| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 93 - dezembro de 2003 |
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ARTES PLÁSTICAS
O estudo de um artista como Velásquez é algo bastante complexo, porque ninguém como ele, em sua época, foi tão audacioso em seus métodos, tão objetivo em seus trabalhos, tão inimigo das fórmulas consagradas como ele, tão – enfim – revolucionário como ele. O “pintor dos pintores”, segundo Louis Gonse (“Lê Phénomène Velásquez”, Ed. Ferret), pois adotava uma técnica toda independente onde não se percebia a mínima interferência literária, libertou-se por completo dos “impedimenta” da profissão para chegar à pura expressão da vida, do movimento e da sutil harmonia das cambiantes exibidas pelas formas animadas. O temperamento de Velásquez, tal como o pinta um de seus biógrafos, Gonse, citado acima, e tal como o revela o seu retrato, feito por ele mesmo, caracteriza-se pela resolução, pela audácia, pela energia obstinada. Partindo da observação
direta da natureza, seguiu sempre o rumo a que se propusera, não
desviando ante nenhum obstáculo, ante nenhuma influência
acessória. É um artista que desenha apenas com as cores e com a luz. Outro aspecto que o aponta como precursor foi a sua atitude quanto ao “belo feio”, em seus retratos de bobos e anões. Pintados entre 1644 e 1648, a pedido do rei Felipe IV, são composições curiosas que atraem extraordinariamente a atenção, devido à deformidade, feiúra e bizarrice dos modelos. Toque algum para embelezar quaisquer traços fugidios. Aqui, mais uma vez a destreza genial do pintor espanhol se evidencia: não me refiro à execução, cujas modalidades são diversificadas com uma arte infinita, mas ao lado moral e filosófico que o artista soube olhar com profundeza. Os desgraçados que seu pincel retratava tinham uma alma abobalhada, incompleta, disforme, mas que, encerrando também sentimentos humanos, fazia-os sofrer com a eterna hilaridade que os circundava. Esta alma é que Velásquez fez viver duma forma quase milagrosa. Eis o anão preferido de Felipe IV, “El Primo”, metido num costume negro, o chapéu caído sobre a orelha, a folhear atentamente um descomunal “in-fólio”. Eis “D. Sebastião de Morra”, aleijão das pernas, todo envolvido em seu casaco sujo de vinho, a se aquecer ao sol. Eis “Rino de
Vallecas”, cego de sorriso doce, a tez rosada como a de uma criança.
Eis finalmente “Pablillos de Valadolid” enfiado numa enorme capa, gestos enfáticos, uma paródia grotesca do “hombre de placer”. Mas em seu sorriso equívoco baila uma ligeira nota de escárnio rancoroso. Velasquez, que foi
levado deste mundo num acesso de febre perniciosa, em agosto de 1660,
encarnou, como poucos, o espírito espanhol: seus bobos e anões
parecem saídos de um romance picaresco ou de um filme de Buñuel
(Picasso e Dali cultuavam o sevilhano), numa prova de que sua influência
direta ou indireta não morreu com ele ou com a Espanha dos computadores
e microondas. |
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