Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 93 - dezembro de 2003


ARTES PLÁSTICAS
O CENTENÁRIO DE PORTINARI

Gerson Valle

Diplomado pelo “Institut Européen des Hautes Études Internationales” e com “Diplôme d’Études Approfondies (DEA) en Droit de la Paix et du Développement”, ambos na Universidade de Nice, França, escritor, membro do conselho editorial de Poiésis. (valle@compuland.com.br).

 

Não chegou a ser passado totalmente em branco o ano comemorativo do centenário de Cândido Portinari (30/12/1903 - 6/2/1962). Houve umas raras exposições, foram editados uns poucos livros, e muito ouvi falar de professoras que prepararam trabalhos escolares com seus alunos... Teriam sido, efetivamente, significativas, as exposições? Não faltariam obras para o enriquecimento de sua bibliografia? Por que não há um entusiasmo no meio acadêmico, fora do círculo colegial, em produzir novos trabalhos, comentários, artigos, livros, na quantidade que tantas vezes têm merecido outros artistas que tiveram a repercussão de suas obras em seus devidos tempos? Quem lembra, por exemplo das retrospectivas, na década de 1960, no MAM do Rio, dos pintores Pancetti e Segall, respectivamente, poderia esperar que se fizesse algo semelhante com a obra de Portinari neste ano de seu centenário, pois, historicamente, ao menos, seu valor não pode estar em desnível com aqueles... Mas, disto, esteve-se longe. Sim, se o centenário não passou totalmente em branco, também não alcançou a expectativa que a importância de Portinari representa na cultura brasileira.

Sente-se que, por trás de uma oficialidade que relativiza a necessidade estética, respeitando apenas a personalidade de projeção adquirida (inclusive no exterior) há apenas uma postura formal, sem nenhuma paixão artística... Mas, dentro da cultura viva, por entre grande parte das pessoas que tocam o fazer e o pensar artístico parece existir uma posição dúbia, de quem não quer reconhecer nenhuma atribuição condigna dentro de uma perspectiva de obra brasileira. É como se houvesse uma certa vergonha em ser diferente da linha do Império norte-americano. Uma vergonha por não ser da sede do Império. A imagem do comando é a de Andy Warhol com os símbolos da cultura norte-americana (Marilyn Monroe, rótulo de sopa de lá – “Campbell’s” -, etc). Ou mesmo da negação de qualquer tomada de posição realista, ocupando a arte apenas as nossas concepções seja com olhar um pinico ou cogitar algumas palavras, como desde a década de 10 foi levado por um francês, Marcel Duchamp, para os EEUU, e estes aceitaram transformar a arte em matéria descartável, contanto que existam artistas para consumo nas televisões e jornais e mercado (e para isto qualquer novidade vale, contanto que haja sempre novidade)... Ou então, ainda, a de absoluta neurose das grandes metrópoles nervosas nos traços abstratos e confusos de um Jackson Pollock... Paisagem pobre com garoto jogando futebol (e não é o norte-americano) ou pessoas chorando miséria pessimamente vestidas, ou trabalhando no campo, são coisas de quem ainda não atingiu a industrialização da modernidade... E o brasileiro colonizado não se quer ver assim. Acho que há aí um gosto por imitação, complexo de subdesenvolvido ou outras questões psicanalíticas mais profundas...
O fato é que Portinari começou a ser visto com certa dubiedade por volta da aparição dos neo-concretos das décadas de 1970-80. De 1940 a 60 e pouco ele era inquestionável dentro da melhor intelectualidade e sensibilidade brasileiras. A grande parte da pequena burguesia é que o detestava. Primeiro pelas deturpações da imagem realista de seu expressionismo (nesta época a pequena burguesia só admitia quadro academicamente figurativo, e ela abrangia desde operários qualificados, remediados profissionais liberais, até pequenos proprietários, pequenos industriais e comerciantes). Segundo porque Portinari era o que chamavam de um “comuna”, que lembrava, em seus temas, das misérias e injustiças sociais do país, de que a tal pequena burguesia já se sentia envergonhada e desejava esconder de suas vistas. Tipicamente pequeno-burguesa era a classe militar, para quem falar em pobreza por si já era um indício de defesa de idéias comunistas! Quanto aos pobres mesmo, estes sequer sabiam quem era Portinari. Mas, havia a intelectualidade e pessoas integradas dentro de nossa cultura com sensibilidade bastante para chamá-lo carinhosamente de Candinho, exatamente pelo carinho que ele revelava ao tratar de nossa gente e de tudo que desenhava e pintava, na observação de seus olhos azuis. Aliás, não só de nossa gente. Portinari, antes de mais nada, um grande desenhista, ao ter problema de saúde com as tintas, legou-nos uma série, à lápis de cor, de cenas do D. Quixote de Cervantes, que é de um humanismo verdadeiramente fora de qualquer fronteira nacional! E claro, Guerra e Paz será, para sempre, o painel da internacionalíssima ONU, em Nova Iorque, com todas as dores e alegrias da Humanidade!

Uma das poucas homenagens do ano foi a exposição do MAM de São Paulo. Tão tímida, que o salão dividiu-se com uma outra exposição (por sinal muito boa, de expressionistas alemães), e compunha-se de apenas 32 telas do nosso pintor. Enormemente distante de uma retrospectiva das mais de 7.000 obras deixadas pelo artista, ao contrário, elegeu-se fazer uma singelíssima exposição temática (sobre mulheres e crianças na obra de Portinari). Diga-se de passagem que o tema é bem significativo e traz muito do tal “carinho” já observado existente nos traços do pintor. Mas, isto estaria ótimo, se fosse um dentre múltiplos eventos...

Apesar de isolada, a exposição foi bem cuidada, tendo como curador, inclusive, um especialista, Tadeu Chiarelli. Mas, por que raios, fico pensando eu, um tamanho especialista teve de escrever sobre a exposição palavras como: Mesmo levando-se em conta o poder mítico e mistificador dessas imagens da mulher associadas à idéia de pátria (aliás, muito presente na cena artística internacional dos anos 30 e 40), não parece restar dúvida de que tais obras, com tal temática, desempenham um papel crucial na obra de Portinari, ampliando seu repertório de imagens-símbolo de uma suposta e inquestionável brasilidade. Há aí algumas afirmações que necessitam ser analisadas. A começar chama Portinari de “mistificador”, dizendo que ele associa a mulher à idéia de pátria... O artista não pode, então, representar uma pessoa do lugar onde vive? Pelo fato de Portinari pintar uma nordestina retirante, figura encontrável em nosso país, vestida com a singeleza natural de sua pobreza, ele está “mistificando” chamando aquela mulher brasileira de brasileira!!!? Será que as majas de Goya (ou qualquer de suas mulheres rendadas à espanhola, que eram os tipos que ele via a seu redor e pintava...) serão mistificações do bandido pintor espanhol? Sim, a esta altura o pintor virou bandido – um mistificador! um mentiroso! As holandesas de Vermeer também não passam de mistificações do pintor? Será que só a loura burra do Wahrol é autêntica, real, deste mundo? Se bem que Goya e Vermeer, ou Rubens com suas flamengas pelancudas, ou Renoir com suas parisienses elegantes, ou, meu Deus!, tudo quanto é gênio do passado, desde as italianas de Da Vinci, ou os fradinhos de Cimabue, tudo enfim que se conhece em pintura, inexiste, pois este “fenômeno” de se retratar a pessoa do lugar que se vive só ocorreu na década de 30, tempo dos estados autoritários, como escreve o especialista no texto citado? Por conseguinte, uma paisagem brasileira, alguém do Brasil retratado em arte, devem ser fruto puro de ideologias fascistas!!!? E isto é dado a entender no texto de um estudioso simpatizante de Portinari! (Aquelas meninas espanholitas de Velazquez são pura ilusão... Ninguém pintava seus nacionais antes do fascismo getulista!) Imagine-se seus detratores...

O curioso é isto. Toma-se uma estética por corruptível por uma errada associação política. Quer-se dizer que as manifestações de nacionalidade brasileira só vingaram por um golpe de estado, com a responsabilidade de alguns políticos fascistas (e como nos foram custosas tais manifestações em arte!, enquanto, como os artistas citados no parágrafo anterior, o mundo ocidental sempre viveu de suas realidades nacionais. Nós conquistamos este direito somente com o Modernismo no século XX). Mas, quais políticos? Getúlio por acaso teria condições de compreensão estética sequer para apreciar Portinari? Ele deveria detestá-lo, julgando que arte deveria ser a representação puramente fotográfica acadêmica, se é que se interessava em tanto. Alguns de seus ministros? Houve o caso de Gustavo Capanema, sim, que representou uma exceção entre nós (culturalmente, acho que em qualquer tempo). Alguém com a coragem de tentar encontrar o real perfil de seu tempo, contratando artistas de novas tendências estéticas e descobrir a realidade de nosso país, camuflada, aí sim, por patriotadas alienantes dos parnasianos, escolas de música francesas e pinturas de um velho italianismo, que mesmo na Europa o impressionismo já superara há muito. Para começar, seu chefe de gabinete era Carlos Drummond de Andrade (que chegou a flertar com o comunismo com “A Rosa do Povo”), e com Rodrigo Mello Franco de Andrade funda o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, tendo entre seus principais colaboradores Mário de Andrade. São nomes fascistas? Dá obras para construir ao comunista Oscar Niemeyer, e painéis a pintar ao também comunista Cândido Portinari! São idealismos nazi-fascistas? Portinari, para Hitler (e mesmo para Stálin, aliás, diga-se de passagem), seria um representante de uma escola decadente... O que acho que fazem, ideologicamente, hoje em dia, com nossos importantes intelectuais e artistas que tentaram desvendar o Brasil, para compreender o lugar que se vive, é um enorme samba do crioulo doido!

A luta das gerações pós-22 foi grande por nos libertarmos do subdesenvolvimento de copistas de obras estrangeiras, e de pensar o Brasil real, até então ignorado. A descoberta de Ouro Preto, as viagens ao nordeste de Mário de Andrade, o recolhimento de músicas, a entrada de personagens falando e pensando como brasileiros na Literatura, tudo isto foi uma enorme conquista. Não foi fruto de ideólogos governamentais dentro de um poder fascista. Mário de Andrade, o homem 300, 350, sim, como outros intelectuais, fora dos governos e das políticas, idealizou muitas revoltas modernistas (como no resto do mundo outros tantos artistas e intelectuais soltavam seus manifestos modernistas), e como construir uma arte que não macaqueasse (na expressão do poema de Bandeira) o que vinha de fora. Ele batalhou dentro de uma época em que a nacionalidade necessitava ser afirmada até mesmo por motivo social, mais que estético. E reconhece isto no “Ensaio sobre a música brasileira” (Martins-MEC,1972, ed. comemorativa do 50º aniversário da Semana de 22), ao escrever que a música brasileira, é claro, tem influência-contato com várias outras nacionalidades, como Rossini não seria menos italiano por causa de uma que outra frase da ópera francesa, e nem se pode deixar de escrever na forma sonata por esta ter-se originado entre germanos.. Nem que se pensasse que a única música brasileira seria a do indígena ou que contivesse a síncope de origem africana. Tudo isto são bobagens. Mas, ele achava necessário fazer uma arte interessada para se afirmar como nossa. E, sendo boa, seria também internacional, tal como ocorreu com aqueles que encontraram os elementos essenciais da nacionalidade, como Rameau, Weber, Wagner, Moussorgski... E conclui enfático: Todo artista brasileiro que no momento atual fizer arte brasileira é um ser eficiente com valor humano. O que fizer arte internacional ou estrangeira, si não for gênio, é um inútil, um nulo. E é uma reverendíssima besta. Besta, na época, era a expressão para quem usava de artificialidades querendo se passar por quem não é.

Certa vez o duque de Windsor visitou uma exposição de Portinari. Encontrando-o, perguntou, dentro da ironia anglicana de bon-vivant internacional, por que ele não pintava rosas em vez de toda aquela expressão de dor e miséria. Portinari respondeu que, infelizmente, ele só sabia representar o que lhe inspirava seu país... E a miséria dos retirantes nordestinos, por exemplo, para centros mais populosos, era uma realidade tão exata quanto as favelas que aumentaram com eles e seus descendentes, invadindo todas as cidades de hoje em dia. Um quadro de Portinari, além do uso magnífico das cores (normalmente seus fundos são verdadeiras composições abstratas com cores tipicamente dele), num desenho de mestre pré-renascentista (ele foi muito influenciado pelos italianos de que descendia) levado à distorção expressionista um tanto passada pela dor do Guernica de Picasso (por influência ou mera tendência da contemporaneidade, uma vez que as distorções já vinham ocorrendo antes que Picasso pintasse tal quadro, mas de qualquer forma Guernica tocou-lhe fundo), além de tudo isto, é um estudo sociológico representativo do Brasil, como um livro do historiador Caio Prado Júnior ou um escrito do antropólogo Darcy Ribeiro... Falar em suposta brasilidade como faz o curador da referida exposição paulista faz-me questionar o que ele tem por autêntica brasilidade. Algo maior que a visualização de Portinari? Por que? E, repito também, esta nacionalidade é encontrada sem nenhum dogmatismo, admitindo-se as influências de formação e de convivência com a contemporaneidade, dentro de seu humanismo e sensibilidade.

A suposta brasilidade havia, e repito-o, entre os artistas anteriores ao Modernismo, sobretudo os parnasianos, que exaltavam a idéia de “pátria” como uma coisa idealizada, distante, meio religiosa. Isto, sim, tem a ver com a postura fascista, e dos militares adoradores de bandeiras e hinos... Mas o retrato de uma dura realidade de subdesenvolvimento e miséria, nas cores, é verdade, de uma rica cultura tropical (e isto também ele não inventou!), não tem nada de patriotada. Ao contrário. É típico de um lutador socialista, num trabalho paralelo ao de Orozco e Rivera, que tanto são exaltados em seu país, lá nunca sendo denegridos como aqui ocorre com Portinari.
Mas aqui houve uma ditadura militar que fez com que toda uma geração passasse a detestar tudo quanto represente o Brasil. Jovens e intelectuais eram presos e torturados só por cantarem o Samba do subdesenvolvido, lembrando que éramos explorados pelo capital internacional, mas que nosso caminho, para fugirmos do subdesenvolvimento deveria ser outro, enfrentando e modificando a realidade. Só por lembrar tais fatos, e lutar por uma mudança estrutural do país, era-se taxado de comunista, subversivo... Os militares não admitiam que não vivêssemos sob os padrões do sistema capitalista, e não se podia dizer que este gerava nossa injustiça social, como Portinari retratava. O curioso da História é que tanto prenderam e torturaram que parece que as novas gerações capitularam ante o pavor da insegurança. Por isto tornaram-se adoradores de ídolos de pedra, como os padrões da moda importados do grande centro norte-americano, como os militares queriam que fôssemos, invejando não termos warhols em vez de portinaris por cá, invejando não termos fábricas de cadillacs e vivermos nas casas de bairros confortáveis como lá. E, tal como ocorrera antes do Modernismo, voltamos a ser copiadores, envergonhados pela própria cultura. Por isto, mesmo um “especialista” não tem a coragem de expor as razões de Portinari ser um brasileiro, como Goya era espanhol ou Dégas, Monet ou Cézanne franceses. Franceses até demais! E, não querendo mais ser brasileira, toda uma geração é dominada ideológica, estética e covardemente, pelo que Mário de Andrade mui bem denominava de reverendíssimas bestas! Porque, tal como em seu tempo, nossa arte voltou a necessitar ser “interessada”, “social”, e não uma “brincadeira desabusada” ante a seriedade da dominação econômico-artística do chamado fenômeno da globalização.

Espero que o bicentenário de nascimento de Portinari encontre um Brasil mais seguro de si, que lhe faça justiça!.