Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 95 - fevereiro de 2004


CONTO
É hoje só

Marcelo J. Fernandes
Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ, Diretor do Colégio Santa Teresa D’Ávila, Membro do Conselho Editorial de Poiésis. (mjfernandes@ig.com.br)

 

Pro Aldir Blanc

Escutei de longe o rufar das caixas. Mais precisamente, enquanto ajeitava a última latinha no freezer abarrotado de abomináveis teipeuéres e embrulhinhos de papel alumínio – depois daquele curso de congelados, a Margô tornou-se insuportável – ah, e a minha sagrada sardinha de pesca. Minha, não, minto. Nossa. Minha e de meu inclassificável cunhado, Lemos. Note que um cunhado só poderia se chamar Lemos, como se fosse, sobretudo, um plural.

Uma Terça-feira Gorda dessas típicas, ela ainda de maiô, fritando batatas, as crianças ardendo de praia, besuntadas de hipoglós, daqui a pouco chega o mamífero da minha sogra. Invariavelmente, tomará a minha cerveja mais gelada, reclamará da temperatura, lambendo o buço que ela faz no barbeiro da esquina. Pior: hoje, claro, não tem Maraca, portanto não tem Fogão; não tem, também, cavalinhos. Mas o Aguiar, lá da seção, que é irmão de jóquei – meio puxador, meio cegueta, mas vá lá – prometeu, pra quinta, uma barbada impossível, papo de cocheira, pra ficar de boreste até o Natal... Veremos.

O marulhar dos chocalhos de arroz e os tamancos uníssonos foram a salvação, e invadiam a minha janela como um Papai Noel enganado. O som me chegava como a maresia, aqui no meu Catete, filtrada e digerida pela aristocrática orla do Flamengo... Tudo passava primeiro pela franja de concreto soberba da Beira-Mar. Súbito e quase mediunicamente, corri até o armário para ver o aparato, sob a cortina de pó que cobria os meus trajes momescos, no quartinho de empregada, aqui um misto dosado de templo e camarim.

Selecionei, básico. Como um bólide errante e regular, ganhei as escadas do prédio sem elevador. Óculos-de-nariz, uma peruca-de-careca, um tomara-que-caia sobre seios de casquinha de sorvete deram o arremate exato na minha fantasia pós-Lesbos, pré-dark, pseudo-gay, sub-gótica, under-Gerald Thomas, sei lá.

Peguei ainda a ala dos bumbos dobrando a esquina. Sob os ombros idênticos, intercalei-me nos compassos e, perto do Palácio, juntei-me a eles, compactos e desiguais. Na Ala das Bonecas, uma morena mignon pareceu-me, assim, de soslaio, o Alaor do almoxarifado. Pai de três filhos, machão, conservador, ex-coroinha e ex-juvenil do América, sugeria, pela postura, algo mais para o enrustimento do que para a gozação; chamou-me em falsete várias vezes, pelo nome, provocando-me. Quando investi em seu ridículo busto de esponjas e estopa, esquivou-se, covarde, omitindo-se sob tanta purpurina dourada e cúmplice.

Os couros e esteiras estalavam seu eco surdo no meu abdome, martelando o que, um dia, fora uma parede de músculos (guardo, com orgulho, envolta em papel-manteiga, junto às gravatas, a faixa “Rei do Nado Cachorrinho de Paquetá – 1966”). A convulsão dos trompetes e os trombones em contraponto cirandavam estereofônicos meus ouvidos, acionando minhas pernas e flancos magicamente, como se eu fora um títere de Dioniso.

Esqueci-me de tudo. Agora eu era outro, no meio de tantos. Alah-la-ô. Aurora. Se a canoa não virar. Taí. Índio quer apito. Saca-rolha. Touradas em Madri. Recordar é viver. Pirata da perna de pau. Olha a cabeleira do Zezé. Será que ele é? Dane-se! Quis mais me rasgar, suar confete multicor. Um bate-bola me beijou, uma mulataça enroscou-se na minha serpentina, em meio aos vapores dietílicos. Um colosso de chocolate, prometi casamento na Candelária, papel passado em uma semana. Escutei, no fundo da consciência, a voz do filósofo Jorge Perlingeiro: “um negócio desses não pode ser criado em apartamento...”. Desisti, então. Ah, Lalá, o cabelo dela não negava! Quero outra lata, estúpida como meu lar, não volto tão cedo pra aquele marasmo, ranço estéril e estanque.

Bom demais. Eu quero tudo. Mamãe, eu quero mamar. Quero a folia toda na veia, com gin barato, vodca com nome de vedete russa. Não sei mais o meu nome, nem de onde vim. Agora, eu sou o samba. (“...sou natural aqui do Rio de Janeiro...”)

No apogeu de tudo, imaginei a passagem defronte às cabines dos jurados e, como bom mangueirense e filho de Oxumaré, evoluí diante da bateria, exatamente na linha dos tamborins, dizendo no pé ora como Delegado, ora como Neide.

Há sempre um destino desastrado nas manobras da catarse. Desde sempre. Algo entre a Moira e Murphy. Frevava a minha solidão, entorpecida pelo bom e velho ópio que anualmente me batucava as entranhas. A solução imediata e contusa. Vã e implacável. Como os últimos coros, coesos e harmonicamente desafinados.
Porém (“ai, porém”), um espadachim pueril, talvez o Zorro da Quinta da Boa Vista, desprovido de educação e do Sargento Garcia, apeou-me de bate-pronto os óculos, com um touché na contramão. Rodou tudo, desencontrando, de vez, os golpes que o negão dava no repinique ao meu lado.

Estatelado, armação vazada nas mãos, eu tudo entendi. Anônimo, despi-me ali mesmo. Limpando o derradeiro confete que insistia colar no suor – o confete é o melhor amigo do suor, além de notório alcagüete - ainda pude ouvir o alarido da turba, junto à porta de casa;

- É hoje só... É hoje só... É hoje só...

Chave na mão, pé no primeiro degrau, pensei no lar, na patroa, nos moleques... Convicto, voltei. Pro bloco, pô!


Nota do Editor: O conto acima foi premiado no último Prêmio Walmap de Literatura Brasileira, pelo Banco Nacional, em 1989.