| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 99 - Junho de 2004 |
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A era do rádio Marcelo
J. Fernandes Fundamentais à difusão da música, o fonógrafo e o rádio chegaram ao Brasil em 1878 e 1922, respectivamente. Em fins daquele ano, D. Pedro II assinou um decreto concedendo a Thomas Edison o direito de “introduzir no Brasil o fonógrafo de sua invenção”. Entretanto, o processo de gravação de compositores brasileiros só teria início em 1902, com o lançamento do lundu Isto é bom, na interpretação do popularíssimo, à época, “Baiano”. O rádio surgiu depois do disco, embora desde a década de 60 Rudolph Hertz já tivesse falado na existência das ondas que posteriormente levariam o seu nome. Somente no fim do século XIX Guglielmo Marconi demonstraria, na prática, a teoria de Hertz; vinte anos mais tarde, a radiodifusão estava implantada sistematicamente na Europa e nos Estados Unidos. Nesta ocasião,
prevendo o poder de comunicação do rádio, o antropólogo
Roquette Pinto, no Rio de Janeiro, pretendia fazer deste novo veículo
um instrumento de intervenção cultural. Para ele, o rádio
cumpriria uma importantíssima missão educativa, levando
instrução e informação a um enorme contingente
sem acesso às escolas formais. Propunha, trocando em miúdos,
o início da educação à distância. A primeira geração do apogeu do rádio – e aí já “broadcast” – tem em Noel Rosa seu nome mais expressivo e que dispensa adjetivos e apresentações. É dele um dos primeiros grandes sucessos, “O X do problema”, de 1935 (dois anos antes de sua morte prematura), composto sob encomenda da atriz Ema D’Ávila para a revista “Rio Follies”. Reparemos que, apesar da temática ser totalmente urbana e da linguagem despojada, o eu-lírico é feminino (talvez o único da obra de Noel): Nasci no Estácio Eu sou diretora da escola do Estácio Você tem vontade Funcionando ao mesmo tempo como solilóquio e diálogo, a moça dirige-se ao seu amor fazendo, sobretudo, uma afirmação de sua identidade (seu meio, origem, educação, opção de vida, etc) com orgulho, dispensando uma possível troca de status, culminando com a engenhosa imagem/antítese “palmeira do Mangue (ela) X areia de Copacabana (o rapaz)”. A tendência de buscar no coloquialismo a expressão poética encontra eco aqui, na recém-nascida MPB, uma vez aberto o caminho por nossos bardos modernistas na década anterior. Seguiram a mesma trilha, além de Noel, Lamartine Babo, Assis Valente, Ismael Silva e outros bambas dos anos 30/40. O crescimento do número de canções com eu-lírico feminino, que aqui denominamos “neo-cantigas de amigo”, talvez se deva à audiência majoritariamente feminina daquela época, sobretudo dos programas de auditório, assistidos por moças de estratos sociais empobrecidos, as quais nutriam um forte fanatismo por seus ídolos radiofônicos (não podemos deixar de citar, de passagem, os galãs das novelas, vozes que corporificavam personagens inesquecíveis, tais como Jerônimo, o herói do sertão e O anjo, dois clássicos). Pejorativamente, foram denominadas “macacas de auditório”, ganhando até, nos anos 50, uma homenagem através da gostosa marchinha de carnaval do grande compositor e autor consagrado de jingles Miguel Gustavo, e interpretada pelo palhaço Carequinha. Em 1942 o samba Fez bobagem, de Assis Valente (também autor dos clássicos da MPB Boas festas; Cai, cai, balão; Brasil pandeiro; Camisa listrada; Uva de caminhão; Jarro d’água, entre tantas outras) faz sucesso na voz de Araci de Almeida: Meu moreno fez bobagem Observa-se que, aliada à malandragem da cena carioca, típica, ambientada na favela, há uma preocupação do autor com este eu-lírico de mulher muito bem construído. É nítido o valor estritamente feminino nos versos: “quando penso que outra mulher requebrou pro meu moreno ver/ não dá jeito de sambar, dá vontade de chorar e de morrer”, e ainda o aspecto possessivo, ciumento, em “deixou que ela passeasse na favela com meu peignoir”. Note-se ainda a oposição do moreno/ pivô/ vagabundo X mulher/traída/ trabalhadora, realçando uma leitura feminista da situação. No plano estilístico, é notável, ainda, a bela rima rara “ peignoir/ sapatear”, não só pelo aspecto sonoro, mas pela oposição subjacente e sutil em estar na favela/ usar o peignoir e calçar a sandália de veludo/ “pra sapatear”. É importante ressaltarmos que, neste período, a mesma platéia feminina – as “macacas”, já citadas -, idolatra sobretudo as grandes divas do rádio, em lugar das vozes masculinas: Marlene, Emilinha Borba, as irmãs Dircinha e Linda Baptista, Ângela Maria e Dalva de Oliveira, que inauguram uma “dinastia” hegemônica de grandes intérpretes em nossa MPB. Esta relação artistas-público, intermediada pelo rádio, acabou impondo um gênero de canção que, geralmente, deixava de lado a qualidade e o bom gosto musical em prol de um apelo comercial imediato, sem o qual o sucesso em larga escala não seria possível. Este gênero figurava ora como samba-canção, música de fossa ou samba de meio de ano (por ser lançado fora dos meses que antecediam o carnaval) e dominou o decênio entre 1945 e 1955, abandonando a sutileza e o humor irônico típicos de Noel, por exemplo, trazendo um sentimentalismo ultra-romântico, pesado, kitsch, dramático e pouco condizente com o pano de fundo da metade do século XX. Ary Barroso, antes de projetar-se mundialmente com seus “sambas de exaltação” (fomentados pelo DIP de Vargas) através de Carmen Miranda (Aquarela do Brasil; Rio de Janeiro; Brasil Moreno; Isto aqui o que é ; No tabuleiro da baiana; Os quindins de Iaiá; Na baixa do sapateiro, entre tantas) escreveu alguns sambas de meio de ano, marcados também por expressivo eu-lírico feminino, como este, com letra de Luís Peixoto: No dia em que eu apareci no mundo Nesta canção (que viria a ser sucesso novamente décadas depois de lançada em regravação antológica de Elis Regina, no final dos anos 70), nota-se até mesmo um determinismo à Taine, quase um romance naturalista de Adolfo Caminha, dada a antevisão do fracasso e o esvaziamento prévio de horizontes deste eu-lírico. Há ainda outros bons exemplos de Ary Barroso, tais como Escrevi um bilhetinho; Camisa amarela e Já era tempo (esta em parceria com Vinicius de Moraes) onde a primeira pessoa feminina transparece nada além de uma forte submissão, portanto distanciada do padrão medieval dos “cantares d’amigo” . É da mesma época a ascensão de Lupicínio Rodrigues, cuja temática central de obra talvez seja a síntese das grandes tragédias passionais urbanas, o drama amoroso levado às raias do patético. As letras do célebre compositor gaúcho enfocando sobretudo traições, abandonos, relações impossíveis – grosso modo um Nelson Rodrigues da MPB – apresentam, em várias páginas notáveis, um forte eu-lírico feminino, quase sempre na voz grave e expressiva de Linda Baptista, como em Vingança; Volta; Cadeira vazia e Nunca, autênticas neo-cantigas. Nunca Nunca, Saudade, Saudade, Note-se que a resistência/determinação inicial cede, no fim, à necessidade de nutrir-se da nostalgia, realimentando, assim, o ciclo da coita amorosa. Ressalta-se ainda a presença de um interlocutor que “ouve” as dores e confissões do eu-lírico feminino. Nas cantigas medievais, este papel cabia, na maior parte das vezes, à natureza, a uma amiga ou à própria mãe da moça sofrida. Aqui, em Nunca, Lupicínio transfere, com grande propriedade, esse papel à Saudade. No próximo capítulo, abordaremos a produção das “neo-cantigas” desde a “era JK” até os anos 80. Nota do Editor: Clique aqui para ler a primeira parte deste ensaio ("As neo-cantigas de amigo: o legado trovadoresco na MPB") |
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