| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 94 - janeiro de 2004 |
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POR UM INSTITUTO LATINO-AMERICANO QUE IDENTIFIQUE E CONSCIENTIZE
Gerson
Valle
A “globalização” é uma realidade de nosso tempo, que tem como significado não a tão esperada superação de limitações fronteiriças de visões e paixões culturais, tão decantada por séculos pelos verdadeiros internacionalistas, e que tinha um caráter humanista, mas sim a hegemonia imposta pelo domínio econômico de grandes conglomerados e nações sobre os países e povos menos favorecidos economicamente. Uma hegemonia que tenta repetir, de certa forma, a pax romana em nosso tempo, sendo a nova Roma o Império Norte-americano. A constatação
deste fato já se tornou acadêmica - há mais de 30
anos Raymond Aron já fizera a analogia do Império Romano
com os EEUU. Como acadêmico tem sido grande parte do tratamento
desta questão pela maior parte dos estudiosos políticos.
Na prática, no entanto, as conclusões colocadas pelos acadêmicos
em seus cursos, que parecem perseguir um rumo da História sem a
tirania de um tal Império, sofrem de uma crise de impotência,
quase todos sentindo-se esmagados por uma realidade que não parece
abrir possibilidade a nenhuma ação alternativa. Está-se
num círculo fechado como se todos estivessem obrigados a seguir
a realidade sem saber como modificá-la. Este tipo de visão,
entretanto, tem um nome na História política. Chama-se Realpolitik
e é tão anacrônica quanto o trato político
de um Metternich ao comandar a divisão do Poder entre as potências
imperiais após a queda do Império napoleônico... Entretanto, a práxis
política parece encontrar-se separada de uma tal formação.
As universidades, no Brasil, seguem, via de regra (há exceções,
claro), duas tendências: a do discurso oficial politicamente correto
e a da formação técnico-profissional. A primeira
parece refletir uma posição imposta internacionalmente,
de que não nos queremos mostrar ignorantes, mas que não
sabemos adaptar ao nosso meio, ficando o discurso decorado para as ocasiões
festivas, como uma roupa que se vista em determinadas solenidades, mas
não servindo para o dia a dia mais à vontade... A segunda
faz pouco da Universidade, que, idealmente, é o lugar de se pensar
e preparar seus estudantes para a atuação em conformidade
com a reflexão, e não o do curso profissionalizante. Em
Direito, por exemplo, preparam-se conhecedores da geografia das instalações
do Judiciário, sabendo copiar certo as petições dos
modelos existentes, meia dúzia de palavreado formal, quando não
bolorento, a hora certa dos recursos (literalmente ou em sentido figurado...),
algumas medidas cartoriais... Estas são questões de Universidade?
Preparam-se profissionais para a defesa de uma causa (sobretudo a de seu
bolso), independentemente de seu conceito de Justiça, sociedade,
Filosofia do Direito, sua atuação social, e outras questões
que deviam estar no cerne de suas preocupações, e que, para
o formando se tornam secundárias, indo, assim, dependendo da formação
individual, até a entrega de celulares para clientes de alta periculosidade
nas penitenciárias, ou venda de sentenças para manter algum
luxo canalha em suas vidas de poucas preocupações intelectuais...
A América latina (ou seja, do México ao Chile e Argentina, mesmo considerando alguns territórios cuja origem não é latina...) é a macro-região onde, apesar de desenvolvimentos desordenados e um tanto diferenciados, há, desde a época em que seus países foram colônias e se tornaram independentes, alguns traços que, numa divisão cultural do mundo, os habilita a uma tentativa de aproximação para fazer face à posição de submissão econômica legada pela globalização. Acredito na necessidade
de uma capacitação para uma qualquer mudança, o que
requer uma formação acadêmica, na abnegação
de estudos e com bastante idealismo. Não a técnica perfeita
agindo como um soldado cumpridor das ordens superiores, que, na verdade,
é a força do mundo competitivo dominante desta globalização,
mas uma compreensão cultural humanística, que transforme
concepções e realidades que nos cercam, com posturas diferenciadas.
Este o sentido de mudança, revertendo a posição de
frieza maquinal que domina a mentalidade do pragmatismo político
(ainda com ênfase nas análises de Maquiavel de compreensão
para perpetuação da Realidade, como se a Política
fosse uma ciência matemática e a Humanidade nada mais que
um automatismo racionalista de repetição de situações
injustas, impossíveis de mudar...). Aceitas as premissas colocadas, uma conclusão lógica é a de que um combate à globalização achatante e real é a formação de quadros com estudos acadêmicos, mas cuja escola os prepare para uma atuação efetiva, dentro de uma percepção cultural do potencial existente num bloco de países de civilização próxima que possa encontrar a forma de atuação unida, que os coloque como uma nova Comunidade, tal como, de resto, já vem ocorrendo com a Europa. Lá, aos poucos, vai-se libertando da hegemonia de um só Império a tudo comandar no mundo. Com isto pode-se, efetivamente, tentar construir uma ordem internacional com a necessária unidade, mas dentro das diversidades regionais, culturais. Proponho aos magníficos reitores de todas as nossas universidades (públicas e privadas), e até mesmo ao Ministro da Educação, professor Cristóvão Buarque, uma reflexão sobre a possibilidade da criação de um INSTITUTO LATINO-AMERICANO, e completo minha sugestão com a forma com que o idealizo, seguindo a estrutura do INSTITUTO EUROPEU DE ALTOS ESTUDOS INTERNACIONAIS, onde me diplomei, que visava, exatamente, a conscientização de seus alunos, em sentido amplo, da necessidade da criação de federações onde as decisões políticas se colocassem em planos compatíveis com as culturas nacionais, e, ao mesmo tempo coexistisse num plano sem fronteiras, e especificamente na ampliação da Comunidade Européia, que então só tinha o Mercado Comum (cuja criação foi precedida de encontros internacionais, onde o Presidente do referido Instituto Europeu onde estudei, o filósofo que fora aluno de Heideger, Alexandre Marc, tivera papel de destaque). Em resumo, a intenção primeira de um tal Instituto, dadas as justificativas para a sua existência, será a de formar quadros gabaritados a se voltar a uma ação transformadora no âmbito da América latina, face a realidade da globalização ausente de humanismo do momento histórico em que vivemos. Nossas possibilidades de luta em plano de igualdade, num mundo onde as distâncias de poder econômico aumentam em proporção geométrica, os pobres cada vez mais pobres, e os ricos mais ricos, seriam de grande ingenuidade. Além de que a questão não está na luta para se trocar de hegemonia. O que não mais se deseja é o sistema onde os valores não estejam voltados aos princípios de solidariedade humana, dignidade e Justiça de forma eqüitativa. O importante é mudar o tratamento desumano que o Poder globalizado passou a considerar como única realidade possível. O importante, assim, é mudar de mentalidade. E, para isto, essencial é a participação de novas culturas no âmbito de atuação internacional. Acredito que um tal mudança acarretará uma nova perspectiva político-econômica para todos que se integrarem na formação de uma nova força a atuar no mundo. O alunato poderá sair de entidades representivas dos países latino-americanos, sobretudo das universidades e dos partidos políticos, para onde possa voltar e pôr em prática as reflexões aqui oferecidas. Em segundo lugar, há que se pensar num meio multiplicador do Instituto em todas as partes do continente, onde, inclusive, os professores que aqui passarem, possam levar as novas reflexões adiante, e para um número cada vez maior de alunos. Por outro lado, sendo
a finalidade última uma reflexão sobre as diversas realidades
culturais, nos planos histórico, político, econômico,
jurídico, artístico, social, que componha um panorama que
leve a uma composição lógica de atuação
comum para o continente, se isto em si, não passar, de imediato,
do plano acadêmico, sem dúvida serão efetuados trabalhos
que poderão futuramente servir de fonte de ações
mais pragmáticas. Isto ocorrendo, já justifica a criação
de um Instituto desta envergadura. Além das disciplinas básicas é importante a permanência de seminários sobre questões do continente e das formas de integração possíveis, sob os aspectos jurídicos, políticos, históricos, econômicos, sociais, ou seja, mais amplamente: CULTURAIS. Para isto devem ser programadas palestras e pequenos cursos de autores e estudiosos que estejam em eminência. As disciplinas básicas podem ser escolhidas após seminário prévio dos professores que comporão o quadro do Instituto, podendo, como exemplo, pensar-se em alguma coisa como o que vai abaixo sugerido, sempre dentro da perspectiva inter, multi e pluridisciplinar que deve ser constituído, para dar uma ampla visão cultural de onde se possa extrair uma síntese de nosso tempo e lugar: 1 – O mundo
de hoje. Os diversos conflitos. Globalização e regionalização.
Os extremismos religiosos. O mal uso do planeta – a questão
ecológica. Etc. Calculo que tanto no norte quanto no sul ou no centro –oeste e leste do país existam cidades ótimas para servirem de sede a um tal instituto. Sugeri um lugar não muito badalativo, e pensei em Santa Maria no RS (onde existe uma universidade conhecida), ou Petrópolis no RJ (onde funciona o Centro Alceu Amoroso Lima Para a Liberdade, presidido pelo professor Cândido Mendes de Almeida, e que é sediado na casa que foi do humanista que lhe dá nome, intelectual integrado em nossa cultura, como o crítico Tristão de Ataíde, dos primeiros a valorizar o Modernismo, e herói da resistência à ditadura militar em suas crônicas corajosas. O mestre Tristão e sua consciência católica (universal) dentro do lugar Brasil e do tempo presente (real) dedicava-se à construção (ideal) do Futuro. Que melhor homenagem o intelectual professor Cândido Mendes pode lhe prestar que fazer do Centro que tem o seu nome um lugar para a formação de um novo Humanismo, vinculando-o à sua Universidade?). Campinas, com sua potente Universidade poderia ser outro lugar ideal, algum recanto como Areia na Paraíba, Olinda em Pernambuco, Juiz de Fora ou outra cidade mineira, etc. Enfim, aqui coloco
sugestões. Mas, não há como excluir os grandes centros,
que, afinal, podem dispor de recantos em seus campi universitários
também de alguma tranqüilidade. A USP, não tem dúvida,
seria bastante significativa para isto. Inclusive Brasília, com
sua Universidade de que o Ministro Buarque já foi reitor. Por que
não fazer de Brasília a capital também da reflexão,
preparação e instigação de uma possível
integração latino-americana contra a subordinação
a uma ordem internacional violenta, que nos agride cultural, econômica
e politicamente? Em outras palavras, é exatamente isto que proponho
com a criação do Instituto: uma sede para tudo que se queira
(palestras, encontros, conferências, edições, manifestações
as mais diversas) no campo do combate à exploração
de um continente, e a sua afirmação como parte importante
do mundo! Mas, claro, sem que os EEUU participem da idéia de integração,
como na OEA, fazendo de um bloco continental o seu quintal. E com o cuidado
disto não se transformar em mais um meio acadêmico bem vestido,
para demagogia dos políticos e vaidade e carreirismo de meia dúzia
de alunos de uma elite que já explora o continente!. |
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