| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 96 - março de 2004 |
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LITERATURA Fernando
Py
No livro Confissões de Minas (1944), Carlos Drummond de Andrade inicia uma crônica sobre um amigo morto dizendo: “A vida separa os amigos, que a morte vem juntar bruscamente.” (p. 57). A morte de Fausto Cunha, em 30 de janeiro último, colocou no primeiro plano das minhas lembranças a figura do crítico e amigo que, desde os anos 60, tanta importância teve na minha evolução literária. Não nos víamos desde fins do decênio de 1980, quando ele perdeu a mãe e meio que se isolou da vida literária. Sei que continuava escrevendo, produzindo, e chegou a publicar um volume de ensaios, Romantismo e modernidade na poesia, pela Editora Cátedra (1988). Porém já não nos encontrávamos, e ele não atendia aos meus telefonemas e, com uma exceção, não me escrevia nem acusava o recebimento de meus livros. Como morássemos em cidades diferentes e eu, sobretudo a partir de 1994, aposentado, fosse menos vezes ao Rio de Janeiro, o encontro pessoal tornou-se bastante problemático. De vez em quando, tinha notícias dele por Assis Brasil e Haroldo Maranhão. Mas Fausto era uma presença constante nas minhas recordações. Ao publicar o Antiuniverso, naquele mesmo ano de 1994, mandei-lhe um exemplar com uma dedicatória a um tempo afetuosa e entusiasta, onde falava que o poema era minha obra de ficção-científica em versos. Sei que recebeu o livro porque Assis Brasil me disse que sim. Ficção-científica: era a grande paixão de Fausto. Conhecia uma quantidade imensa de escritores do gênero, ainda os menos divulgados, e ele próprio o cultivou com interesse e domínio do assunto. Primeiro foram os contos de As noites marcianas (1960; 2ª edição, 1969), onde há textos notáveis como invenção e desenvolvimento, como “61 Cygni”, “Mobile”, o antibergsoniano “Regresso” e “A vela que o mundo apagou”, este último escrito sob a forma de resenha a um livro. Mais tarde vieram a novela O beijo antes do sono (1974) e um volume composto de seis contos e uma narrativa mais longa (O dia da nuvem, 1980). Lembro-me que na noite do lançamento do livro de estréia de Nélida Piñon, Guia-mapa de Gabriel Arcanjo (1961), a que compareci por simples curiosidade, algumas pessoas gracejavam com um senhor baixote, de óculos, a propósito de um livro de publicação recente: eram As noites marcianas e aquele baixote era o próprio Fausto. Nessa noite o conheci de vista, ainda sem saber quem era. Não tive uma idéia segura de seu trabalho de crítico até a publicação de A luta literária (1964). Para mim, que mal principiara a redigir recensões de livros nas revistas Convivium, Comentário, Leitura e Cadernos Brasileiros, ler esse livro valeu por uma revelação. Não apenas da estatura de Fausto Cunha como ensaísta e crítico literário mas também, principalmente, porque ele falava de autores e livros que eu mal conhecia, ou nem conhecia, sendo que jamais ouvira falar de alguns. E a leitura e releitura sistemática do livro me levou, certa ocasião, a dizer ao mesmo Fausto que A luta literária era a minha Bíblia. Isso, no entanto, quando já éramos amigos e eu tinha familiaridade suficiente com ele. Pois é verdade que fomos muito amigos, de uma amizade nascida não apenas do convívio nas letras, mas de certos gostos ou características que nos aproximavam. Alguns anos antes, Fausto Cunha, secundando o trabalho teórico de Afrânio Coutinho, se empenhara, junto com Bráulio Nascimento e outros, numa “luta contra o primado crítico de Álvaro Lins” (A luta literária, p. 53). Ou seja: contra a perpetuação de um impressionismo crítico, ao qual Afrânio opunha o seu new criticism, que exigia a análise de uma obra a partir mesmo de suas virtualidades estéticas e não de compromissos morais e materiais. Embora Fausto Cunha concordasse, em princípio, com a orientação de mestre Afrânio, sobretudo quando este postula a permanente atualização da crítica, discordava dele quando Afrânio insistia numa condenação de todo e qualquer tipo de impressionismo crítico. Também embarquei nas águas de Fausto e, ao começar a escrever notas e resenhas críticas para o Correio da Manhã (numa colaboração que durou de fins de 1964 a fins de 1965), procurei enfocar a obra comentada segundo o que o próprio texto me oferecia. Assim, através de Fausto, fui um discípulo de Afrânio Coutinho. Em abril de 1965,
escrevi um poema intitulado ‘Notícia’ e o dediquei
a Fausto. O poema se baseia na possível comunicação
interestelar de alienígenas e, lá pelas tantas, falo em
“superelétrica figuração de entes dispostos
a melhor convívio” (de passagem: muitos anos depois, ao ver
o filme Contatos imediatos do terceiro grau, tive a satisfação,
ou a vaidade, de sentir essa “superelétrica figuração”
na célebre cena das comunicações eletrônicas
da nave espacial). Fausto gostou muito do poema — que faz parte
do meu segundo livro, A construção e a crise (1969) —,
tanto que, na dedicatória do seu livro sobre Vicente de Carvalho
(1965), escreveu: “Ao poeta Fernando Py, agradecendo a belíssima
‘Notícia’ cósmica, este (...) do Fausto.”
Por terem nossos primeiros nomes iniciais idênticas, ocorreram alguns equívocos curiosos, principalmente quando “Fernando Py” era um nome desconhecido. Na seção ‘Revista dos Livros’ do Correio da Manhã, os artigos eram assinados apenas pelas iniciais dos autores. Minha primeira colaboração foi o comentário sobre a antologia Contos húngaros, de Paulo Rónai. A nota saiu assinada com as iniciais F. C., em vez de F. P. O resultado é que Paulo Rónai foi agradecer a Fausto o artigo e ele, sem saber de nada, respondeu que a autoria não era sua. Mais tarde, o equívoco desfeito, demos boas risadas. Em 1969, Fausto chamou-me para colaborar num empreendimento do professor Leodegário A. de Azevedo Filho, Poetas do Modernismo, porque estava muito atarefado e não podia escrever os ensaios sobre todos os escritores que lhe haviam sido designados. Ocupei-me então da poesia de Joaquim Cardozo, elaborando um estudo crítico, com antologia comentada e notas. Poetas do Modernismo, em seis volumes, saiu apenas em 1972, publicado em Brasília pelo Instituto Nacional do Livro, e cada colaborador tinha direito a receber uma coleção. Não recebi logo os livros: haviam sido cometidos oficialmente a Fausto Cunha. Só depois de apelar para minha amiga, escritora Maria Alice Barroso, então diretora do INL, consegui recebê-los. Meu trabalho sobre Cardozo está no livro Chão da crítica, publicado pela Francisco Alves em 1984, e cujo texto de “orelhas” Fausto generosamente escreveu. Não me estenderei
mais. Se, como escreveu Drummond, a vida separa e a morte junta, não
é menos verdade que a morte de amigos e parentes vai formando um
deserto ao redor dos que sobrevivem, vai matando um pouco do que eles
foram, ou são. A morte de Fausto Cunha deixa-me numa espécie
de desamparo, ausência impreenchível que é quase uma
amputação dolorosa. Adaptando Camões: “Não
mais, gente, não mais, que a vida tenho destemperada e a voz enrouquecida.”
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