| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 99 - Junho de 2004 |
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ADEUS A CLAUDIO RODRIGUES Marco
Aureh A cultura petropolitana
está de luto. Após o falecimento do ator, dramaturgo, figurinista,
cenógrafo e diretor teatral Cláudio Rodrigues, na madrugada
do último domingo (16/05), um vazio repentino ficou instaurado.
Cláudio, que se foi aos quarenta e um anos de idade, tinha a primeira
das principais virtudes de um artista: ousadia. Gosto sempre de lembrar
que na astrologia, a casa que representa a criação tem como
verbo principal a palavra “ousar”. E essa foi uma forte marca
em seus espetáculos teatrais. Sempre direto, franco e objetivo,
tanto nas resoluções cênicas de suas montagens como
também no trato com as pessoas. Voz grave e forte, impunha seus
argumentos com veemência e, normalmente, era ouvido com atenção. Foram muitos os espetáculos criados e dirigidos por Cláudio Rodrigues nessas poucas dezenas de anos de sua existência. Sua veia criativa pulsava em jorro, sempre se aproveitando da contemporaneidade para se expressar. Seu último espetáculo foi “1964”, que estreou no ano em que o fatídico golpe completa quarenta anos: “Precisamos lembrar desse absurdo para que ele não se repita”, afirmou na ocasião. Ano passado ele montou “E assim passam os séculos em Bananatrópolis” , uma exagerada crítica ao ser humano e à cidade que ele escolheu para viver. O espetáculo segue uma linha alegórica farsesca, e como no teatro do absurdo, mistura personagens femininos e masculinos exigindo performances variadas dos atores. A abordagem foca o homem e seus desígnios sociais: “Passamos a discutir a posição do homem e da mulher numa sociedade mecânica, cheia de preconceitos e presa às normas e instituições já ultrapassadas”, explicou o autor. Bem, eu não tive a oportunidade de trabalhar com Cláudio, mas nos últimos meses estive em contato com ele em reuniões culturais e no Centro de Cultura, onde era fácil encontrá-lo. Essa aproximação fez com que eu encomendasse a ele os novos figurinos do espetáculo musical “Cantando Sylvia Orthof”; os desenhos estão em minhas mãos, alguém há de confeccioná-los e da melhor forma possível, com o perfeccionismo do seu criador. Sei que essa morte repentina foi como um soco em cheio no abdome de quem conviveu próximo a ele, mas que nos traga uma forçada reflexão óbvia acerca de como somos frágeis. A vida é frágil, tão frágil que às vezes nem percebemos que ela está presente. Eram muitas as qualidades do nosso amigo que também foi carnavalesco no Rio de Janeiro por muitos anos. Por essa razão e por sua alma de artista, deixo a lamentação de lado e rogo em tom de voz gravada, grave e firme saindo em off na platéia escura: - Amigo artista, que o seu espírito tenha um bom espetáculo!. |
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