via Sacra, o que dá continuidade aos templos medievais, quando a narração para os fiéis necessitava de ilustração, pois, com raras exceções, toda a população era constituída de analfabetos. Há toda uma iconografia ocidental dedicada aos sofrimentos de Jesus, nas chibatadas e crucificação. O que não entendo é como, tendo lido diversas matérias que comentam o filme, não vi referência, em nenhuma, a Mathias Grünewald (1480-1528), pintor alemão cujas crucificações mostram Cristo com chagas por todo o corpo, não havendo nenhum pedaço de carne que não tivesse sido dilacerada, que parecem ter sido a inspiração para o corpo apresentado por Mel Gibson. Como, aliás, outros quadros de Grünewald, como “Cristo escarnecido” ou “Cristo cai com a cruz”, mostram sempre seus algozes com pedaços de pau, chicote, galhos espinhentos, levantados para lhe surrar, e até punhos fechados para lhe dar socos. A questão da representação visual do sofrimento de Jesus, que foi tema de muitos pintores famosos, por conseguinte, além de não ser nova, tem precedentes importantes na tradição da cultura cristã ocidental.

E por que? Parece-me que o exemplo de Cristo tem de ser sempre lembrado pelos cristãos, para suscitar a piedade e a compreensão da dor alheia, e para que se tenha em vista que não se deve relegar as convicções próprias, a fé, em face das torturas e da morte. Com Cristo, cada sofredor e cada injustiçado aprendem que mais importante que todas as coisas, mesmo que o bem estar próprio, é sua relação interior com o Cosmo, a Divindade, algum princípio que tenha por fim a Justiça no equilíbrio do coletivo. É, exatamente, conjugar-se com o coletivo. Que melhor exemplo pode existir de que aquele que se dizia Filho de Deus, sofrer o flagelo calado, sem fazer os milagres que, segundo os relatos evangélicos, estavam a seu alcance, para que se cumprissem as profecias que o poderiam colocar em evidência (e assim Sua mensagem de amor ao próximo) ante seu povo, que conhecia o que a Bíblia prediz a respeito? Em João:16, tudo isto está muito claro quando Jesus declara que precisa partir deste mundo para as pessoas se convencerem do pecado, porque não creram nele, e em João:13 Jesus demonstra que lavou os pés dos apóstolos, para estes lavarem-se os pés uns dos outros, e quem recebe aquele que Ele envia, é a Ele que recebe, e quem O recebe, recebe a quem O envia. E, claro, quem O envia é pela Harmonia, Verdade, Justiça existentes no plano celestial, colocadas como meta cristã, contra as injustiças do plano terrestre. Diante de tudo isto é preciso passar pelo exemplo do sofrimento e morte, que dão a dimensão de nossos limites perante a grandeza do equilíbrio superior. Só assim a Humanidade poderá mudar. É este o ideal de uma futura sociedade, já sem injustiças e diferenças sociais; a Utopia do Senhor, se assim se pode dizer.

Outra das questões polêmicas do filme diz respeito exatamente ao cumprimento dos enunciados no Antigo Testamento sobre a vinda do Messias. Certos judeus, logo que o filme foi lançado nos EEUU acusaram-no de anti-semita. Entenda-se que desejavam dizer antijudaico, pois semita não são só os judeus (e mais curioso ainda um noticiário que li recentemente em jornal de grande circulação que dizia que alguns líderes de Israel consideravam certas manifestações palestinas como anti-semitas... Ué! Os palestinos não são árabes? E estes não são semitas? Ou será que tais líderes – ou, sei lá, o jornalista que divulgou erradamente a notícia... - estão reivindicando ser o povo judeu o único semita do mundo?). Parece-me que depois do nazismo, o ser anti-semita tornou-se algo tão detestável (e com razão), por ter sido tal expressão comumente empregada então, que ficou mais fácil atingir os sentimentos do “prezado público” usando-a, mesmo que não haja nisto uma verdade histórica. No caso, a História de Cristo nos é contada pelos 4 Evangelhos (e alguns outros considerados apócrifos, mas dentro das religiões cristãs são os 4 que são considerados). E que contam estes Evangelhos sobre a prisão, paixão e morte de Cristo?

Tudo se passa no período da Páscoa (judaica), em Jerusalém, onde Jesus entrara triunfante uma semana antes, quando um de seus apóstolos, Judas Escariotes, denunciou-o em troca de 30 moedas de prata. Denunciou-o a quem? Ao Sinédrio, que constituía a reunião dos sacerdotes importantes da religião judaica. Cristo estava à mão de quem o quisesse encontrar, pois andara livremente por Jerusalém. Orara no famoso Templo (de que hoje resta somente um muro, chamado “das lamentações”), e ofendera a classe sacerdotal dominante, chamando-a de hipócrita por pregar a literalidade do conteúdo da Bíblia, sem considerar a realidade cheia de injustiças em que viviam (e isto nos faz pensar na oficialidade acomodada das próprias religiões cristãs e no Dostoievski de “Os Irmãos Karamazov”, onde, numa alegoria, imagina Jesus retornando à Terra e sendo de novo crucificado, pois as razões que o levaram a isto continuam iguais...). A Sua popularidade era tal (chamado de “Rabi” pelo povo, homem religioso de grande sabedoria!) que esta posição contra a classe dominante dos sacerdotes, tornou-se perigosa para ela. O jeito era exterminá-lo. O que não seria difícil, por tomar uma posição herética, ao dar a entender ser o Messias aguardado pelo povo de Israel. Mas, o Sinédrio precisava de um reconhecimento formal para prendê-lo. E isto conseguem com Judas. Aquilo que já constituiu a Palestina, e hoje é o Estado de Israel, era uma possessão romana.então. Mas, os romanos não tinham nenhum interesse pelas enormes disputas religiosas que ocorriam freqüentemente entre judeus. Portanto, a prisão de Jesus era matéria, para eles, indiferente. Pilatos, o governador romano, acaba por lavar as mãos, mas por insistência dos principais representantes do Sinédrio, sobretudo do Sumo Sacerdote Caifás, não sendo sábio politicamente opor-se à elite local, concorda em que seja crucificado, e que seus soldados ajam com toda a maldade que a tal elite desejava na demonstração pública de que ali se encontrava um farsante, que não tinha nada de Filho de Deus, senão seria impossível fazer-se com Ele as perversidades que fizeram, a começar por lhe cravarem uma coroa de espinhos, com os dizeres irônicos de Jesus de Nazaré Rei dos Judeus... Esta a História sabida, e que é contada nos 4 Evangelhos, reproduzidos fielmente no filme de Mel Gibson. A História é antijudaica? Isto seria uma grande bobagem, não é? Tiradentes foi enforcado pelos portugueses que mantinham o Brasil colonizado no final do século XVIII. São os portugueses – todos eles – eternamente colonialistas, monarquistas, antibrasileiristas? Quem prendeu Jesus e forçou que o poder romano o crucificasse foram alguns sacerdotes influentes judeus da época. Isto não representa, de forma alguma o povo judaico! Quem não gostou do filme por lembrar esta história ignora os Evangelhos e tem uma concepção muito curiosa sobre a responsabilidade de um povo nas mãos de uns poucos representantes temporários. Já imaginou-se pautar-se a honestidade dos brasileiros por alguns de seus políticos corruptos? É a inversão do todo pela parte. E quão ínfima parte no caso do Sinédrio do tempo de Cristo!

O cinema tem apresentado o relato dos Evangelhos desde os primórdios mudos. E a Vida de Cristo era programa obrigatório, até algumas décadas atrás, das salas de exibição na Semana Santa. Em muitas exibições repetia-se o percurso do Getsêmani para Caifás, a Pilatos, a Herodes e a Pilatos de novo. Nunca ninguém acusou tais filmes de antijudaicos. E, aliás, na Música também, as paixões escritas para a Igreja luterana sempre repetiram os textos evangélicos. Uma das maiores obras-primas da História da Música é a Paixão Segundo Mateus, de Bach, sendo a sua Paixão Segundo João também de excepcional qualidade. Em ambas, há um tenor que, em recitativo, diz todo o texto evangélico do final da vida de Cristo, o que é entremeado por árias de solistas e coros comentando, à maneira do rito luterano, cada trecho (inclusive com os famosos “corais” na forma prescrita por Lutero dois séculos antes). Por que, de repente, certos judeus americanos falam em antijudaísmo na mesma história conhecida? Seria por causa do título “The Passion of the Christ”? Isto é, neste título (“A Paixão do Cristo” e não “de Cristo”), há como um reconhecimento de que Jesus é o Cristo, palavra que em grego corresponde ao Messias aguardado pelos judeus. Não encontro outra explicação...

A história é sempre recontada por perspectivas diferentes (e basta ver os comentários dos padres nas igrejas após as leituras do Evangelho...). Há sempre um novo ângulo para se trazer novas mensagens. No cinema mesmo, na década de 1960, houve um filme de Piero Paolo Pasolini (que reputo como o melhor que já se fez sobre Cristo), chamado “Evangelho segundo Mateus”, que ressaltava o trabalho social de Jesus, e, partindo de um ponto de vista revolucionário de esquerda, apresentava seu percurso, como Mao-Tsé-Tung prescrevia a forma de fazer-se a revolução: começando nos campos (e é inesquecível a cena que Jesus aparece anunciando a boa nova para os raros passantes no campo) até atingir as cidades (no caso, Jerusalém, onde Jesus morre). Os figurantes do filme guardavam uma aparência simples e, muitas vezes até deformada (os muitos aleijados que se tem o testemunho de existirem pelas curas de Jesus), como pode-se imaginar que fosse uma população da possessão pobre romana. O ritmo do filme, sua trilha sonora (A Paixão Segundo Mateus de Bach e a Missa Luba, de ritmos africanos), seus enquadramentos que eram, em si, comentários, a forma da voz de Jesus colocar suas falas humanistas, tudo foi feito com uma dignidade que poucas vezes a História do Cinema atingiu.

No meu ponto de vista não há como se comparar o filme de Pasolini com o de Mel Gibson, tal a superioridade do primeiro. Mas, não é disto que se trata. O filme de Mel Gibson não é, apesar disto, desprezível. Ele é de uma boa cinematografia, de um profissionalismo muito grande e de um estilo próprio com bastante preocupação estética (que lembra até, muitas vezes, composições de quadros renascentistas). Há umas “coisinhas” discutíveis, como a invenção que faz do possível relacionamento de Jesus com sua mãe na infância (e aí coloca-se Jesus criando peças de carpintaria, como se Ele tivesse que se destacar na profissão, sendo um inventor, diferente dos outros carpinteiros, na forma individualista e competitiva de quem tem de se sobressair como a sociedade norteamericana gosta... Pareceu-me tolo isto, e de perspectiva cristã distorcida). Há uma queda da cruz, quando é erguida, em que Jesus cai de frente. É irreal a situação, pois se isto tivesse ocorrido, ele teria morrido neste momento, não sofrendo mais a crucificação. Um artigo a respeito do filme do mestre Leonardo Boff comenta, pertinentemente, que, pela violência demonstrada com Jesus, Ele teria morrido várias vezes, pois ninguém resiste a certas agressões sem morrer. É verdade. Exagerou-se nisto. Mas, também aí é questão de estilo, podendo ser visto tal exagero como uma alegoria dos sofrimentos de Jesus, e, até, como se fossem vários trechos isolados, que não fazem uma coerência se seguidos – o que é também muito do gosto e da tradição do cinema norteamericano, bastando lembrar os bichinhos de desenhos animados quantas vezes sofrem desastres que causariam a morte para qualquer um, e que saem lépidos e fagueiros para novas aventuras... Comentou-se muito, também, a inserção de figuras demoníacas a que o Evangelho não se refere nestes momentos. Mas, no fundo, todas elas repetem as tentações sofridas por Jesus no deserto, quando o demônio lembra-lhe que poderia governar o mundo, e Ele o recusa, preferindo sofrer sua condição humana, pois é mais alta a Sua missão. A modificação do entrecho aí não prejudica o espírito do que se narra. Eu diria também que a música da trilha não atinge a grandeza do tema tratado. Mas, são detalhes de estilos e pontos de vista.

Acho que, efetivamente, o que importa, é o filme do Mel Gibson ter causado uma polêmica que o torna vivo, fazendo com que as discussões sobre a vida de Jesus voltem a figurar nas matérias de jornal e nas conversas de amigos, dentro da parte intelectualmente mais ativa da sociedade. Sim, porque, como comentei acima, nem mais na Semana Santa projetam-se vidas de Cristo nos cinemas. Se, na nossa cultura ocidental, durante séculos, não se passava um dia que não se mencionasse seguidamente passagens e ditos relativos à religião cristã, de algum tempo para cá, a camada dita culta da sociedade já não parece lembrar, no dia a dia, da herança cristã de nossa civilização. Não que as questões religiosas, ou de fundo místicas tivessem desaparecido de nosso convívio. De forma alguma. Cada dia mais, inclusive, superstições, “hipóteses de transcendências” e reflexos de devoções orientais ganham mais prestígio. As novas gerações, entretanto, como que não mais acreditando nos princípios morais do passado nem apreciando estéticas de outros tempos ou costumes que lhes parecem embolorados, confundem tudo isto com a hierarquia e persistências morais da Igreja Católica, por exemplo, devido à integração desta Igreja no nosso passado histórico. Os evangélicos, ao contrário, em determinados níveis sociais, têm crescido desmesuradamente. Isto, também, numa sociedade tradicionalmente de maioria católica (mesmo que com aculturações que traziam crenças africanas, nelas predominavam certos valores do catolicismo) não deixa de ser uma quebra de continuidade cultural. Tal quebra passa-se de forma tão alucinada, diferentemente da tradição católica, que os cultos evangélicos parecem mais afinar-se com os modismos orientalistas ou magias fetichistas.

Há, com tudo isto, um desvio de nossa cultura, que, nesta globalização de predominância do ponto de vista do economicamente mais forte, nós, brasileiros, nos vamos descaracterizando. Sei que Mel Gibson não é católico. Mas, ao trazer, entre nós, a discussão sobre posicionamentos ante a figura de Jesus Cristo, nos reconcilia, de certa forma, com uma tradição de pensamento voltado para Ele, que em nós era católica. Vejo, assim, como culturalmente importante as questões suscitadas pelo filme, e sua repercussão já bastante repetida pela mídia. E esta importância se dá, a meu ver, porque a questão religiosa é, sobretudo, cultural. Pode-se alegar a paridade das religiões, em todas elas encontrando-se certa transcendência. Por isto, nada mais sensato que o ecumenismo, que nos remete ao lado metafísico de valor paritário entre as religiões. Mas, por outro lado, a cultura religiosa está ligada a costumes e tradições locais. Lembro-me de Goethe, no Fausto, colocando na boca de Mefistófeles, quando se transpõe para a antiga Grécia, que o clã pagão não é de sua alçada, existindo ali um inferno que não era o dele. Ora, numa concepção unitarista, que não admitisse a Verdade senão por via de alguma revelação específica, a História do diabo seria mundial, abrangendo todos os tempos da História do mundo. É uma piada admitir-se concomitantemente como verdade que na Grécia havia deuses pagãos, e no mundo judaico-cristão-muçulmano só haja um deus eterno! As duas afirmativas se contradizem. Mas, na verdade, não há como isentar-se do aspecto cultural, para se eleger uma só verdade religiosa. Religião é cultura, e tal como a língua portuguesa que falo possui uma estrutura que compõe meu pensamento e brasilidade, a religião católica em que fui criado moldou-me também culturalmente. Por isto, temo as novas “invasões bárbaras” de costumes, religiões, línguas, que acabam por confundir todos os valores da sociedade. Não tenho dúvida que o internacionalismo (de que, aliás, a própria palavra “católica” é representativa) é a tendência mais avançada para nos libertarmos de preconceitos e fechamentos de todas as simbólicas fronteiras que nos tornam menos sábios. Mas, ao nos internacionalizarmos, não podemos perder nossas feições, deixar de ser nós mesmos. Cada nação tem sua impressão digital, e não há dois lugares e culturas exatamente iguais. E as tentativas disto ocorrer se passa por imposição de força e imitação dos fracos. Vamos abolir verdadeiramente nossas fronteiras quando conseguirmos a unidade fraternalmente universal dentro da diversidade cultural de que somos constituídos.

O filme “A Paixão do Cristo” trouxe de volta, neste ano, a colocação religiosa discutida nos jornais e nas ruas, que nos reporta, no Brasil, à nossa origem predominantemente católica. Isto, em si, é um grande mérito, pois refletirmos sobre dados culturais que nos formaram (e quantas singularidades o Catolicismo formou no Brasil!) é tentar conhecermo-nos melhor, e, assim, podermos lutar contra uma globalização imposta, que nos traz modos de ser dos países dominantes, e, como escravos culturais nos tornamos também escravos econômicos, cada vez com maior pobreza material e espiritual.