| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 94 - janeiro de 2004 |
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RESENHA Fernando
Py
“Um poeta que seguiu a tradição.” Esta seria uma possível definição da poesia de Geir Campos (1924-1999), se não fosse tão lacônica e redutora. Pois se é verdade que Geir Campos, desde sua estréia com Rosa dos rumos (1950), cultivou de preferência as formas fixas, como o soneto, adquirindo neste último inegável mestria e domínio, a ponto de ser o primeiro, no século passado, a escrever esse prodígio de destreza que é a “coroa de sonetos”, torna-se claro que não reduziu sua obra apenas ao acabamento formal perfeito que poderia ser sua marca registrada, mas elaborou uma obra importante dentro do panorama dos anos 50 e 60, período em geral ofuscado pela irrupção da Poesia Concreta. Temos em mãos, agora, uma edição que pode representar o resgate dessa obra. Trata-se de uma seleção de seus principais poemas: Antologia poética (Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial, 2003, 400p.; organização e projeto gráfico de Israel Pedrosa). O organizador adverte que o livro contém “praticamente a totalidade” da obra poética de Geir Campos, tornando-se, portanto, um volume precioso, sobretudo para as gerações mais novas, que não conheceram o poeta e ignoram sua obra. Em Rosa dos rumos, o poeta investiu basicamente no aspecto descritivo dos poemas, realizados com uma correção formal que chamou a atenção dos críticos. Esse aspecto pareceu confirmar-se no volume seguinte, Arquipélago (1952), e na Coroa de sonetos (1953), exercícios poéticos em que sobreleva o aspecto formal, sobretudo no segundo. Uma coroa de sonetos é um conjunto de quinze sonetos, em que o último verso do primeiro se repete como primeiro do soneto seguinte, e assim sucessivamente. O 15º soneto é composto pelos versos finais dos quatorze precedentes. O grande cuidado do poeta, além de manter a seqüência dos versos, é instaurar um discurso coerente através dos quinze sonetos, o que nem sempre se consegue. Tendo confirmado sua destreza formal, Geir Campos em breve se libertou dessas amarras, parindo para uma obra madura, onde combate o hermetismo e repontam suas preocupações de caráter social. Tais preocupações
se mostram logo no começo de Canto claro e poemas anteriores (1957).
O poema “Tarefa” é um verdadeiro manifesto e merece
reprodução na íntegra: — esse tipo de manifesto de várias formas se repete nesse volume; nele, evidentemente, entra muito do aspecto romântico que aureolava o comunismo da época, aspecto de que Geir Campos partilhava, tanto que fez questão de pertencer ao antigo PCB. Seja como for, Canto claro é uma coletânea que de certo modo marcou alguns poetas jovens daquele tempo — entre os quais me incluo — não raro levando-os a abraçar o comunismo. E Geir foi mais além. Operário do canto (1959) abre com um poema, “Da profissão do poeta”, onde expõe uma espécie de regulamentação da profissão de poeta, com itens esclarecedores da cada aspecto dessa profissão. Nos demais poemas do livro, sem abrir mão de seu apuro formal, coloca-o a serviço das relações humanas e conjugais, como no belo “Soneto1959, ao luar” (p. 173). Já no Canto provisório (1960), os poemas se repartem em três seções: Meta Mítica, Meta Física e Meta Lírica. Na primeira estão os poemas que ora prevêem um mundo novo e mais justo, ora mostram os erros deste mundo — inclusive a educação das crianças, veja-se “Canção de berço”, p. 197 —, ora investem em formas como o soneto e o haicai, ou então em tipos de poemas populares, como na “Gemedeira do apartado”, p. 198. A Meta Física é mais especificamente dedicada às questões sociais, em poemas como “Enquanto o estrôncio cai” (p. 205), “Parábola” (p. 211) e “Perquirição” (p. 211). Na Meta Lírica, temos poemas de recorte variado, onde o lirismo é a tônica, destacando-se “Reinação das mulheres fatais” (p. 220), “Anti-cantiga” (p. 222) e “Pantum do carreiro” (p. 229).* O poeta está seguro da sua poesia, embora por vezes se possa reconhecer um certo prosaísmo em seus versos. Cantigas de acordar mulher (1964) é uma antologia de sua obra poética e vem precedida de uma parte inédita em livro, que compreende o longo poema que dá título ao volume e mais os poemas sem título de ‘Ritmo quadricular’, além dos ‘Novos Poemas’. Temos, aí, o melhor da lírica amorosa do poeta, consubstanciada nas “cantigas”, onde ao amor se casam a possibilidade da morte e os engodos dos elogios inócuos que assolam a mulher num mundo cada vez mais voltado para o consumo, inclusive do sexo. Pois o conjunto desses poemas novos denuncia a reificação da espécie feminina e a conseqüente alienação de sua liberdade, como bem mostra Moacyr Félix no texto de “orelhas”. Já Metanáutica (1970) é uma coletânea que indica não só a plena maturidade expressional do poeta, como uma funda reflexão sobre o mundo e as condições de viver nele. O poeta se vale de seus conhecimentos de navegação (foi marinheiro, capitão da Marinha Mercante brasileira) e cria o termo metanáutica, para indicar a navegação que faz (todos fazemos) para além da vida e da morte, ou seja, um termo que busca afirmar a esperança, mesmo quando todas as coisas se encaminham para o desespero. Uma espécie de contrapartida à situação de pânico vivida pelos intelectuais e artistas em geral diante das perseguições da ditadura militar. Títulos como “Medo e antimedo” (p. 273) e “Barricada” (p. 277) são paradigmáticos. Por outro lado, a veia lírica do poeta se sustenta em peças como “Ancoragem” (p. 279). Mas o conjunto é mesmo uma reflexão sobre aqueles tempos sombrios, momento de recolher-se e pensar num futuro melhor. De todo modo, Metanáutica é um marco na poesia de Geir Campos. No poema “Marulho” (p. 289) de Canto do peixe & outros cantos (1977), o poeta se define: “Marinheiro vagamundo, / eu abro o meu coração / e a cada interrogação / busco a resposta mais fundo.” Dessa maneira se apresenta a sua poesia ao alcançar o poeta a idade de 50 anos: madureza, reflexão, pleno domínio da técnica do verso e da expressão poética são seus atributos, justo numa hora em que principiava a ser esquecido, ainda que muito festejado. No entanto, esse livro mostra o poeta no auge de sua poesia, em textos como “Canto de mar” (p. 327) e “Canto a meus filhos” (p. 329), p. ex. De outra parte, o “Canto ao homem da ONU” (p. 331) faz lembrar as vinhetas “legislativos” da “Profissão do poeta” do Operário do canto. Geir Campos não abandonou jamais a inclinação para cuidar de questões sociais, ainda que escreva menos a respeito. Cantos do Rio (1982), apresentado como “roteiro lírico do Rio de Janeiro”, é uma coletânea curiosa. À parte a ambigüidade do título, onde o poeta insinua que canta o Rio mas é também a cidade carioca que está cantando, a homenagem parte de um poeta capixaba (Geir nasceu em São José do Calçado, ES) à capital da cultura brasileira à época, vista do outro lado da baía de Guanabara (o poeta morava em Niterói), assim desfocando a perspectiva comum da visão sobre o Rio de Janeiro. Portanto, Geir desfaz a rotineira exaltação da Cidade Maravilhosa, para descrever a paisagem carioca sem cair nas banalidades de praxe, como vemos especialmente no poema “Pedra da Gávea” (p. 342). Esse repúdio ao banal também comparece na coletânea seguinte: Cantar de amigo ao outro homem da mulher amada, pequena plaquete publicada no mesmo ano. O poeta mesmo estava ciente da estranheza do título, tanto que usou como epígrafe do volume alguns versos de Dante, referentes à “doutrina que se esconde sob o velame dos versos estranhos” (Inferno, canto 9: 62-63). Além disso, na dedicatória que escreveu no meu exemplar, colocou: “Para Fernando Py, que arregalou os olhos só de ouvir o título, com um abraço do Geir, out. 82”. Trata-se de um conjunto de sonetos de excelente fatura, e onde, lá pelas tantas, esclarece: “Há quem confunda amor e propriedade / privada, não riqueza coletiva...” (em ‘Catadupa’, p. 376). Ora, o que o poeta quer dizer é que, mesmo sendo objeto de amor, a mulher não deve ser considerada um bem de propriedade do homem. Este deve atentar, sobretudo, para o fato de que a mulher, por mais que o ame, por mais que lhe agrade na cama, por mais companheira que seja e se mostre solidária na vida em comum, não lhe pertence exclusivamente: é um ser, não é uma coisa, é uma pessoa pensante e atuante, com seus valores pessoais e intransferíveis, dotada de um substrato íntimo, e não mero objeto de prazer e companhia. Esta plaquete foi
o último título autônomo de poesia que Geir Campos
publicou. A edição desta Antologia poética infelizmente
não informa dados bibliográficos da obra do autor, e põe,
ao final do volume, sem qualquer explicação, uma coletânea
intitulada Respiga, que supomos ser uma recolha de versos inéditos
do poeta. São poemas em geral curtos, que mostram o poeta ainda
em boa forma, embora repetindo temas. De todo modo, valeu publicar a poesia
de Geir, que andava bastante esquecido e ignorado. |
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