| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 97 - abril de 2004 |
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LITERATURA Luiz
Gonzaga da Silva O experiente e sempre inimitável Manuel Bandeira, ao discutir os conceitos de poesia e verso, em ensaio do mesmo nome, resultante de conferência pronunciada na Casa do Estudante do Brasil e publicado em De poetas e de poesia, apenso ao Itinerário de Pasárgada, Livraria São José, Rio de Janeiro [1957], discute de maneira precisa inúmeros conceitos de poesia e, ao fim do substancioso trabalho, pondera que o fazer poético não é uma brincadeira ingênua nem um mero jogo de palavras e que, para se atingir o chamado verso livre (que ele esculpiu de maneira genial a partir do poema Gesso, em 1924, na sua terceira obra – Ritmo dissoluto), é necessário um esforço enorme do artista: [...] Basta dizer que no verso-livre o poeta tem criar o seu ritmo sem auxílio de fora. É como o sujeito que solto no recesso da floresta deva achar o seu caminho e sem bússola, sem vozes que de longe o orientem, sem os grãozinhos de feijão da história de João e Maria. Sem dúvida não custa nada escrever um trecho de prosa e depois distribuí-lo em linhas irregulares, obedecendo tão somente às pausas do pensamento. Mas isso nunca foi verso-livre. Se fosse, qualquer pessoa poderia pôr em verso até o último relatório do Ministério da Fazenda. Essa enganosa facilidade é causa da superpopulação de poetas que infestam agora as nossas letras. O modernismo teve isso de catastrófico: trazendo para a língua o verso-livre, deu a todo mundo a ilusão de que uma série de linhas desiguais é um poema. Resultado: hoje qualquer subescriturário de autarquia em crise de dor de cotovelo, qualquer brotinho desiludido do namorado, qualquer balzaquiana desajustada no seu ambiente familiar se julgam habilitados a concorrer com Joaquim Cardozo ou Cecília Meireles. [...] De fato, a proliferação de poetas, hoje em dia, chega a ser assustadora. Há-os, sem dúvida, e bons! Contudo, ao lado desses legítimos valores que vêm despontando aqui e ali no campo da poesia, vem grassando, subliminarmente, uma geração incômoda de subprodutos poéticos de qualidade discutível e de valor medíocre. E com um detalhe: quanto mais ruins, mais herméticos os seus representantes. A observação feita por Bandeira subsiste, pois, com toda a sua força e toda a sua extensão. Um detalhe a mais releva comentar: quando esses pseudopoetas não praticam a insensatez de chamar de poemas com versos-livres o ajuntamento caótico de palavras, colocam-se em campo inteiramente oposto, a praticar indiscriminadamente a fatura de sonetos! Proh pudor! Bilac se estorce de dor em seus restos, Alberto de Oliveira se estilhaça marmoreamente em mil pedaços, Raimundo Correia, metodicamente indignado, lança-lhes terrível olhar repleto do mal secreto da indignação, e Francisca Júlia, ofendida, foge em direção ao Parnaso, qual uma centaura assustada... A imagem pode ser forte, quase kitsch (esse agradável-que-não-reclama-raciocínio, como bem lembra José Guilherme Merquior, em Formalismo e tradição moderna...) mas é a única que se aplica perfeitamente neste caso. E talvez seja pelo fato exatamente de a poesia se encontrar falta de valores mais consistentes e, como tais, eternos, de a poesia se encontrar à mercê de qualquer um que pensa estar atingindo plenamente a nossa sensibilidade com seus joguinhos inconseqüentes de palavras, que a Topbooks lançou, em boa hora, Luz mediterrânea e outros poemas, de Raul de Leoni, em primorosa edição organizada por Pedro Lyra, que também se incumbiu da revisão técnica. A capa de Victor Bourbon, em tom ocre, discreto, a iluminar suavemente um detalhe arquitetônico-escultural clássico, emoldura de maneira elegante e direta o conteúdo mediterrâneo da luz poética que perpassa pelos poemas leonianos. Schiller se referia
à poesia, considerando-a uma força que atua além
e acima da consciência, aludindo àquele mundo do subconsciente
que todos trazemos dentro de nós e a leitura da obra de Leoni parece
confirmar plenamente esta afirmação. Indagações
como estas podem ter orientado Pedro Lyra, quando o experimentado professor
universitário se dispôs a organizar esta edição
da obra do poeta petropolitano, falecido em Itaipava, RJ, em novembro
de 1926, com apenas 31 anos. Ver esta língua,
que cultivo, Note-se que nunca esmoreceu, após o movimento modernista, o apego e o respeito demonstrados pelos maiores da poesia brasileira ao verso metrificado, às rimas perfeitas, ao cultivo do soneto. Um Drummond, um Bandeira, um João Cabral, um Vinicius de Moraes estão aí para confirmar. Luz mediterrânea,
nesta 15.ª edição, surge exatamente como um farol para
reiluminar e talvez reorientar os caminhos da poesia, a fim de que os
verdadeiros poetas, meio perdidos no caos estressante de produções
medíocres, reencontrem os atalhos que os conduzirão ao lavor
artístico e às produções de densidade poética
comprovada. O organizador, Pedro Lyra, estrutura seu trabalho de maneira bastante coerente e objetiva: começa por situar o poeta em sua geração, analisa-lhe os dados formadores do pensamento, disseca a relação (instinto x idéia) estruturante da argumentação, verifica-lhe a atitude em face do Modernismo nascente, entre outros detalhes, a partir de uma rigorosa revisão textual. O que resulta disso tudo é uma agradável leitura, após a qual o leitor já não é mais o mesmo que a iniciou. Estranha configuração esta... Há livros que lemos e de que nos deslembramos minutos após. Há obras que se lêem e marca alguma deixam em nosso espírito. Outras há, contudo, que promovem uma intensa e marcante experiência de vida, de que nunca nos esquecemos. Luz mediterrânea está nesse último caso. Schiller dizia que “a poesia é uma força que atua além e acima da consciência”, ponto de vista também sustentado por Manuel Bandeira, que acrescenta: “a poesia seria então a ponte entre o subconsciente do poeta e o subconsciente do leitor”. Estes princípios se aplicam como uma luva à poesia de Leoni que chega até à nossa sensibilidade exatamente através de Luz mediterrânea. A um prefácio recheado de argumentos precisos e de considerações estéticas de altíssimo nível, de sua própria lavra, intitulado “Um instintivismo hedonista”, Lyra acrescenta uma elegia composta por Ribeiro Couto, em Triestre, na Itália, uma longa nota sobre as edições já lançadas da obra e o texto, uma cronologia da vida e da obra de Leoni bem como, num apêndice, estudos e considerações críticas de Rodrigo Melo Franco de Andrade, Assis Brasil, Franklin de Oliveira e Fernando Py, a que se segue uma bibliografia tanto quanto possível atualizada de e sobre o autor. O certo é que furtar-se à (re)leitura dos poemas de Luz mediterrânea, numa época de conhecimentos globalizados e de visão fragmentária de um mundo em convulsão é, no mínimo, uma insensatez. O contacto com o mundo poético da obra traz a qualquer um o necessário momento de reflexão a que nos temos de submeter nesses nossos dias tão confusos. Costuma-se dizer que a poesia de Leoni é de angústia metafísica e demanda um enorme esforço de compreensão da mensagem que carrega. Nada mais falso. É, antes um exercício do espírito, um esgrimir de idéias, claramente compostas e organizadas num mosaico poético em que as cores não se confundem nem se agridem: simplesmente se estruturam harmonicamente. Leoni foi um esteta, antes de mais nada. Amou o ritmo, a plasticidade do poema, a harmonia da palavra, como uma expressão fluente, cálida, virtuosística, cuidada e eivada, aqui e ali, de uma adjetivação de reconhecido valor estético. Não é latente o pensamento filosófico que expõe ao longo de seus versos. Na verdade, este pensamento é explícito, evidente, e antecede, por assim dizer, o literário, havendo, então, o acoplamento dessa tendência filosófica de base metafísica com a forma perfeita em que se engasta. Achegado às
ideologias claras e espontâneas que lhe vêm da Renascença
que cultua e ama, nunca se entrega ao extravazamento vazio dos românticos
derramados. Revendo-se num
século submerso, O exame atento e perceptivo dos poemas que enfeixam o conjunto poético de Luz mediterrânea proporcionará ao leitor um dos mais gratificantes exercícios de cultura e de refinamento intelectual, aguçando o processo de autoconhecimento e de mergulho nos grandes temas arquetípicos do humano. Leoni proporciona reflexões e meditações de apurada importância aos que buscam respostas mais ou menos imediatas para os grandes problemas que nos assaltaram no final do século XX e permanecem, ainda, instigantes neste início do século XXI. Estamos a viver cada vez mais inquietantemente o peso da indiferença às coisas do Belo e da Harmonia em favor da decomposição dos valores estéticos que sempre informaram as mais lídimas manifestações do equilíbrio artístico. A propósito disso, cabe transcrever um de seus mais contundentes sonetos a respeito dessa indiferença, como se fosse um sinal de alerta à nossa falta de sensibilidade no campo da arte: ALMAS FRIAS Desesperadamente
estéries e sombrias, Nessa árida
rudeza de rochedo, Como são
tristes essas vidas sem amor, Mais do que nunca,
portanto, é urgente o retorno aos modelos canônicos da Arte
poética. Nada mais apropriado que a leitura de Luz mediterrânea
para tanto. E ele o fez, como homem, como filósofo, como poeta. Na conjugação do humano e do divino e na sutil elegância de sua dicção poética, Raul de Leoni proporciona, com Luz mediterrânea, oportunidade imperdível para os que gostam de poesia curtir com todas as letras o mais suave de todos os mergulhos nas águas límpidas e cristalinas da Arte, eterna. Muriaé, maio de 2001. |
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