| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 91 - outubro de 2003 |
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A nova erupção de Rosário Fusco Ronaldo
Cagiano
Não é sem tempo o ressurgimento de Rosário Fusco (1910-1977). Ele retorna em grande estilo com a edição de a.s.a. — associação dos solitários anônimos, um dos seus romances inéditos. Signatário — ao lado de Enrique de Resende, Guilhermino César, Ascânio Lopes, Oswaldo Abritta, Francisco Inácio Peixoto e Martins Mendes — da legendária revista Verde (1927-1929), que surgiu no rastro do movimento estético paulista de 22, Fusco iniciou-se como poeta. Essa publicação foi um balão de ensaio de um grupo de estudantes secundaristas, mas rompeu as fronteiras de Minas Gerais, contando com a colaboração de escritores do Brasil e do exterior, espantou muita gente com sua ousadia e independência, a ponto de despertar a reação de Ribeiro Couto: ‘‘Todo o Brasil está surpreso: existe Cataguases!’’ Há mais de três décadas a.s.a. aguardava publicação, assim como outros dois, ainda na gaveta: Vacachuvamor e Um jaburu na Torre Eiffel, Graças aos esforços de outro mineiro, o crítico, poeta e ensaísta Aricy Curvello, que teve acesso aos originais, esse romance foi cuidadosamente revisto e preparado, com apoio do editor paulista Cláudio Giordano, que iria patrocinar a publicação. No entanto, a obra foi acolhida pela Ateliê Editorial, incluída na Coleção Lê Prosa, dirigida por Marcelino Freire. A edição, não obstante o mérito de tirar do limbo um dos mais importantes escritores brasileiros, pecou quanto à revisão, além de menosprezar a excelente apresentação de Fábio Lucas, relegada a posfácio. A capa, ao grafar o nome do livro em maiúsculas, em desacordo com o original, contraria orientação do próprio autor. Fusco, mais uma vez, foi vítima do menoscabo, pois na reedição de O agressor (Ed. Bluhm) macularam a obra ao enxertarem na orelha um pífio texto de Paulo Coelho. No momento em que ressurgem autores como Campos de Carvalho, José Agripino de Paula e Samuel Rawet, a.s.a. completa o resgate desse quarteto renovador da prosa brasileira. São autores que representam um marco distintivo de uma narrativa reconhecidamente visceral e transgressora, pontuada por um clima surrealista, mas de grande densidade temática e psicológica, rompendo os cânones tradicionais da nossa literatura. Em a.s.a., Fusco aprofunda e radicaliza sua reflexão sobre um universo de sombras, aparências e angústias, em que protagonistas de um mundo cão (aqui nomeados como Fulano/a, Sicrano/a, Beltrano/a, Louro, Arquiteto, Alemão, Perneta, Mudo) constituem-se numa verdadeira representação da vida de gente sem rosto e sem lugar num tempo e numa geografia caricaturados pelo absurdo e pela perda da individualidade. São seres vivendo no limbo social e no underground psicológico, gente à beira-vida, portuários, habitantes de cortiços, cafetões, turistas do imponderável e da perplexidade. Enfim, são criaturas solitárias, desarticuladas, em conflito permanente, vivendo histórias que oscilam entre o absurdo e a alucinação, com seus degredos interiores e suas torturas quotidianas, buscando regurgitar fantasmas e absorver suas culpas e suas feridas existenciais. A linguagem de a.s.a. vem emulada por numa atmosfera metafísica, reproduzindo diálogos que são a reverberação do próprio caos, um território que Fusco explora com dureza e poesia. Multifacetado e inquieto, Fusco fez de tudo na vida, antes de virar mito em sua terra e fora dela: foi lavador de vidros em farmácia, pintor de tabuletas de cinema, servente de pedreiro, bedel de ginásio, advogado e candidato a deputado federal. Trabalhou na imprensa, sendo um pioneiro: lançou o primeiro concurso de contos do Brasil, na revista A Cigarra e foi o primeiro a levar ao ar uma novela radiofônica, na Rádio Ipanema (1936). Rosário Fusco é reconhecido pela crítica como o verdadeiro precursor do realismo fantástico, pois O agressor (1940) antecede a O ex-mágico (1947), de Murilo Rubião e à própria obra de José J. Veiga. Depois de viver no Rio, Nova Friburgo e Paris, Rosário Fusco voltou a Cataguases (com quem afirmava manter uma relação de amor e ódio) para morrer de tédio e de cirrose, como gostava de dizer. Assim, passou os últimos anos de sua vida, com sua esposa Annie e sua inseparável garrafa de uísque, isolado, longe dos holofotes e desiludido, vindo a falecer em 17 de agosto de 1977 esse ‘‘mulato de 1,87m acima do nível do mar’’. Gênio incompreendido,
dotado de um temperamento vulcânico e polêmico, viveu a vida
e a literatura de forma intensa e apaixonada. Foi tido como maldito e
irreverente, em razão de sua própria autenticidade, tem
sido comparado a Kafka e Dostoievski, por retratar universos análogos.
Em seus romances, reflete de forma bisonha, irônica e cáustica,
sobre o absurdo e o ridículo que permeiam a existência humana
e na crítica exacerbava o caráter demolidor de suas opiniões,
não economizando na ridicularização das intocáveis
personalidades literárias de sua época. Por exemplo, sobre
Guimarães Rosa, cunhou: ‘‘Quando me falam da ‘revolução’
de Grande sertão: veredas lembro-me que seu vaidoso autor quis
— e conseguiu — escrever um Ulisses de província’’,
referindo-se ao livro de James Joyce. Sobre Rilke, outra irreverente sentença:
‘‘Tinha tantas perebas psicossomáticas que nem Rodin
conseguiu descascá-las a cinzel’’. Graça Aranha
também não foi poupado: ‘‘Especialista em escrever
sobre assuntos dos quais não pescava neca. Nome de avenida.’’
Nem Fernando Pessoa escapou à sua acidez: ‘‘Um chato
e com inumeráveis pseudônimos. Deve sua permanência
aos adidos culturais portugueses, às puxações ingênuas
dos poetas provinciais.’’ |
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