Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 94 - janeiro de 2004


Nota sobre Kafka

FRANZ KAFKA nasceu em Praga (1883) e morreu, de tuberculose, em Viena (1924). Sua vida pessoal conturbada e desesperançosa (as difíceis relações com o pai, a profissão sem estímulos, a frustração da realização amorosa) e o meio cultural e social em que cresceu e amadureceu (uma encruzilhada de civilizações dentro da Babel lingüística do Império dos Habsburg) refletiram decisivamente em sua obra.
O realismo de suas imagens desafia continuamente a imaginação, e não saberia dizer – escreve André Gide – o que mais admiro, se a reprodução naturalista de um mundo de fantasia ao que a minúcia das imagens faz digno de crédito ou a segura audácia para conduzir ao mistério.

A metamorfose ( escrita no outono de 1912 e publicada em 1915) desenvolve um tema insólito e estranho – um modesto comerciário, Gregor Samsa, desperta, um dia, transformado num inseto, provavelmente uma barata (releva-se aqui, um ponto curioso: embora seja representado quase sempre como sendo este repugnante inseto, não há, em nenhum momento da narrativa, nenhuma afirmação ou nada que possa levar seguramente à essa conclusão; Gregor Samsa foi “declarado” uma barata) -, pleno de ressonâncias alegóricas e de inquietantes augúrios. Trata-se de um retrato punitivo - observa Klaus Wagenbach, biógrafo de Kafka - no sentido mais ambicioso, de um retrato da fobia, da angústia, da impressionabilidade em face de todo o mundo. (M.J.F.)

LITERATURA
A crítica à sociedade e à família
em A metamorfose,
de Franz Kafka

Marcelo J. Fernandes
professor de Teoria Literária e Literatura Brasileira na Universidade Católica de Petrópolis, Diretor do Colégio Santa Teresa D’Ávila, Membro do Conselho Editorial de Poiésis. (mjfernandes@ig.com.br)

A obra-prima de Franz Kafka, A metamorfose, constitui uma pluralidade de significados de tal ordem que, preliminarmente, abre-se, inesgotável, para uma série de interpretações , estudos e leituras.

Neste artigo, para abordarmos no texto as críticas à sociedade e à família, partiremos da própria ambientação inicial da narrativa, ou seja, o encerramento e a clausura de Gregor Samsa em seu quarto.

Ali, Gregor repassa a situação-chave que o leva (?) à metamorfose, onde se estabelecem dois níveis:

Gregor tem de sair da situação em que se encontra (nível Gregor-homem inconformado)
X
Gregor não consegue sair desta situação (nível Gregor-inseto/ impedimento físico)

Para ampliarmos este paradoxo, somamos as cobranças familiares e sociais que irão encerrar Gregor em seu cárcere-quarto (alegoria à sua própria vida sem saída):

Gregor tem de trabalhar (cobrado por seus pais, irmã e pelo gerente da firma em que trabalha)
X
Gregor não pode se mover (cobrado por sua consciência, cansado da rotina maçante e estéril)

A impossibilidade de locomoção de Gregor Samsa e seu desejo de sair da cama (o contraponto entre as cobranças familiares à sua porta, o juízo que seu chefe faria em caso de ausência X a sua pusilanimidade absoluta) promovem um deslocamento espacial: o quarto-cárcere de Gregor é um universo à parte, onde os membros da família e o representante de seu trabalho estão fora, deslocados de seu mundo-quarto.
Além do impedimento físico, falta a Gregor sua voz. A personagem está, agora, privada de externar verbalmente a sua vontade, a sua própria expressão. A ele é permitido pensar e ouvir, contemplar seu quarto. Entretanto, comunicar-se com o mundo exterior (fora de seu quarto-consciência) é, a partir de então, impossível.

A presença do gerente à sua porta é bastante significativa: é ali que se juntam, num único bloco compacto, o trabalho e a família. Estão unidos e opostos, ambos do lado de “cá” da porta. Gregor é acusado pelo gerente de negligência e desonestidade, ou seja, o patrão ficcional parte do pressuposto que Gregor, de antemão, ainda que possuísse um bom retrospecto e nada que anteriormente o desabonasse, é um indolente, um vagabundo. O representante não vem à sua casa para saber o que houve com ele, mas para constatar uma falta injustificável, uma insubordinação, um ato reprovável (neste sentido, o insólito da acusação, antecipa, de certa forma, a tessitura de O processo).

A revelação do novo aspecto de Gregor é trágica: sua mãe desmaia, seu pai sofre uma crise de choro e o representante horroriza-se; sai rapidamente. Uma vez clara a impossibilidade de sua atual situação, Gregor é abandonado por todos e novamente encerrado em seu quarto-cárcere (reposição em seu real-lugar, seu mundo particular). Gregor está, definitivamente, animalizado e deslocado do mundo além do umbral de seu cômodo.

Uma vez estabelecida a metamorfose, seu quarto assume novas dimensões físicas, aumentando de espaço. Seu universo desterrado passa a garantir-lhe mobilidade e relativo prazer em meio às habilidades que vai descobrindo com seu novo corpo.
Interessante que, enquanto Gregor passeia pelo teto ou pelas paredes horizontalmente ao chão (eis aí o seu habitat), ao chegar à porta, põe-se perpendicularmente, ou seja, ao aproximar-se da fronteiriça realidade com seu ex-mundo, Gregor assume a postura vertical humana, ainda que aderido à folha da porta fechada. Gregor aproxima-se da porta para inteirar-se dos problemas familiares e é pela fresta (extremamente significativa) que estabelece relações com a vida doméstica em franco declínio. Neste momento, a bestialização de Gregor é absoluta, e cessaram todas as relações afetivas que poderia transmitir. Ele agora é só receptor (visto que apenas ouve) das mais amargas impressões, estampadas na célula familiar.

O elo com seus familiares, ponte entre os dois sistemas, é sua irmã Grete. Apavorada com seu aspecto, é ela ainda quem lhe traz comida e preocupa-se com sua alimentação. Seus atos para com ele, sempre ásperos, são as únicas manifestações com as quais Gregor pode contar, ainda que não-verbais.

As relações entre os três membros da família ( Grete e os Samsa) passam por uma profunda degradação ( e desagregação), imposta pelo novo nível de vida, desapercebido da mesada que Gregor concedia.

A deterioração do meio familiar se estabelece a partir do “exílio” de Gregor, sua situação-detonadora de um processo desagregador latente, e principalmente, pela falta de apoio financeiro; à quela altura, a contribuição de Gregor era fundamental para o sustento dos Samsa e para a manutenção de seu status.

Assim, seu pai (re) começa a trabalhar e assume o velho papel de Gregor. As relações entre eles sofre grandes alterações.

O universo de Gregor, porém, se expande: Grete, notando-lhe o hábito de andar pelo teto e paredes, resolve retirar a mobília do quarto, a fim de facilitar a sua locomoção. Entretanto, esse gesto possui dois gumes: enquanto Grete facilita o seu estado animalizado, tolhe as suas últimas reminiscências humanas, dispostas nos móveis que retirava.

Esta atitude de sua irmã gera uma série de tensões. Ao tentar retirar um quadro muito significativo para Gregor (o último pertence de seu quarto), ele adere à moldura, na tentativa de impedir o ato de Grete, causando o desmaio da mãe, a fúria do pai e a única frase que a irmã lhe dirige (uma sentença de culpa): “ – Viu o que você fez, Gregor?”.

Ferido por uma lasca de maçã atirada por seu pai ( que muitos interpretam como a “expulsão do paraíso” e o conseqüente banimento do seio familiar), Gregor passa a encontrar dificuldades para mover-se. A porta já não se encontra trancada, porém as fronteiras passam do campo físico para o moral.

Gregor entra num processo irreversível de reificação. A partir deste incidente, ele deixa de ser um ente zoomorfizado para tornar-se uma “coisa” evitável, um objeto inútil e fadado ao esquecimento.

Seu universo físico reduz-se novamente, ao ter o quarto transformado em despensa de entulhos e coisas inúteis (sim, pois ele é também uma “coisa” sem serventia).

A crise econômica que se abate sobre os Samsa estende-se, naturalmente, às relações afetivas: o pai isola-se, a mãe costura e Grete estuda estenografia e francês (repara o quadro estereotípico da banalização familiar).

Essa difícil situação impõe que seja alugado um cômodo a estranhos. Assim, há também um deslocamento espacial, ou seja, o universo familiar (ora servil aos inquilinos) adquire um sub-espaço, tal como Gregor, que deslocado de seu mundo, é também servil ao mundo “além da porta”.

Pela presença dos inquilinos, Gregor volta a ser trancado. Porém, qual um último apelo, um último resquício humano, deixa-se atrair pela música tocada pela irmã na sala, surge e enoja os locatários. Sua atitude é seriamente reprovada por Grete e seu pai; sua mãe não dá ouvidos (essa omissão aparente da figura materna, intercalada por desmaios causados por choques e uma relativa alienação nos leva a crer que, tacitamente, é ela a única personagem familiar a compreendê-lo, e talvez a aceitá-lo). Gregor, expulso, caminha para o seu antro (ex-quarto), olha uma última vez para a mãe (como despedida) e entrega-se à morte libertadora.

Um novo contexto configura-se na família: o pai expulsa os inquilinos, e, junto à mãe, resolve vender a casa e preparar Grete para o casamento. Uma nova ordem se impõe.
Kafka, no decorrer da narrativa, aponta para algumas colocações:

- o drama existencial entre a imposição social X a realização pessoal;
- a parcela da família na composição e elaboração desse conflito;
- o papel da sociedade opressora, que desencadeia processos de vários níveis, interligados (cf. a presença do representante do trabalho e a locação do cômodo a estranhos);
- a importância do capital como alavanca dessa sociedade deplorável e sua função desagregadora;
- e, finalmente, o processo de Gregor, que, incorporado à metamorfose inicial (homem-inseto) e à posterior (inseto-coisa), incita uma série de outras metamorfoses engendradas.

Concluindo, Kafka não discorre apenas sobre uma metamorfose pessoal, mas diversas metamorfoses em vários âmbitos: social, afetivo, moral, ético, estrutural, etc.
Uma última questão: presumimos que Gregor Samsa, com sua morte, teria indicado o caminho para a metamorfose também libertadora de sua família, com um ato, a rigor, messiânico.

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