| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 99 - Junho de 2004 |
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LITERATURA Fernando
Py Neste mês de junho, em que transcorre mais um aniversário natalício de Fernando Pessoa, será oportuno lembrar uma faceta de seu gênio ainda hoje virtualmente desconhecida entre nós. Refiro-me a seus contos policiais (ou “policiários”, como os chamava o poeta), que chegaram a ser reunidos em volume numa editora paulista. Mas, pouco divulgados na época, não chamaram atenção e talvez seja o caso de voltar ao assunto. Os contos pessoanos
reunidos em volume eram apenas quatro. Mostram, todos, mais um aspecto
do escritor multiforme que foi Fernando Pessoa: a do indivíduo
apaixonado pelo crime enquanto forma de pesquisa do comportamento e da
psicologia do ser humano. Não dispomos, todavia, de textos estruturados,
com os ingredientes que em geral se apresentam em histórias do
gênero. Pessoa deixou os quatro contos incompletos, tanto no fundo
como na forma, e em graus diversos de elaboração. Todos
eles, entretanto, têm em comum o gosto pela análise, o que
se verifica na composição das cenas isoladas de cada narrativa
a que, por essa razão, seria impróprio o designativo de
conto. Mais adequado me parece relacionar esses fragmentos aos textos
de “idéias filosóficas” que se encontram em
coletâneas das obras de Pessoa. Já “O roubo na Quinta das Vinhas” é o texto menos incompleto de todos, o único em que se observam todos os ingredientes de uma investigação pronta e acabada. Existe uma trama que serve de base à narrativa, a qual apresenta mesmo um certo suspense. A história é narrada na primeira pessoa pelo engenheiro Augusto Claro, intercalada pelas elucubrações do Dr. Quaresma. Apesar de discursivo, o texto é importante como fabulação. Em “A carta mágica” (que pelo título e circunstâncias poderíamos aproximar do conto “A carta furtada”, de Edgar Allan Poe), trata-se de uma carta roubada em recinto trancado. O tema clássico de Poe é retomado com uma variante inédita. Mas a história vale mais pelas observações do Dr. Quaresma a propósito de pessoas normas e anormais, e pelo estudo das perturbações mentais de um criminoso. No caso, a paranóia que leva ao crime. A análise da patologia do criminoso, em que se desvenda a existência de um assassino dentro de cada ser humano, é desenvolvida no texto mais fragmentário de todos, “O caso Vargas”, composto de pedaços interligados que se relacionam uns com os outros pelo assunto: a “mentalidade” do homicida, a “alma do assassino”, segundo o Dr. Quaresma. Este vincula o bêbado ao louco, e o soldado que vai à guerra ao homicida. O bêbado e o soldado agem por compulsão externa; ao passo que o louco e o assassino o são por compulsão interna. Desenvolvendo esses axiomas, Quaresma afirma que os indivíduos histéricos, ou histerizáveis, são os mais propensos a se tornarem loucos ou assassinos. O conto, enquanto obra de ficção, não existe, e o título foi deixado por Pessoa sem qualquer explicação. Como nos demais casos, o grande valor do texto assenta no estudo psicológico do assassino, bem como na prosa sempre lúcida e modelar do poeta, mesmo não trabalhada, como nestes contos incompletos. . |
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