Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 93 - dezembro de 2003


HISTÓRIA E POLÍTICA
CAMILO CIENFUEGOS:
O HERÓI ESQUECIDO

Hamilton César de Castro Carvalho
livre-pensador, reside em Petrópolis.

 

O recente recrudescimento da repressão política em Cuba, com o conseqüente encarceramento dos dissidentes e o fuzilamento de três cidadãos cubanos que tentaram roubar uma barca para fugir para os EUA, trouxeram de volta ao noticiário internacional a velha questão dos direitos humanos em Cuba.

Objetivando tentar fugir às pressões internacionais em favor da liberalização de seu regime ditatorial que já dura 44 anos, Castro valeu-se do fato de que a mídia mundial centrava suas atenções sobre a “II Guerra do Petróleo” para apertar o cerco aos dissidentes políticos do chamado Projeto Varela, movimento dissidente que, pacificamente, vinha tentando recolher assinaturas para peticionar ao governo cubano a introdução de mudanças tendentes à implantação da democracia no país. Desencadeando uma onda de repressão a estes dissidentes, Fidel Castro levou-os a julgamento por atividades “contra-revolucionárias”, nome dado pela legislação fascista cubana a toda e qualquer atividade que vise à introdução de reformas democráticas e liberais no país, mesmo se estas forem – como de fato o são – realizadas de forma pacífica e ordeira.

Os cabeças e responsáveis pelo abaixo-assinado foram condenados a penas que variaram de 25 anos de cadeia à prisão perpétua, apenas por meramente exercerem o direito à liberdade de expressão neste agonizante regime cubano que nossas esquerdas, cinicamente, ainda insistem em denominar de “democracia”. A voracidade repressiva do regime castrista atingiu seu auge em meados de abril quando três homens, que roubaram uma balsa para fugir de Cuba, foram condenados à morte e executados no paredón por “traição” à Pátria. A este ato de violência houve diversas reações que variaram do repúdio assumido, da omissão vergonhosa e de um abjeto apoio. O escritor português José Samarago, Prêmio Nobel de Literatura em 1998 e até então notório militante comunista, teve a coragem e a dignidade de romper em público com Fidel, afirmando que os fuzilamentos “destruíram seus sonhos e frustraram suas expectativas”, afirmando igualmente que “doravante Fidel Castro seguirá seus próprios caminhos, eu seguirei os meus.” A omissão veio do governo brasileiro que, ainda preso a uma concepção de que os guerrilheiros de esquerda são quixotescos “idealistas combatendo pela utopia igualitária”, vem sistematicamente se negando a condenar tais grupos colombianos como braço armado do tráfico de drogas que assola o país; finalmente, o apoio a Castro veio dos velhos neoconservadores da mesma esquerda de sempre que, travestidos de falsos “progressistas”, morrem de amores pela ditadura cubana enquanto condenam, cinicamente, a ditadura...dos outros. Neste momento em que, pelas vias transversas, Cuba e seu regime ganham tristemente as páginas dos jornais de todo mundo, vi-me subitamente tentado a rever tudo o que havia lido sobre o personagem mais esquecido da Revolução Cubana: Camilo Cienfuegos. Os motivos deste ostracismo histórico a que ele foi relegado bem que fizeram por merecer um revival biográfico acerca desta figura olvidada pela história cubana recente, nem que seja em nível de um artigo no Poiésis.

Filho de anarquistas mas de ideário liberal indefinido, não-comunista e amante da liberdade, era de se prever seu misterioso fim provavelmente urdido pela troika burocrática de Havana: Fidel Castro, Raul Castro e Ernesto “Che” Guevara. Cienfuegos aderiu logo à revolução e participou ativamente da tomada do quartel de Moncada em 26 de julho de 1953, data que marca o início oficial e simbólico do movimento que levaria os guerrilheiros de Sierra Maestra ao governo de Havana. Lutou também na tomada de Camagüey e de Las Villas, redutos das forças militares do exército de Batista. Embora a historiografia de esquerda o negue até hoje ou então aborde este assunto com enorme constrangimento, os revolucionários cubanos de 1953 não tinham, de início, a menor intenção de implantar em Cuba uma ditadura alicerçada nos moldes teóricos do ideário marxista. Pelo contrário, o indefinido credo liberal que movia Castro visava, tão somente, à derrubada da ditadura de Fulgencio Batista, títere e marionete de uma América que, desde 1898 (fim do colonialismo espanhol), dominava a economia daquele pequeno país insular caribenho.

A luta castrista contra a ditadura de Batista arregimentou prosélitos e entusiastas no mundo inteiro, a maioria de tendências liberais, neles incluídos famosos intelectuais americanos e até o escritor Ernest Hemmingway, Prêmio Nobel de Literatura em 1954, um apaixonado por esta ilha onde viveu muitos anos e onde ambientou vários romances seus, como “As Ilhas da Corrente” e “O Velho e o Mar”. A Revolução Cubana teve portanto quatro elementos bem díspares em sua formação e gestação históricas. Os irmãos Castro a lideravam mas nunca conseguiram superar até hoje o estigma de representar o lado burocrático da revolução. Guevara, um profissional da luta revolucionária, era homem de ação e nunca alimentou pendores para com o lado administrativo e burocrático típico da gestão de toda e qualquer sociedade socialista. Seria impensável imaginá-lo trocando o ardor da luta revolucionária e o frio planejamento das ações revolucionárias, pela enfadonha rotina de sentar-se a uma obscura mesa em um ministério qualquer a elaborar planos econômicos qüinqüenais ou a ler relatórios da polícia secreta dando conta da prisão de dissidentes. O mesmo se pode dizer de Cienfuegos que, inclusive, não tinha o menor vínculo ideológico com o marxismo, embora tenha servido à Revolução Cubana com denodo e coragem. Aliás ele e, até certo ponto também Guevara, foram os instrumentos úteis da revolução, tanto que mais tarde viriam a se constituir em sério embaraço e incômodo aos irmãos Castro. A visão inicial dos quatro cabeças da Revolução Cubana era de cunho abertamente bolivarista. Simón Bolívar e não Lênin ou Marx, foi o modelo ideológico originário do movimento que, a partir de Sierra Maestra, daria início à revolução. Com o correr do tempo, só Cienfuegos e, em certos aspectos, também Guevara, permaneceram bolivaristas em espírito: Fidel e Raul Castro cedo abandonaram os ideais liberais bolivaristas por serem estes favoráveis à liberdade humana, fato incompatível com a cruel ditadura que ambos acabariam por impor à Cuba pós-revolucionária.

Por mais paradoxal que possa parecer, o maior responsável pela posterior radicalização da Revolução Cubana foram exatamente... os Estados Unidos da América. Até novembro de 1959 os EUA ainda mantiveram relações diplomáticas com Cuba, na medida em que, em Washington, a ascensão de Castro ao poder foi vista apenas como tendo o limitado objetivo de derrubar a ditadura de Fulgencio Batista e implantar na ilha um governo democrático nos mesmos moldes (oh ironia!) da própria democracia americana, que Castro conhecera muito bem por ser advogado formado pela Universidade de Harvard. Tanto assim o foi que os EUA reconheceram o governo de Fidel Castro apenas 17 dias após a subida deste ao poder. Mas como Cuba decidiu comprar petróleo soviético mais barato, as três refinarias americanas da Standard Oil of New Jersey que funcionavam no país se recusaram a refiná-lo. Castro então resolveu nacionalizá-las e, ao pressentir que Cuba e seus revolucionários escapavam ao controle de Washington, os EUA resolveram ameaçar o país com uma invasão militar, objetivando derrubar Castro e reinstalar na ilha um governo pró-americano. Diante da possibilidade de ver frustrado seu sonho revolucionário, em 19/04/1961 Castro publicamente autodeclarou-se marxista e aliado da então URSS a qual, pega de surpresa e enfrentando enormes dificuldades econômicas internas, teve de aceitar o novo líder cubano como o mais novo “filho pródigo” e marionete do comunismo internacional, na medida em que a grande superpotência poderia perder prestígio no cenário socialista mundial se negasse apoio a um grupo de guerrilheiros que, bem ou mal, pegara em armas contra as oligarquias cubanas apoiadas por uma sangrenta ditadura bancada por interesses privados americanos.

Em lugar de esperar para ver os rumos que tomaria a revolução, a precipitação americana de ameaçar Cuba encontrou sua imediata contrapartida na equivalente precipitação cubana de romper relações diplomáticas com os EUA, fato que cortou os canais de comunicação entre ambos os países. Vinte anos mais tarde, em 1979, quando os sandinistas tomaram o poder na Nicarágua e derrubaram a ditadura de Anastácio Somoza os EUA, partindo das lições aprendidas durante a Revolução Cubana, não cometeram o mesmo erro político, deixando a esquerda sandinista de Daniel Ortega exaurir-se politicamente até que a Nicarágua, passado o entusiasmo revolucionário inicial, evoluísse para um processo de democratização mais liberal. Ortega aceitou de bom grado o grande conselho então dado por Fidel Castro: “Não rompa relações com os EUA, pois eu fiz isto antes e me arrependo até hoje”. Vinte anos mais tarde, portanto, o caso Nicarágua provaria o erro da precipitação diplomática americana na época. Não tivesse o governo de Washington capitulado aos interesses privados das companhias de petróleo e ordenado às refinarias que refinassem o petróleo soviético, o que era o interesse público americano e não tivesse também os EUA ameaçado Cuba com uma invasão armada, certamente Fidel Castro e sua revolução não teriam se atirado aos braços da Rússia Soviética e quiçá seu regime teria seguido o curso liberal-democrático a que originariamente se propuseram seus líderes.

O que há de desonesto nesta história toda é a tentativa, aliás bem sucedida, da historiografia de esquerda, de recorrer a todos os tipos de subterfúgios para escamotear e esconder de seus prosélitos e sectários os verdadeiros objetivos iniciais não-marxistas que subjaziam à revolução liderada por Fidel Castro em Cuba. Toda esta historiografia, portanto, tenta impingir a seus seguidores e simpatizantes a concepção, aliás errônea e manipulada, de que Fidel Castro e seus revolucionários já estavam, desde os primórdios de sua luta, “inequivocamente” (?!) comprometidos com a realização de uma revolução de orientação ideológica claramente marxista, fato que foi negado por toda evidência histórica posterior. A idéia de um Fidel Castro liberal e democrático horrorizaria os radicais e prosélitos da esquerda, que jamais perdoariam El Comandante pelo extremo “pecado“ de um dia em sua vida ter cogitado da idéia de implantar uma verdadeira democracia em Cuba. O mito do sonho revolucionário inicial tem de ser mantido intacto, ainda que ao preço do escamoteamento e da manipulação de toda a evidência histórica em contrário.

O posterior alijamento de Guevara e, principalmente de Cienfuegos, da cúpula da Revolução Cubana está bem dentro da clássica tradição histórica de que as revoluções não só devoram seus filhos como, igualmente, conduzem ao poder apenas os pragmáticos e arrivistas de última hora, sendo ceifados, logo de início, os idealistas que verdadeira e ingenuamente cometeram o grave erro de acreditar nos lemas revolucionários como sendo uma séria declaração de ideais. Estes ainda não aprenderam que toda a revolução visa tão somente ao poder em si mesmo e que o poder é, por si só, uma patologia autônoma em relação a toda e qualquer ideologia duvidosamente vinculada a ele como motivação política.

Guevara cedo se desencantou com o socialismo burocrático de Fidel Castro e de seu irmão Raul, tendo abandonado a ilha a pretexto de pregar e implantar a revolução em terras do continente americano. A partida de Guevara aliviou Castro, que via neste último um incômodo político e um homem pouco afeto às rotinas administrativas do socialismo estatal-burocrático. Como homem de ação e um estrategista da luta armada, pouco ou nenhum interesse tinha Guevara pelo lado formal e burocrático do Estado socialista. Com mais razão ainda se desencantou Cienfuegos, filho de anarquistas espanhóis emigrados para Cuba, que nunca foi comunista e que, por tal razão, viu com desagrado a degradação dos ideais da revolução pela qual lutara. Cedo começou a incomodar a elite revolucionária cubana quando, abertamente dentro do fechado círculo de poder em Havana, começou a ventilar críticas aos fuzilamentos políticos em Cuba como prejudiciais à imagem do país no exterior, o que era verdade. Hoje sabe-se, quase com absoluta certeza, que Fidel teria até mesmo cogitado de levá-lo ao paredón sob a acusação de “traição” à pátria e à revolução, como se protestar contra os crimes do regime revolucionário fosse “trair” a revolução. Mas, contrariamente, foi o próprio Castro que, com seus fuzilamentos e métodos brutais, traiu seus próprios ideais iniciais de fazer de Cuba uma democracia nos moldes da americana, que era o seu objetivo e projeto político originários. Entretanto, Fidel desistiu da idéia de mandar fuzilar Cienfuegos, o que foi uma decisão politicamente acertada, pois isto deporia contra a imagem da Revolução Cubana não somente aos olhos do mundo democrático mas igualmente aos olhos do mundo socialista de então. Afinal, o que diriam os socialistas sinceros de todo o mundo se El Comandante mandasse ao paredón seu maior colaborador, excepcional combatente e um dos líderes e mais brilhantes mentores da revolução? Mas era preciso neutralizá-lo politicamente antes que ele começasse a representar uma ameaça à unidade interna do novo círculo de poder instalado em Havana. Por isto dez meses após a ascensão de Castro ao poder em janeiro de 1959, o pequeno monomotor Cesna-310 em que Cienfuegos viajava em um vôo doméstico entre Camagüey e Havana, sofreu um acidente misterioso e até hoje inexplicado, embora estivesse claro ao mundo inteiro que a morte de Cienfuegos somente interessava a Castro e a seus asseclas. Cienfuegos foi enterrado na catedral de Havana, ao lado do túmulo de Cristóvão Colombo, no panteão dos heróis da Revolução Cubana e junto ao de José Martí, que lutara contra o domínio espanhol em 1898. Também ali Guevara foi sepultado após ter sido morto na Bolívia em 1967. Oficialmente, Cienfuegos ainda é rotulado como herói da Revolução Cubana mas as novas gerações de jovens cubanos falam pouco sobre ele que, ultimamente, vem sendo até mesmo “congelado” e esquecido nos compêndios escolares da história revolucionária do país.

A morte de ambos, como sérios empecilhos ideológicos a Fidel, foi um alívio para o líder cubano, que exilou até mesmo sua irmã, ferrenha opositora ao regime e até hoje vivendo em Miami. Livres destes “empecilhos” que, mais tarde, poderiam ainda vir a representar o germe embrionário de uma outra revolução dentro da revolução, Castro pôde – finalmente – sentir-se livre para impor aos cubanos sua brutal ditadura. O resto da história todo mundo sabe: os fuzilamentos em massa, o Estado policial com um espião para cada 28 habitantes, a censura, a repressão à liberdade de imprensa e aos dissidentes políticos, enfim o já clássico aparato de todo Estado totalitário que seu regime tanto condena nas outras ditaduras que não sejam as de esquerda.

Hoje Fidel Castro, secundado por seu irmão e “herdeiro” político da agonizante ditadura cubana, reina sozinho e inconteste sobre a ilha. É verdade que a maciça propaganda ideológica do regime tenta impingir ao exterior a imagem de uma Cuba que conseguiu indicadores sociais e culturais dignos de alguns países do primeiro mundo. Mas isto é uma meia-verdade, na medida em que o regime tenta por todos os meios justificar a sua ditadura, sob a alegação de que um prato de comida ou uma vaga na escola são o “justo” preço pela perda das liberdades e direitos individuais. E por que deveria sê-lo? O que a “esquerda” não admite é que o Canadá, país capitalista liberal mas progressista e que possui a melhor previdência social do mundo, apresenta indicadores sociais bem superiores aos de Cuba sem que, para isto, tivesse de cobrar de seus cidadãos o elevadíssimo preço da falta de liberdade ou que mandasse fuzilar, sem julgamento, cidadãos canadenses que quisessem sair do país. Sair do Canadá é fácil: basta ir ao aeroporto mais próximo e tomar um avião para outro país. Difícil mesmo é sair legalmente de Cuba. Mas, a tal respeito, aqui fica contudo, a pergunta que sempre cala, constrange e deixa sem argumentos os fanáticos defensores do regime cubano: se a Cuba castrista é o “paraíso” do Caribe, se é a “utopia igualitária” tão trombeteada pela máquina de sua propaganda subliminar oficial, por que todos os anos centenas de cubanos enfrentam a guarda costeira de Castro ou os tubarões do mar das Caraíbas para tentar fugir do “paraíso”? Esta é a pergunta a que ninguém nas esquerdas responde, nem mesmo os 50 “intelectuais” brasileiros – entre eles Chico Buarque e Oscar Niemeyer – que recentemente assinaram o vergonhoso manifesto de apoio ao fuzilamento dos dissidentes cubanos. Só gostaria de perguntar-lhes se eles teriam a coragem de tomar um avião e ir fazer, em plena Plaza de la Revolución em Havana, uma bombástica campanha pelas “Diretas-Já” e pregar o fim da ditadura de Castro. Mas nisto nem quero pensar. Afinal o Brasil não poderia correr o risco de perder nem o nosso músico-poeta, nem nosso grande arquiteto, caso em que, se ocorresse, teríamos de levar-lhes cigarros nas masmorras de uma prisão perpétua cubana ou então, pior ainda, teríamos de acompanhá-los ao paredón, triste fim dos que ousam se opor ao cruel tirano do Caribe.

Quanto a Cienfuegos – nunca é tarde demais para afirmar isto – permanece como um dos mistérios insolúveis da Revolução Cubana. Esquecido e gradualmente condenado a um lento e inglório ostracismo histórico, a figura singular de Camilo Cienfuegos paira como uma sombra sobre a ilha nestes tempos em que acompanhamos a lenta agonia da ditadura castrista. Um dia talvez toda esta história venha – finalmente – a ser totalmente desvendada e, com ela, o mundo tome conhecimento dos horrores em que, desde 1959, a ditadura de Fidel Castro vem impingindo ao povo cubano. Ainda que envolta em mistérios, uma coisa contudo é certa: a morte ainda não totalmente elucidada de Camilo Cienfuegos só interessava mesmo à ditadura de Castro. Cienfuegos merece, portanto, o melancólico epíteto que denomina este artigo, pois para sempre ele será o eterno herói esquecido da Revolução Cubana.

BIBLIOGRAFIA

BETHEL, Leslie
Cuba: a Short Story
Pengouin Books – New York 1992

JULIEN, Claude
La Révolution Cubaine
Gallimard – Paris 1968