Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 95 - fevereiro de 2004


RESENHA
Martim Cererê: 75 anos

Fernando Py
poeta e tradutor, autor de "Bibliografia Comentada de Carlos Drummond de Andrade".

 

A trajetória poética de Cassiano Ricardo (1895-1974) passou por diversas fases, sendo que, até 1925, o poeta era imune à revolução modernista. Seus livros desse período seguiam a estética parnasiano-simbolista, como Dentro da noite (1915), Jardim das Hespérides (1920), A mentirosa de olhos verdes (1923), etc. Se tivesse ficado nisto, não estaria sendo lembrado hoje. Mas, interessando-se pelo Modernismo, o poeta passou a praticar obsessivamente o verso-livre, logo aderindo a uma estética nacionalista, representada pelo verde-amarelismo (Borrões de verde e amarelo, 1926; Vamos caçar papagaios, 1926) e logo após pela sua “derivada”, a “Anta”. Nesta última tendência é que se situa uns dos livros mais significativos da poesia da primeira fase modernista: Martim Cererê (1928).

Tanto o verde-amarelismo quanto a “Anta” eram estéticas que prepararam as divisões políticas dos anos 1930, assumindo uma posição de “direita”. Mas o que importa, neste artigo, é verificar a trajetória e evolução, já não do poeta e homem político Cassiano, e sim do próprio Martim Cererê. Sua publicação deu-se em 1928, ano crucial para o nosso Modernismo, quando também foram editados livros seminais como Macunaí-ma, de Mário de Andrade, e Retrato do Brasil, de Paulo Prado. Era o momento em que a primeira fase modernista alcançava o seu auge, evoluindo a seguir para um processo de consolidação e cristalização das conquistas obtidas. E é curioso assinalar que, dos escritores citados, somente um, Mário de Andrade, é autor fundamental do Modernismo. E a importância de Martim Cererê se coloca mais no futuro que no presente de 1928.

Temos em mãos uma nova edição do livro (Rio de Janeiro: José Olympio, 22ª edição, 2003, 256p.), comemorativa dos 75 anos da primeira. Martim Cererê se compõe de poemas diversos, interligados, variados em forma e ritmo, que no seu substrato lírico e mítico desen-volvem um texto de contornos épicos e narrativos. Aproveita lendas indígenas e africanas, como o surgimento da noite, para cantar o desen-volvimento do Brasil. O índio Aimbirê e o marinheiro branco Martim, apaixonam-se pela Uiara, que diz casar-se com aquele que lhe trouxer a noite. Martim vai à África e traz os negros escravos — que são a noite — e dessa união de brancos e negros surgem os bandeirantes, que desbravam os sertões, plantam os cafezais, construindo as fábricas e arranha-céus da capital paulista, retratando em tudo isso a formação do Brasil.
Falei acima que Martim Cererê se coloca mais no futuro que naquele presente de 1928. Vejamos como. A versão primitiva do poema era bem diversa da atual, e certamente menos universalista. Cassiano Ricardo trabalhou no texto do poema durante cerca de vinte anos, modificando-o inclusive com acréscimos: só na sexta edição (1940?) deu o texto como definitivo; mesmo assim, na 12ª edição, pela José Olympio (1970?), a última publicada em vida do poeta, ainda reviu o texto inteiro, acrescentando um artigo em que revogava as demais edições. Por aí se vê como foi acidentada a trajetória desse livro. O poeta reconhecia em Martim Cererê uma realização importante, ímpar — no sentido em que, depois dele, somente os livros da fase pós-modernista (Um dia depois do outro, 1947; A face perdida, 1950; Poemas murais, 1950) e do experimentalismo vanguardista (João Torto e a fábula, 1956; O arranha-céu de vidro, 1956; Jeremias-sem-chorar, 1964, etc.) iriam alcançar a mesma altitude. De todo modo, a versão definitiva de Martim Cererê, com seus acréscimos e modificações — cujo estudo infelizmente não posso realizar, pois faltam-me diversas edições do poema — quase pode considerar-se como obra do Cassiano pós-modernista, mais maduro, que teve a grandeza de não se contentar com o texto primitivo e reelaborá-lo constantemente, fazendo de Martim Cererê uma obra fundamental da poesia brasileira do século XX.
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