Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 94 - janeiro de 2004



LITERATURA INFANTO-JUVENIL
BARTOLOMEU, POESIA E MÚSICA

Yeda Prates Bernis

mineira de Belo Horizonte, onde sempre residiu. Poeta com diversos livros publicados, é diplomada em Letras Neolatinas; cursou também Canto e Piano no Conservatório Mineiro de Música.

 

Bartolomeu Campos Queirós está completando 30 anos de atividade literária, com sucesso internacional, confirmado por prêmios como o Hans Christian Andersen – promovido bienalmente pelo International Board of Books of Youth, instituição sediada na Inglaterra e vinculada a UNESCO – pelo seu livro “Indez”.

Este prêmio, dentre muitos outros nacionais e internacionais, tem o valor equivalente a um possível Nobel de Literatura Infanto-Juvenil, se tal existisse.

Vários estados brasileiros têm condecorado este escritor mineiro, reconhecendo-lhe um valor poucas vezes encontrado em escritores brasileiros.

Falar da obra de Bartolomeu é falar de poesia e música.

Não cultua a banalidade, em seus escritos, antes nos oferece recantos de linguagem e poesia cintilantes.

Instaura o mistério que existe no ser, expressando a ausência de sua plenitude.
Muitas facetas poderiam ser visitadas na obra deste mago da linguagem, mas uma delas, que muito nos apaixona, é a da expressão musical de sua fala.

É polifônica sua obra.

Orquestrador de uma sinfonia cósmica, ele compõe, ele compõe seus livros com dinâmicas recorrentes à música, isto é, entre maior ou menor intensidade de significados e sons com andamentos que vão do adágio, dolce, pianíssimo até o presto, prestíssimo e largo.

Isto nos faz recordar das palavras de Walter Pace, que disse: “toda arte aspira a condição de música”.

E não foi Verlaine quem afirmou sobre a arte poética, “de la musique avant toute chose”?.

Com efeito, seu trabalho insinua acordes às vezes insuspeitados.

Tudo isto, com as pausas musicais, de hipotéticas pautas, respiros entre signos, instauradas em silêncios conferidos pelo autor a um “mundo feito de silêncios”.
Ele mesmo proclamou: “Muito mais do que aquilo que escrevo, vale o silêncio que consigo deixar entre as palavras”.

Filósofo por destino, poeta por vocação, “músico” pelo lavor com as palavras, eis que Bartolomeu tem composto uma obra que justifica toda esta gama de qualificações e de experiências.

Vê homens, natureza e coisas com uma cumplicidade que esconde a fragilidade de que são revestidos.

Mas é na música, inspirada em sua obra, que nos envolveremos neste artigo.

Suas palavras obedecem a ritmos e colorações próprias da música. E o sentido delas nos leva a sonhar com temas musicais que nos envolvem por inteiro, numa intertextualidade provocada por nossa sensibilidade, que só nos enriquece.
Assim, relembramos textos lúdicos para a infância, como “Papo de Pato”, “Estória em 3 Atos” e “As Patas da Vaca”, brincadeiras alegres que nos fazem lembrar de Villa Lobos, com suas composições também lúdicas para crianças, encontradas em álbuns de canto orfeônico.

“Onde Tem Bruxa Tem Fada”, dicotomia que é expressa no próprio título, faz-nos lembrar de sonatas, onde duas vozes se fazem ouvir, às vezes separadamente, às vezes unidas. É belíssimo este texto de Bartolomeu, quando o bem e o mal andam lado a lado, interpenetrando-se como na própria estrutura de uma sonata.

Fada e bruxa são a realidade que assiste ao ser humano. E a sonata repete as duas expressões musicais, harmoniosamente.

Em “Minerações”, maravilha poética, há notas de sinfonia vibrando, suspensas em cada palavra. Os sons estão presentes em cada signo: vento, terra, semente, fruto, lágrima, conchas, pérolas, rio, sal, chuva, nuvem, pétala e flor, orvalho e noite.

Aqui, “há ruído de asas arranhando o silêncio”. Pedras cantam, pássaros solfejam; “Há que se escrever a vida em flauta e vôo, como cantam os pássaros”, diz o autor.

“Inaugurar no homem um destino vertical”, “somar-se à natureza até o último sempre”.
Este é um canto universal de beleza incomparável, quando o poeta se une a tudo, percebendo o cintilar da natureza em sons e cores, buscando um destino vertical, qual seja, absolutamente holístico e espiritualizado.

Para a imponência deste livro, só mesmo a 9ª Sinfonia de Beethoven, encerrada com um hino à natureza e à alegria.

“Vida e Obra de Aletrícia” e “Até Passarinho Passa” são duas últimas composições literárias de Bartolomeu, que conta com um sem número de outros livros, do mesmo nível de qualidade. “Aletrícia”, texto diferente de todos os demais, nos faz pensar que poderia resultar em boa ópera-bufa, pois que tanto faz rir como chorar, pela dramaticidade cômica da personagem, presa de obsessão compulsiva, vítima de seu desmedido amor pela ordem ao alfabeto.

Já de “Até Passarinho Passa” poder-se-ia recordar de algum “lied” de Schuman, tal a doçura do amor existente entre o pássaro e o menino. Ou, ainda – quem sabe – um solo de oboé, delicadíssimo, acompanhando o pássaro – e até cantando com ele – até sua morte, em “pianíssimo”.

Na trilogia “Indez”, “Por Parte de Pai” e “Ler, Escrever e Fazer Conta de Cabeça”, Bartolomeu se faz menino e recupera o já vivido na infância, entre lembranças e fantasias.

São três belíssimos livros, onde toda uma ambiência do interior mineiro, com seus personagens únicos, seus afetos, seu inventário de hábitos e posturas, seu universo vivido entre perdas doloridas e observações agudas, onde os receituários originais, festas e brincadeiras infantis não se perderam em sua lembrança.

Para esta trilogia, que é a essência da infância do escritor, eivada de sonho e poesia, não poderíamos deixar de imaginar a “Berceuse”, de Brahms, que o próprio autor foi compondo, ao escrever os livros. É que ele, com isto, ,acalenta com carinho sua lembrança, que ele próprio acordou, para fazê-la dormir, então, no berço quente de seu coração. Parece que ele canta: “Buona notte, oh gentil, schiude il ciglio ao reposo”...

Ressalte-se, agora, “Escrituras”.

Este livro extraordinário, tecido em amor e espiritualidade, mistério de fé, repete a história divina.

O Evangelho é relatado com poesia e emoção, iluminado pela Anunciação e nascimento de Cristo.

É difícil para o crítico descrever a maravilha esplendorosa deste texto.

Qualquer palavra é pequena demais para tão grande realização.

Assim, resta-nos apenas musicar este evangelho, convocando uma igreja barroca mineira – Mariana, talvez – profusamente iluminada a velas, com seu notável órgão também barroco, e fazer executar o “Aleluia”, de Lobo de Mesquita, e deixar a alma ajoelhar-se, em êxtase, frente a um berço de palha. .