Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 97 - abril de 2004


LITERATURA
A faca afiada de Fernando Fiorese

Maria Lúcia Campanha da Rocha Ribeiro
Doutora em Teoria Literária pela UFRJ
Professora do Mestrado de Letras da UFJF

La poesía moderna es una tentativa por abolir todas as significaciones porque ella misma se presiente como el significado último dela vida y el hombre. Por eso es, a un tiempo destrucción y creación del lenguaje. Destrucción de las palabras y de los significados, reino del silencio; pero, igualmente, palabra en busca de la Palabra.
Octavio PAZ (Corriente alterna)


E quando na poesia se busca a Palavra da prosa? O poeta, prosador e ensaísta Fernando Fábio Fiorese Furtado tem mostrado ao longo de sua trajetória poética um projeto de despojamento da mão armada, para mergulhar numa dissecação das palavras, com uma habilidade digna de João Cabral de Melo Neto em suas composições mais densas retirando todas as gorduras, formas, tornos e contornos do verbo para fazer de cada conjunto gráfico “a Palavra”.

Portátil, como ele gosta de marcá-la, mas fruto de uma escultura elaborada com faca afiadíssima para que o corte não lhe fira as fibras, não enerve o sentido. A solidão da Palavra deve brilhar oca para poder conter todos os sentidos cuidadosamente podados e crescendo numa nova densidade, própria do leitor, da cultura e do tempo.
Há que se mergulhar definitivamente no som e na letra, sem riscos, sabendo de antemão que palavras como propugnar são reservas da longa luta da linguagem, e “tem flechas, lanças, granadas” (p. 47), mas tem ainda o punho que precisa ser destro na hora de cortar.

Dicionário mínimo é o avesso do que conhecemos como “dicionários”. Dele foram podados os milhares de palavras de cada letra, e o que ficou é sempre surpreendente pela estranheza que expulsa o clichê e pela memória que despe a erudição, mesmo voltando às origens. É uma obra lúdica, como deve ser toda boa poética. Ilude o leitor, despista-o e brinca com as origens perdidas da autoria, dos processos de intrusão no ato da leitura, levanta interrogações. Na verdade, levanta a lona e arma um teatro para o qual o espectador/leitor está convidado a um jogo de deciframento.

Na mais perfeita fidelidade ao poético, Fernando Fiorese nos dá uma lição evidente do que seja o poema em prosa, essa estrutura múltipla que tem em si o duende e o decifrador de enigmas. Além disso, seu corte preciso não é demarcado racionalmente. A tensão emocional explode, os tempos e os fazeres do cotidiano colocam-se lado a lado para que o leitor pince o que mais lhe aprouver naquele instante de leitura – porque necessariamente serão muitas.

E a fusão se dá despojadamente, sem hermetismo, no cerne da memória que preside o presente: da infância à sala de aulas, à mulher e aos filhos, passando pela academia, pela crítica genética como uma receita que se preserva ao longo do tempo, mas sempre acrescentando um novo ingrediente. Difícil essa tarefa de silenciar para ouvir no tempo de um parlatório alucinante como o nosso...

Uma cobra mordendo a própria cauda, um caracol com abismo na entrada, uma bola só-cascas, voando entre a mão e o acaso.

Às vezes finge de mar, apenas para fazer blague da eternidade. (p.45)

Que palavra se esconde atrás dessa sinuosidade dinâmica que chega a imprimir movimento à eternidade? Como mobilizar as forças da competência semântica para chegar à Palavra-filha ou à Palavra-mãe? Na “onda” dessa eternidade gerada em terra firme, nas alturas do amor, está a vida que flutua e invade, devastando com sua força todas as nossas certezas. Como observa brilhantemente o poeta Iacyr Anderson de Freitas, também irmão na arte, “este é um dicionário que não foi estampado a frio, sem auxílio de experiências vivenciais ou afetivas, e que não tem, por conseguinte, o desígnio de escapar à subjetividade”.

As ilustrações de Eliardo França estão extremanente afinadas com os contornos do texto em sua faca afiada de cortes que superpõem camadas de sentidos, formando um mosaico de linhas e cores sóbrias, sob o qual se encontram curvas e arabescos, linhas de fuga. Perfeita a harmonia da imagem com letras-serpentes enroscadas, sutis pontilhados, herança de uma infância povoada por biloscas e búlicas, trens e velocípedes, mãos na terra e máquinas de andar. Há elos que se fundem, cores primárias que se tornam misturas eruditas, olhos por toda parte.

Por sua vez, o texto extrai utopias conjuntivas dos gêneros burocráticos, tornando-os aéreos nessa massa sintética de imagens e cognição lúdica e profunda. Na letra t, a “torre” se faz panóptica:

Considerando que o labirinto seja a vertigem da geometria, o éden bárbaro, e a pirâmide, a domesticação desse abismo horizontal; considerando que o labirinto faz-se e desfaz-se em horizontes e a pirâmide se impõe como único horizonte, a ponto de negá-lo com sua matemática inumana; considerando que o labirinto nos habita antes de o habitarmos e a pirâmide nos coloca à distância; então a torre aniquila qualquer geometria, qualquer curva, qualquer reta, para afirmar-se como ponto de vigia. (p. 55)

Há jogos de palavras, frases-versos curtas, incisivas, brincantes, como em “Kitsch” – “O fascínio do fácil. O fascínio do falso. O fascínio do fausto./O fascínio do fóssil. O fascínio do físsil. O fascínio do fute.” (p. 37) –, texto que vai além de qualquer busca concretista, mas também o é e capta nas profundezas a essência do vocábulo, levando o leitor a outro dicionário, o léxico, para certificar-se do sentido, do neologismo, do fato sonoro.

É, realmente, um belo exercício minimalista o Dicionário mínimo de Fernando Fiorese. Justamente porque no mínimo está o máximo da densidade, sem o peso sombrio e sério do passado, mas numa obra essencialmente contemporânea, sem se descuidar das raízes. Algo que nos lembra ainda o bom Aníbal Machado, quando produz poemas como em “queda”:

Foi uma esfoladura no joelho de Deus, ainda quando decai, nos domina. (p.49)

Se bem pensamos, Dicionário mínimo é o livro de cabeceira de uma vida.