Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 93 - dezembro de 2003


IMPRESSÕES LITERÁRIAS

Camilo Mota
idealizador e editor de Poiésis, reside em Saquarema-RJ

 

Os contos do senhor Silva

“MemOrial: dois livros de contos” de José Carlos da Silva (Campinas, Komedi, 2003) é um bom livro de histórias, como se o autor nos convidasse a sentar à volta da fogueira e iniciasse uma série de relatos, que nos prendem a atenção e nos levam à diversão e à reflexão, simultaneamente. O volume começa com uma ironia real: o autor decidiu reunir num mesmo livro duas obras diversas. O motivo: é muito mais econômico! E se a ironia marca o “nascer” da obra, também se faz presente em seu conteúdo. Na primeira parte de seu “MemOrial”, José Carlos elabora uma crítica de costumes, reavaliando conceitos sociais, como o das aparências que são mais valorizadas pela sociedade do que a essência. O autor faz uso constante da ironia, do humor. O estilo narrativo reflete bem sua intenção, ao tempo em que se atém ao necessário, não se deixando perder em detalhes que fugiriam ao tema, principalmente quando dá margem a elementos fantásticos ou mágicos. O realismo “irreal” ajuda a compor o cenário de absurdos da vida humana.

Essa ironia é que também me contaminou e me fez escrever o título acima. A brincadeira com a simplicidade do sobrenome do autor (um dos mais comuns em nossa sociedade) foi também incorporada por José Carlos em um dos contos (“Dona D’Alva”), onde o narrador se diverte (e nos diverte) ao relatar a história de um antepassado africano ante o olhar atento de sua ouvinte.

José Carlos também tece belas imagens líricas, como no conto “O acaso”, onde a simplicidade dos sentimentos dos personagens se revela no contraste com a narrativa de elementos imaginativos baseados em raciocínios científicos.

Já no segundo livro do volume, o autor se dedica à prática de contos curtos, onde mostra a mesma desenvoltura narrativa já percebida no primeiro livro. O seu poder de síntese revela um escritor cuidadoso, ao mesmo tempo que criativo. Também ocorrem bons momentos de ironia, entremeados de outros cuja singeleza é das mais belas, como no conto “Tank”.

“MemOrial: dois livros de contos” pode ser adquirido através do site da editora (www.komedi.com.br).


Vinícius de Moraes na Internet

A vida e a obra de Vinícius de Moraes ganharam uma justa homenagem na Internet. O portal dedicado ao poetinha coordenado por Susana Moraes e desenvolvido pela Refazenda é ponto de visita obrigatório a todos que admiram seu trabalho. No site, os visitantes têm acesso à obra completa de Vinícius, incluindo os textos que escreveu sobre cinema. Um atrativo à parte é a interatividade: os internautas podem montar, a partir do próprio site, antologias personalizadas do autor de “Para viver um grande amor”. Confira em www.viniciusdemoraes.com.br.


Linguagem Viva

O Brasil possui uma série de publicações alternativas voltadas para a literatura. Muitas apresentam uma qualidade invejável e se destacam, inclusive, por sua persistência no tempo. Produzir um jornal ou revista cultural no país é um desafio. Um bom exemplo é o jornal Linguagem Viva, editado há 15 anos por Adriano Nogueira e Rosani Abou Adal. A publicação prima pelos bons artigos que publica. Contatos podem ser feitos através do e-mail linguagemviva@uol.com.br. A assinatura anual custa R$ 30 e a semestral, R$ 15. O endereço para correspondência é Caixa Postal 10036, São Paulo-SP, CEP 03014-970.

Literatura: a revista

Ainda falando sobre boas publicações de periódicos no Brasil, é impossível deixar de citar “Literatura: Revista do Escritor Brasileiro”, que durante 12 anos foi editada em Brasília, e que a partir de 2003 muda-se com seu editor, Nilto Maciel, para Fortaleza. Nesta nova versão (nº 24), o destaque de capa é a entrevista com José Alcides Pinto, que em setembro último completou 80 anos, tendo estreado em livro em 1952 com “Noções de Poesia e Arte”. O poeta e romancista ganha aqui uma bela homenagem.
Uma das qualidades da publicação é seu caráter universalista, não se prendendo a uma região específica e nem a alguma estética em particular. Seu principal objetivo, como consta do Editorial, é publicar obras de escritores novos ou que não conseguem chegar às ante-salas das grandes editoras. “Literatura” traz, assim, excelentes ensaios, poemas e narrativas, incluindo entre seus colaboradores nomes como Ronaldo Cagiano, José Luiz Dutra de Toledo, Enéas Athanázio, Glauco Mattoso, Natalício Barroso, Aricy Curvello, Jorge Pieiro, e muitos mais.

Pessoalmente neste número que tenho em mãos, destaco o excelente texto “O romance”, de Natalício Barroso, em que tece uma busca por um romance de sua autoria, perdido na Internet ou sabe-se lá onde... É de primeira qualidade, atual e profundo, com uma dose de reflexão na medida certa. Num simples parágrafo, o autor nos brinda com uma afirmação que deixo aqui para nossos leitores refletirem nos próximos dias: “A maior tolice da humanidade, portanto, é imaginar que a poesia — tanto quanto a música ou a pintura — é inútil. Tenho para mim, que não sou genial, que a poesia é muito mais importante aos homens do que todo o petróleo que se encontra atualmente sob a terra. Assim, a única comparação possível que se pode fazer entre a produção literária e o mundo circundante, é com o amor — pois só o amor, a exemplo da inspiração, é capaz de mudar, completamente, o comportamento das pessoas.”

Quem quiser conhecer mais sobre “Literatura: Revista do Escritor Brasileiro” pode escrever diretamente para Nilto Maciel, Rua Haroldo Torres, 1111, apt. 101, Monte Castelo, Fortaleza-CE, CEP 60357-100, ou pelo e-mail niltomacielmaciel@bol.com.br.