Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 96 - março de 2004


MÚSICA
A flauta no progressivo

Marco Aureh
flautista e compositor, fundador integrante dos grupos LUMMEN e PALMA de música progressiva; co-produziu e apresentou o programa Tribuna Progressiva na rádio Tribuna FM durante 4 anos; escreveu sobre música nos jornais CULTURARTE e VERTENTE. Atualmente é membro do conselho editorial do jornal POIÉSIS. O presente artigo pode ser lido na íntegra no site do músico em www.marcoaureh.com.br

 

A flauta, sem dúvida nenhuma, é um dos principais instrumentos da Música Progressiva. Não só pela sua presença constante em diversos grupos, como pelas suas próprias características afinadas ao gênero. Se deixarmos à parte os “tradicionais” e básicos, guitarra, baixo, teclado e bateria, a flauta aparece como o instrumento “erudito” mais importante dentro do cenário progressivo. Desde o tímido sopro de Peter Gabriel, até o vigoroso toque de Ian Anderson, o mágico cilindro de Pan e Krishna sempre teve atuação marcante na história do rock-arte.

No auge do jazz, a flauta quase sempre cumpriu um papel de coadjuvante. O moderno sax despontava como a estrela principal. Entretanto, alguns saxofonistas também tocavam flauta. É o caso de um cego norte americano chamado Roland Kirk. Ele foi um flautista inovador. Ao lado de Jeremy Steyg, Roland foi um pioneiro na arte de soprar e murmurar simultaneamente. Esse toque consiste em emitir a voz do flautista, em uníssono ou numa oitava abaixo, juntamente com o som da flauta; o efeito proporciona um resultado sonoro bastante vigoroso e orgânico. Esta técnica atualmente é bastante utilizada. Ian Anderson (JETHRO TULL) admite que Kirk foi a sua maior inspiração - fato assinalado no primeiro álbum do TULL, “This Was”, onde Ian gravou um tema de Roland, “Serenade to a Cuocko”. A partir desses flautistas revolucionários, a flauta mostrou uma outra face.

Até então associada à suavidade e a delicadeza, a maioria das pessoas ignorava a possibilidade agressiva da flauta transversa (tocada de lado, na transversal). Atualmente essa noção mudou bastante. Graças a alguns músicos ousados, o som da flauta pôde se mostrar incisivo e cortante como uma navalha afiada. Com essa performance enérgica, a flauta atua em condições de igualdade em meio a guitarras pesadas, baixos, teclados e baterias. Por outro lado, fica a opção de suavidade e leveza que sempre proporcionou um incrível contraste sonoro no universo do Rock.

VERSATILIDADE
A flauta é o instrumento mélódico mais antigo da face da terra. Flautas feitas em ossos, chifres, caules ou bambus, remontam os primórdios da civilização. São muitas as possibilidades de confecção - flautas de madeira, de barro, de metal, de marfim, de tubos de plástico, etc. Os resultados sonoros são diversificados. Algumas dessas rudimentares flautas permitem escalas que chegam a alcançar até 3 oitavas; um instrumento bastante acessível e ao mesmo tempo repleto de identidade. Esta personalidade sonora fascinante, que encanta ovelhas, serpentes, anjos e seres humanos, é uma das razões que torna este instrumento tão mágico. Ele sempre foi associado aos deuses em diversas culturas e mitologias, principalmente na Grécia, com Deus Pan, um Fauno que tem o corpo híbrido, metade cabrito, metade menino com chifres. Este lendário ser, habita os bosques e toca uma flauta feita com diversos bambus unidos paralelamente (flauta de pan na Grécia ou zampoña na América Latina). Na Índia, como o inseparável instrumento de Khrisna.

A flauta - como se não bastasse o pioneirismo - é o instrumento de sopro mais versátil que existe. Na música folclórica de quase todos os povos, do erudito ao popular, passando por variados estilos musicais, os solos de flauta sempre se encaixam perfeitamente.

Vejamos alguns gêneros musicais brasileiros onde ela se sente bem à vontade. No baião, frevo, chorinho, samba, bossa-nova, xote, maracatu, afoxé ... e por aí vai. Em termos gerais, seria mais fácil perguntar em qual gênero ela não se enquadra. Na música indiana, indígena, árabe, nos diversos segmentos da música erudita, medieval, renascentista ou barroca, clássica, romântica, contemporânea, enfim, seja em uma balada, valsa, toada ou reggae, e, obviamente, na música progressiva, a flauta proporcionará sempre um auxílio luxuoso incontestável.

NA TRILHA DA MEDITAÇÃO
A flauta sempre foi encantadora. O conto “O flautista de Hamelin” do poeta inglês Robert Browning descreve o poder de sedução desse instrumento. E foi inspirado nessa magia que alguns dos grandes flautistas conduziram suas obras destinadas ao desenvolvimento e elevação dos estados de consciência. O canto da flauta soa ao mesmo tempo rústico, místico e cósmico - sua melodia casa perfeitamente com a harmonia das esferas.

Desde a antiga Grécia, a música era utilizada para equilibrar energeticamente o ser humano. Na Índia, música e saúde se harmonizavam. As melodias renascentistas e barrocas soladas na flauta já criavam um certo estado de relaxamento. Mas foi nos anos 60, que apareceu um movimento que foi batizado de “New Age Music” ou “Musica da Nova Era”. Ele viria concretizar e divulgar a música criada para harmonizar mente, corpo e espírito. O “novo” gênero musical - que teve sua expansão mercadológica na década de 80 - surgiria como um bálsamo num mundo repleto de turbulências. Era a música suave como contraponto para o dia-dia estressante das grandes cidades. E o nosso famoso instrumento mais uma vez seria um dos principais protagonistas.
Nessa trilha da meditação, não poderíamos deixar de citar o grande flautista norte-americano Paul Horn. Ele conduziu como ninguém o cilindro de furos numa jornada sonora que nos remetia à quietude interior. Solos de flauta suspensos no ar, duetos com o silêncio, com baleias e elementos da natureza - uma rica e criativa atmosfera de “vibrações meditacionais”. Certa vez, Paul Horn - que teve uma passagem no jazz - afirmou: “Depois de tocar 3 mil notas, descobri que apenas 3 bastavam”. Dentre diversas gravações voltadas para expansão da consciência; destacamos “Paul Horn in India & Kashmir” (1968!!!) , “Iside the Powers of nature”, “Peace Álbum”, “Inside the Taj Mahal” e as gravações feitas na principal pirâmide do Egito: “Inside the Great Pyramid”.
O flautista inglês Tim Wheater é outro integrante do movimento New Age; destacamos os álbuns “The Encanter” e “Timeless”.

Do norte-americano Larkin, que com a suavidade de sua flauta ,criou excelentes músicas para o espaço interior; destacamos “Ocean” ,”To the Essence of a Candle” e “Concert Journey”.

Dentre as várias obras para meditação criadas pelo flautista Georg Deuter, citamos “Aum” , “Haleakala” e “Nirvana Road”.

Por último, mencionaremos o flautista de jazz Herbie Man, que também teve sua incursão na música com características meditativas e espiritualistas, quando gravou no Japão, o álbum “Gagaku & Beyond”; o disco faz um link musical entre Ocidente e Oriente.