| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 96 - março de 2004 |
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LITERATURA Marcelo
J. Fernandes
Em muito boa hora, a Editora Kelps, de Goiânia, lança este título do poeta, crítico literário, ensaísta, tradutor e redator Fernando Py. Esta belíssima edição – com reprodução de Morte e fogo, de Paul Klee, na capa – apresenta, na verdade, um livro inédito, Sentimento da morte, e uma antiga “dívida” de Fernando Py com seus leitores: uma breve seleta de poemas já publicados em seus esgotados Aurora de vidro (1962); A construção e a crise (1969); Vozes do corpo (1981) e Sol nenhum (1998). Ainda que o autor alerte, à apresentação, de que o foco central é a morte, não se trata, a rigor, de temática mórbida. Fernando Py passeia, de fato, por questões várias que celebram sobretudo a vida, tais como a infância, a nostalgia da adolescência, o encontro com a maturidade, através de inventários do passado e evocações saudosistas, longe do amargor byroniano e próximo da irônica e salobra sabedoria drummondiana. São especialmente notáveis os poemas de memória Fui eu, Matinal ( este revelando a gênese do poeta), Encontro, o longo e magistral Sentimento da morte, inventário e prestação de contas do tempo deste eu-lírico, que deságua em belíssima quintilha de versos em redondilha maior: “Vida só vale é vivida/ A morte dela faz parte./ Não fracassa quem na vida/ com seu próprio engenho soube/ Transformar a vida em arte”. Em Poemas anteriores a mesma temática ainda abriga Transformações, O menino velho e Tango, para citar alguns. Também sobressaem outras lindas páginas, de outra temática, tais como os irônicos Cave canem e Sorria; o dulcíssimo lirismo amoroso em Noturno, e a face material e concreta das aliterações e onomatopéias no nominal Bichos. Estilisticamente, o apuro formal de Fernando Py é notório e notável. Neste livro, ao escolher a morte como eixo central, salientamos a riqueza de sua criação poética, ao retomar o tema valendo-se ora de eufemismos, ora de perífrases e metáforas, tais como “penetrar no antiuniverso”, em Conhecimento da morte; “... foges para o infinito,” e “... transpores a Eternidade”, em Lembrança de Giles; “ ascender ao divino”, “voar à excelsa plenitude” em Indagações; ou mesmo uma citação “trágica” de “um tango fatal”, em Tango, entre muitas outras. Pela extensão
breve, Sentimento da morte & Poemas anteriores termina deixando a
impressão de um couvert delicioso: prepara e instiga o leitor a
querer outras tantas e tantas páginas. O imortal João Ubaldo
Ribeiro, em bem-humorada crônica, disse, certa vez, que, um livro
que se prezasse deveria sustentar-se sozinho, de pé, na prateleira.
Este volume de Fernando Py não poderia se enquadrar, pela espessura,
neste padrão. Mas, pelo teor, sustenta uma biblioteca inteira...
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