| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 91 - outubro de 2003 |
|||||||
|
crônica: Sylvio
Adalberto
Pois é amigo,
eu já cheguei. O caminho até aqui não foi mole, você
já sabe. O que você ainda não sabe são as coisas
que a gente começa a descobrir, quando, como dizia minha avó,
começa a “maginá”. O tempo agora sobra e você
vai acreditar que poderá fazer tudo aquilo que passou a vida planejando
fazer. Coitado! Mas não é por isso que vou desanimá-lo.
Tem coisas boas que você ainda vai poder fazer. Não é
recomendável começar a escrever agora as suas memórias.
Pode não dar tempo. Filmes eróticos também não
são recomendáveis, nem preciso explicar por quê, não
é mesmo? Se houver interesse por filmes, uma boa idéia é
ver todos os filmes de Shakespeare, de preferência os ingleses.
É uma boa. Não estou aqui para aconselhar ninguém.
Que sirva apenas como recomendação. Coma pouco, beba pouco,
caminhe muito e converse mais ainda com os amigos que sobraram, antes
que morram e você acabe falando sozinho. O melhor exercício,
no nosso caso, descobri sem querer, é tirar algumas conclusões
sobre o mundo pelo qual passamos, e que falta pouco para deixá-lo
definitivamente. Certas ou erradas, olha só as conclusões
a que cheguei. Assim como os diamantes, as cicatrizes são eternas. Às vezes nos perguntamos para que servem os diamantes e as cicatrizes. Os diamantes foram engendrados pela natureza e lapidados pelas mãos humanas apenas como elementos de cobiça. As cicatrizes nunca serão elementos de cobiça, mas, em alguns casos, pesados troféus, conquistados a duras penas e carregados no fundo de corações solitários. A boa semente só se reproduz a contento em solo propício, assim como as boas palavras só se reproduzem no chão fértil dos corações generosos. É triste constatar que não podemos criar nada novo. Somos meros desvirtuadores da realidade. Aqueles que acham que estão criando algo, na maioria das vezes, estão apenas traduzindo a incontrolável e dissimulada angústia coletiva. Apesar da sucessão dos dias e dos homens, a natureza da humanidade é imutável. O amor, o ódio, a angústia, o bem e o mal, com todas suas intrincadas nuances, prosseguem em sua infindável devastação no coração dos homens e nós, que estamos sempre tentando “mudar”, mal percebemos que somos irremediáveis prisioneiros de nossa humanidade. Nós que acreditamos saber tudo, não sabemos sequer se o tempo vai para trás ou para frente. A cada dia que se sucede, caminhamos em direção a um inexorável retrocesso mental e físico. Enquanto isso ocorre, a mente, incansável moinho, mói, dia e noite, o descomunal acervo de nossas angústias e medos, depositando no tempo presente o saldo intraduzível do nada que somos. Hoje de manhã,
quando acordei, passei longos minutos me indagando da finalidade da vida.
Fiquei angustiado com as conclusões a que cheguei. Abri a janela,
deparei-me com um pássaro que cantava, alucinado, na claridade
da manhã, oferecendo seu canto. Não vislumbrei nele quaisquer
sinais de preocupação se estaria vivo ou morto amanhã.
Apesar de estar preso. Só mesmo um irracional pode ser feliz. Amar, de verdade é não exigir nada em troca do nosso sentimento. Jamais sentimento algum transbordará de um coração humano. Mas do que sobra é consumido em benefício próprio. Não existe sentimento mais falso do que a compaixão. O homem, como os outros animais, não foi educado para ter compaixão. Na mente de um ser treinado para vencer, a derrota alheia sempre será motivo de júbilo. Em todo mundo o verbo
dividir só é conjugado pelos que tiveram quase tudo subtraído. Sei apenas que sou a triste nota da primeira manhã, mas nunca estarei presente no último albor. Construí cada passo de meu caminho sem jamais indagar aonde chegaria, nem o que me esperaria no fim. Não por gostar de surpresas, mas por desconfiar ser inútil indagar o porquê da vida. Agora preciso compartilhar algumas indagações. Quem me dirá o quê sobre a porção de terra corrompida de onde o Criador plasmou o homem? Sou a lama vivente e também sou oleiro e do barro de minhas dúvidas nasceram outros seres que também se transformarão em pó, que o vento levará. Passei a vida tentando ser tolerante, amável e discreto. Aprendi que podia ver a claridade com os olhos fechados. Descobri que é impossível atingir o céu sem a ajuda alheia. Mas ao inferno é fácil chegar com as próprias pernas. Só não é proibido o complicado sonho da felicidade. A alma humana é imensa. Contém as indagações e as respostas. O infinito e o finito. As dúvidas e as certezas. O princípio e o fim. Contém o tempo e o tempo não a pode conter. Como o tempo ela é intransponível e indecifrável. Seu como e seu porquê fazem desabar como castelos de areia civilizações seculares. Enigma dos enigmas: o homem perscruta o tempo, o tempo perscruta o homem e os dois permanecem indecifráveis. E seguimos com o coração saturado de tudo quanto é inalcançável e inexplicável. Levamos uma grande parcela do que é doce e amargo, do distante e do silencioso. Só o silêncio pode penetrar em qualquer coração. Ele é o grande responsável pelas perguntas sem respostas e pelas respostas que não podem ser publicadas. Podemos cantar a beleza, sonhar, perceber a desgraça que nos rodeia, sonhar, lutar pela vida em suas múltiplas manifestações. Tudo vale um minuto de emoção verdadeira. É duro descobrir que nem aqui e nem lá o prêmio existe. Nossas vozes não serão lembradas. Nosso único direito é viver feito água e partir como o vento. Somos pó, mesmo, e ao pó voltaremos, mesmo. Pois é, amigo,
são essas, e outras, conclusões a que cheguei. Tente descobrir
as suas. Garanto a você que não servirão para nada,
como essas daqui também não. Mas espero que você tenha
percebido que nisso tudo há um enorme prazer em estar vivo e poder
dizer sem medo nenhum o que se passa pela cabeça da gente. É
importante deixar escrito o que sentimos e o que pensamos¸ com muita
sinceridade, para que outros saibam¸ que não somos donos
da verdade, mas a nossa verdade é sagrada. |
||||||