Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 94 - janeiro de 2004



TRIBUTO
SEBASTIÃO UCHOA LEITE (1935-2003)

Fernando Py
poeta e tradutor, autor de "Bibliografia Comentada de Carlos Drummond de Andrade".

 

Conheci-o pessoalmente em 1966, quando comecei a colaborar na Grande Enciclopédia Delta-Larousse, cuja editoria coube ao escritor Antônio Houaiss. A princípio, eu só aparecia para almoçar com Houaiss e receber cópia de verbetes em francês para traduzir em casa. Apresentei-me, ou fui apresentado, a alguns dos redatores fixos — Sebastião entre eles — e, aos poucos, fui sendo bem recebido; com pouquíssimas exceções, não só não me conheciam antes, como jamais tinham ouvido falar de mim. Alguns eu já conhecia de nome, sobretudo Sebastião, de quem lera com interesse e agrado alguns trabalhos críticos em jornais e revistas. Destaco especialmente seu ensaio sobre as Primeiras estórias de Guimarães Rosa, onde estudava a fisionomia alegórica dos contos. Comentando o artigo com ele, Sebastião deu-me algumas “dicas” teóricas, muito úteis para o aprendiz de crítica que eu era (e ainda sou). Devo, portanto, a Sebastião, como também a muitos outros na época (Paulo Rónai, Houaiss, Fausto Cunha, Assis Brasil, etc.) a minha iniciação no terreno da avaliação da obra literária.

Em 1967, já comparecendo regularmente ao trabalho na editora, passando a redator e revisor de verbetes, entrosei-me com todos, e chegava a ponto de mostrar aos companheiros os poemas que escrevia. Um belo dia, ao voltar do almoço, encontrei um desses poemas, “Copacabana”, batido à máquina — naquele tempo não se trabalhava com computador —, exposto nas paredes como se se tratasse de uma obra-prima (ao menos assim o interpretei, para satisfação de meu ego). Mais ainda: o fato de estar pesquisando a obra de Carlos Drummond de Andrade, com vistas a um levantamento bibliográfico de tudo quanto o poeta escrevera, dava-me um prestígio que na ocasião eu nem mesmo percebia.

Certa manhã, apareci com um exemplar da edição tcheca da poesia de Drummond, que o próprio poeta me dera. Todos se interessaram pelo livro, ainda mais que nas “orelhas” estavam relacionados os nomes de outros poetas publicados pela mesma editora tcheca, entre eles um tal Williams. Quem seria? Foi Sebastião quem levantou a lebre: — só poderia ser o poeta norte-americano William Carlos Williams (1883-1963), um dos precursores da vanguarda americana, autor de Paterson (5 vols., 1946-1958). Sebastião interessou-se tanto por aquela edição, que me fez uma proposta: se eu conseguisse com Drummond outro exemplar para ele, em troca me daria um exemplar do poema Ciclo, de Drummond, na edição de O Gráfico Amador, do Recife, de cuja equipe fizera parte ainda na adolescência. Dito e feito. Fui procurar Drummond, expliquei-lhe o interesse de Sebastião, recebi um exemplar da edição tcheca autografado para ele, e, no dia seguinte, cheguei triunfante à Delta. Sebastião ficou muito contente, claro, e deu-me o Ciclo prometido, que hoje ostenta uma dedicatória em versos de Drummond, com a data de 1.XII.1967. Treze anos depois, quando publiquei a Bibliografia comentada de Carlos Drummond de Andrade, fiz questão de relacionar as pessoas que haviam contribuído para o trabalho dando-me livros do poeta, e lá está o nome de Sebastião.

Embora bons companheiros, Sebastião e eu nunca fomos muito íntimos. Discreto, reservado, algo tímido, Sebastião não era de jogar conversa fora. Em 1969, deixei a Delta e meus contatos com ele diminuíram bastante. Ainda assim, sempre que nos encontrávamos, na rua ou em noites de autógrafos, Sebastião se mostrava amigo, delicado e atencioso como sempre fora. Numa dessas vezes, já em 1987, encontramo-nos na Livraria Antiquário, então na rua da Assembléia, e vi numa das prateleiras, encadernado, um dos sete volumes da edição Globo de Em busca do tempo perdido. Sabendo do meu interesse pela obra de Proust, Sebastião me informou que os demais volumes estavam espalhados pelas mesas; de fato, consegui todos eles, que me custaram, ao todo, 700 mil cruzeiros novos, moeda da época. Assim era Sebastião: amigo, atento sempre ao gosto dos amigos, mesmo quando diverso de seu próprio gosto — não nutria nenhuma predileção especial pela obra de Proust. E, a propósito, tínhamos sérias divergências no terreno da poesia: ele, admirador dos concretos — o que, na minha opinião, esterilizou sua poesia —, cultor de uma poesia que me deixava frio e indiferente; eu, acreditando ainda na validade do verso, do discurso na poesia, e volta e meia questionando a obra dos concretos paulistas, de quem Sebastião era fervoroso adepto.

Pelo visto, eu não estava sozinho nessa opinião. Porém manifestava-a somente por escrito e, mesmo assim, nunca xinguei a pessoa dos concretos, mantendo-me estritamente no plano da teoria poética, sem descer ao terreno pessoal. Por isso, foi com um misto de desgosto e de invencível repulsa que li um artigo, no jornal Rascunho (Curitiba, número 35, março 2003), a respeito do último livro de Sebastião, A regra secreta. A pretexto de resenhar o livro, os dois autores do artigo esmeraram-se em discutir, não o livro focalizado, mas a pessoa de Sebastião Uchoa Leite. Numa agressão gratuita, destilando malquerença pelo indivíduo, não se detiveram um momento sequer na análise do livro. Por pior que fosse — e eu também, como disse, não apreciava a poesia de Sebastião —, impunha-se um mínimo de seriedade e de honestidade. Não; os autores soltaram sobre Sebastião seus recalques pessoais, suas baixas idiossincrasias, mandando-o parar com aquilo, que a poesia concreta não vale nada, é “um movimento assassino” (de acordo), dando a entender que Sebastião nunca fez nada que prestasse, etc., etc. E, principalmente, que Sebastião não dispunha de “honestidade intelectual”. Está bem: intelectualmente honestos eram eles, que usavam páginas inteiras para externar seu horror a uma pessoa que nem conheciam. Ou conheciam mal.

Por mais que eu possa concordar, em tese, com as agressões à poesia concreta, como as de Bruno Tolentino por exemplo, uma coisa é criticar um livro, um conjunto de obras ou mesmo uma corrente literária. Outra coisa, bem diferente, é juntar ao repúdio a agressão pessoal. Teriam os autores do artigo algum motivo particular para tais agressões? Se tivessem, era melhor que o declarassem publicamente, em vez de disfarçar essa agressão sob a capa de recensão de um livro. Se não tivessem tais sentimentos, a coisa é horrivelmente pior, pois, talvez sem o saberem, Sebastião já estava muito doente na ocasião, às voltas com transfusões de sangue que o diabetes perturbava. Ainda em 2002, os jornais andaram noticiando sua morte, que o próprio Sebastião, bem-humorado, desmentiu por carta. Agora, não foi possível o desmentido. E por mais que a poesia de Sebastião pudesse sofrer restrições, ele não merecia uma tal agressão — ninguém merece —, já nos seus últimos meses de vida. Os autores do artigo devem estar se congratulando com sua morte..