| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 93 - dezembro de 2003 |
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RESENHA Gerson
Valle
“solo y sin
prisa como los que ya perdieron todo O poema chama-se “La cogida y la muerte”, tal como o primeiro poema do “Llanto por Ignacio Sánchez Mejías” do Lorca, com quem o autor, o brasileiro (descendente de portugueses e espanhóis) Reynaldo Valinho Alvarez dialoga (“mira Federico las pantallas luminosas/ que guían la legión de los cegos/ todas las noches/ para la cosecha de la nada// no sabrás decirme ni sabré decirte/ a qué matadero van estos buyes y vacas/ siempre a rumiar sus verdes electrónicos// la muerte los acompaña con un cuchillo en la mano”), como, direta ou indiretamente, Lorca e outros marcos do mundo espanhol retornam sempre nos poemas deste livro encantado, “El aullido y los perros”(Myrrha, Rio de Janeiro, 2003). Com uma grande familiaridade, Valinho incorpora, poeticamente, todos os símbolos que saem da língua e da cultura hispânica, como se nunca tivesse sido de outro lugar. Mas, isto é a mágica da Poesia, quando alguém a compõe com a desenvoltura de Reynaldo Valinho. Os títulos dos poemas, como este tirado de Lorca, muitas vezes referem-se à tauromaquia, como “La entrada en la arena”, “Los piconeros”, “Las banderillas”, etc. Mas, não é de touradas que trata. Eu diria que já em 1977, no “Canto em si e outros cantos”, a força tirada dos efeitos metonímicos criam uma atmosfera poética natural nos versos de Valinho. E esta atmosfera é viajante. Passa em “O Exílio na Pele” (1989) pelo México e por toda a América, como em seus outros livros de poesia se encontrarão sempre referências a suas outras viagens, muitas, inclusive, no solo brasileiro. Nunca, entretanto, um viajante qualquer. É sempre o poeta que sente o lugar como parte de sua vida, seu passar, como o “gitano” ou a “golondrina” a que se refere na estrofe em epígrafe, que não são referidos como de um lugar, sendo onde estão. Sim, Valinho é, antes de tudo o poeta com domínio pleno de sua arte. Daí, talvez, poder transportar-se por ela para qualquer paisagem. Ao longo de seus livros, os decassílabos (metro de sua preferência, se bem que visite mesmo os versos livres) se acumulam com naturalidade, como se compô-los fosse tarefa normal de sua fala, em poemas de estrutura complexa. Foram quase todos eles reunidos sob o título “A faca pelo fio” (Imago, Rio de Janeiro, 1999), título que pode ser interpretado como uma alusão à própria fígura da metonímia: tomar-se a faca pelo seu fio, a parte pelo todo... Esta forma de composição que tange o símbolo e facilita metáforas, no entanto, por vezes, e sobretudo em seus primeiros livros, parecia um desvio de uma seqüência lógica das frases, numa construção surrealista. E, apesar da coerência que perpassa toda sua obra, há como uma evolução para um encontro com imagens cada vez mais naturais e bem compostas, que, a meu ver, se tornam em verdadeiros signos em “Galope do tempo” (1995), onde dísticos epigramáticos inspiram poemas como o soneto que melhor explica o papel do viajante em sua poesia, sendo o ponto mais nítido o livro de que trato, que é estrangeiro até na língua: O Estrangeiro Sou estrangeiro em todos os lugares. Está bem claro, em “El aullido y los perros”, uma certa exaustão do mundo, pelo qual ele tanto viaja, e assim pode testemunhar, com a sensibilidade do poeta, o perigo de seu ocaso, que seria de todos nós: “yo sé que ya te acostumbraste/ al oxígeno rarefacto/ pero hay que volver/ a los valles/ para aprender/ el lenguaje de los arboles”. A Espanha mesma torna-se símbolo deste mundo em decadência. No mais glorioso período da História espanhola, dizia-se que em seu Império, de tão vasto, o sol nunca se punha. Ele constata: “el imperio se fue/ y ya se pone el sol”. E mais: “para mí/ el imperio está muerto/ y las estatuas de los héroes se mudaron/ para el interior de las vitrinas”. Passeando por cidades de Espanha, revisita o glorioso passado, pondo alguma trava para o que sente presente: “resulta que pasábamos como quien se ahonda en el pasado/ y una obscura noche de mitos se entrometió en mis zapatos” (“El recuerdo en la tarde”). Em “Olor a la sangre”, nosso poeta viajante, ante a realidade dos tempos, confessa: “y me voy por la orilla del mar como un velero cansado”. Tratando de um corpo morto (em “La desesperación de la nada”) pergunta-se “que puedo yo/ hacer del cuerpo/ si el alma ahora/ ya lo dejó?”. De certa forma responde (em “Un domingo cualquiera”) “y el alma no se ocupe/ del cuerpo destrozado”. Mas, como não chega a ser uma solução, continua perguntando: “que puedo yo decir/ del crimen de mi tiempo?” E entra o motivo central do livro, não como resposta do poeta, mas como afirmação do mundo que ouve urrar: “un cántico de perros/ contesta a mi aullido”..... “no habrá más que noche/ la noche sin pasión// el aullido y los perros/ harán nuestra canción”..... “los pájaros sin alas/ ni árboles ni voz// y aquí comienzo a oír/ mi proprio y largo aullido// el último latido/ de un cántico de perros”. O poeta reflete e conclui, mas sua sensibilidade está atenta ao passar ainda dos domingos e das festas. E é exatamente no poema “Otro domingo en la fiesta” que passa a impressão agradável da viagem pelo mundo e pela vida, enquanto seu interior faz a leitura da transformação e perenidade de tudo. Não posso deixar de reproduzir na íntegra este poema, como boa ilustração de mais um dos excelentes livros de poesia de Reynaldo Valinho Alvarez, este poeta ímpar em sua geração, que bem reflete o tempo em que vive, com todos os convívios com a modernidade, sem esquecer os ensinamentos que lhe deram uma técnica maior da Arte Poética. |
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