| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 94 - janeiro de 2004 |
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CONTO Felipe
Sodré Eram nove horas de uma manhã ensolarada e fresca quando o patrão estacionou o carro abarrotado de relógios. Iria consertar um em especial, no domicílio da cliente. Ao tirar o cinto e abrir a porta, o patrão recomendou-lhe expressamente: — Fica esperto, Valmir. Tem doze relógios aí atrás. A rotina de Valmir começava às cinco. Depois de um trem e dois ônibus estava no trabalho. Pela manhã, buscava e entregava os relógios com o chefe. À tarde, consertava-os na oficina. Curtia uma nesga de sono o dia todo, mas nada que o impedisse de prestar bons reparos. Naquela manhã estava especialmente cansado. O sono não era só uma nesga, mais parecia um tronco sobre as pálpebras. A cabeça pesava-lhe horrores mesmo recostada. Um gosto de saliva grossa tomava sua boca, como se prestes a babar a qualquer momento. Pelo corpo transitava uma fluidez relaxante, que bem se ajustava ao conforto do estofado e ao carro parqueado à sombra. Não demorou e Valmir dormiu, nem aí para as campainhas desacertadas dos relógios defeituosos. Acordou sobressaltado, a cara de um homem espremida contra o vidro da sua porta. Naquele liame entre o sono e o mundo, coçou os olhos e confirmou a cara que o observava atentamente. Era um mendigo, cuja sujeira aderia ao vidro. Assustado, Valmir abriu a porta num gesto impulsivo que quase atirou o sujeito ao chão. — O que é que há? Tá procurando alguma coisa? O mendigo falou em voz baixa: — Só queria saber as horas. Ele olhou então para o pulso e viu que esquecera seu digital em casa. — Sei lá que horas são... — bocejou. — Não tá vendo que eu não tenho relógio? — Mas e todos esses aí no porta-malas? Valmir, alarmado, percebeu que o mendigo mexera na mala do carro. Quem sabe furtara algum relógio? — Ei, porra, como é que você sabe que tem relógio aí atrás? — Ora, pelas badaladas. Vim lá de longe atraído por elas. E então, pode me mostrar as horas? — Não, não posso — respondeu Valmir mais calmo. — Esses relógios estão bichados. Cada um está com uma hora diferente. — Não faz mal. Basta escolher uma delas. Valmir começou a achar graça no papo daquele lunático. Servia para passar o tempo. — Então tá bom — disse abrindo o porta-malas. — Escolhe uma hora aí. O indigente consultou os doze relógios e sentenciou: — São três da tarde. Valmir soltou uma risada, não eram nem dez horas. — Como sabe? — inquiriu o mendigo. — Você não tem relógio. — Mas meu patrão tem. E ele estacionou aqui há uns quarenta minutos. — Tem certeza? Mas você não estava dormindo? Valmir se deu conta de que não podia ter certeza. Dormira tão profundamente que chegara a sonhar. — Sonhou com o quê? — Acho que foi com a oficina. Estava consertando relógios. — Que sonho besta! — reclamou o mendigo. — Eu gosto de sonhar com a minha namorada. Vou encontrá-la às quatro. Uma angústia repentina se apossou de Valmir. De fato, há quanto tempo estava ali? Tantos ponteiros e nenhuma resposta. As máquinas paravam, o tempo seguia. Seu ofício era grudar engrenagens às horas e aos minutos, de modo que permanecessem em igual marcha. A máquina a acusar o tempo, e esse a corroer a máquina ininterruptamente, como que minando as forças de um delator. Talvez percebendo os rumos da reflexão de Valmir, o mendigo comentou: — Emprego difícil o seu, domador de tempo. Em seguida, ajeitou os trapos que vestia. — Foi um prazer. Agora vou encontrar com a minha garota. Sabe, ela fica uma fera se eu me atrasar. Ei, olha o seu patrão vindo lá. Valmir sentia a angústia cada vez mais desconfortável. Suava e esfregava as mãos. Estava novamente dentro do carro, o banco reclinado, o mendigo se fora. Ouviu o patrão bater no vidro e dizer: “acorda, irresponsável!”. Num esforço de parto abriu os olhos, sorveu ar com vontade, a espiral de um sono pesado rodopiou para longe. A angústia sumiu deixando pra trás gosto de saliva grossa e um mal-estar indefinível. Uma voz feminina sussurrou-lhe: — Acorda, amor.
São cinco e meia, você vai se atrasar. |
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