Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 91 - outubro de 2003

 

OS SÍMBOLOS DE “LOLITA”

Gerson Valle
membro do conselho editorial de Poiésis, autor da novela "Os souvenirs da prostituta", no prelo.

 

 

Cinema e Literatura

Com tanta coisa importante para ler não me apetece perder tempo com livros que podem até ter inspirado filmes de um Hitchcock, que, no entanto, vejo e revejo com prazer. Quanto western de qualidade, como os filmes de John Ford, não se fez em cima de livro sem maior expressão? A questão é que são linguagens diferentes, sendo a arte cinematográfica distinta pela montagem. Assim, uma narrativa ruim pode contar uma história que, bem montada, torna-se uma obra-prima. De uma forma geral, o que tenho observado é que (e este é o caso da maior parte dos westerns e policiais) quando o livro se atém à narrativa banal, com personagens estereotipados e ação objetiva, sem muita divagação que leve a reflexões não explícitas no texto, abre ao bom cineasta a perspectiva de construir seu subjetivismo, fazendo com que as imagens e o ritmo da montagem tornem-se, por si sós, significativos. Caso contrário, isto é, quando a obra literária é de uma densidade que abarque um número variável de reflexão, e contenha em si o subjetivismo dos personagens com a complexidade dos seres humanos reais, a montagem cinematográfica, mais afeita a estereótipos, tende a não refletir a profundidade da obra em que se baseia, quando não por falta de tempo (muitas vezes umas poucas páginas de um livro, para que a imagem desça aos detalhes das considerações e observações do autor, requerem mais que as duas horas normais de um filme) e meios de abstração favoráveis à reflexão e imaginação livre que a leitura proporciona. Um “Guerra e Paz”, de Tolstói, no cinema, por exemplo, conterá, na melhor das hipóteses, algum pequeno aspecto da obra.

O romance “Lolita”, de Vladimir Nabokov, recebeu duas versões cinematográficas. A primeira, da década de 60, de um dos maiores diretores de Hollywood, Stanley Kubrick, tendo dois grandes atores como James Mason e Peter Sellers, e a segunda, não tão brilhante assim, dirigida por Adrian Lyne, já da década de 90. Pois bem, nenhuma das duas versões chega próxima à complexidade do romance (por mais interessante, como linguagem cinematográfica, que seja a versão de Kubrick, muito sábia em fugir das cenas expressamente sexuais, tal como ocorre com o livro, não fazendo, assim, do público, um “voyeur” que se identifique à pedofilia do personagem...). O próprio Nabokov, que chegou a preparar roteiro para o Kubrick, decepcionou-se com o filme, achando que ficara muito aquém do que o cinema poderia fazer. Talvez. Mas, o que me pergunto é se o cinema algum dia poderá criar uma obra tão genial no que diz respeito a retrato de mentalidades e época, que, de tão perspicaz abra possibilidades a interpretações que talvez o próprio autor, Nabokov, não se tenha dado conta ao escrever. Sim, está aí, me parece, a face mais notável de uma obra-prima. Um romance parece cristalizar-se por ter o autor uma familiaridade com a Literatura de todos os tempos, que o faz refletir, através da Literatura mesma, sobre sua vivência, seus conhecimentos e seu tempo. A cultura literária faz do autor, que domina sua técnica, conhecendo sua arte, um psicólogo, um sociólogo e um analista de seu tempo e das condições humanas existenciais. E o subjetivismo da escrita, onde as imagens estão sempre por se fazer na cabeça de cada leitor ou do autor, abre caminho para os símbolos, possibilitando leituras decorrentes, marginais, superpostas ao texto. E isto ocorre, independentemente, por vezes, da própria intenção do autor, por simples aprendizado, na leitura que percorre a boa tradição da Literatura ocidental, em sua preocupação com a forma que apresente certa verossimilhança... No caso de Nabokov, ele escreveu um posfácio a sua Lolita onde afirma ter ojeriza por símbolos e alegorias, e justifica-se que isto se deve à sua “antiga rixa com o charlatanismo freudiano” e à “aversão às generalidades perpetradas pelos sociólogos e autores de mitos literários”. Chega até a chamar de sandice a “literatura de idéias”, dizendo merecerem pancadas um Balzac, um Gorki, um Mann. Mas, queira ele ou não, é neste bloco de escritores que se enquadra, não por querer, mas, me parece, simplesmente por dar continuidade ao que existe de positivo na arte literária, que, insisto, segue uma História cumulativa de exemplos e reflexões paralelas ao mundo real, mesmo que seja no “mundo literário” que o autor pense viver e se realizar. Quanto a chamar Freud de charlatão, isto por si autoriza a observar seu possível engano quanto aos símbolos...

Saga de uma paixão

“Lolita” é passada para o cinema como a história da paixão de um senhor de meia idade, Humbert Humbert, por uma ninfeta de 12 anos. Um caso de pedofilia em um típico intelectual europeu emigrado para os Estados Unidos, e aí não se sabendo ajustar senão se entregando totalmente a essa estranha paixão, que lhe obriga a construir todos os momentos, e a não ter outra preocupação mais na vida que a manutenção da garota amada a seu lado, como se isto o entretivesse na sua absoluta falta de conexão com seu país adotado. Este é o “argumento”, se assim se pode dizer, de “Lolita”. Entretanto, o romance não é só um “argumento”, e sim uma pluralidade de “argumentos” expressos ou subentendidos (o que o cinema já fará com dificuldade...).
Sim, é a história de uma paixão. Mas o objeto da paixão, primeiramente, não é a personagem específica de Lolita. É qualquer garota a que ele classifique como “ninfeta” (e aí já vai um conceito saído do livro). O que faz que o objeto primeiro da paixão seja a própria paixão (Humbert relembra, numa explicação psicológica, seu namoro adolescente, ainda na França, sua primeira “ninfeta”, que morre, fazendo-o querer ser-lhe eternamente fiel em todas as outras ninfetas que encontra...). Lolita, de repente, personaliza todas as qualidades que ele admira na “ninfeta”. E torna-se, assim, na sua obsessão, usando de todo seu esforço e inteligência para possuí-la, e depois guardá-la consigo, com exclusividade, na medida do possível. Casa-se com sua mãe só para morar com ela. Morrendo a mãe, engana-a, pretextando ter de protegê-la como seu novo pai, para consumar o que toma o aspecto não só de pedofilia como também de incesto. Estes são aspectos escabrosos que atraem a narrativa, e passam a constituir a feição da trama cinematográfica. Mas, o livro, ao discorrer sobre tais anomalias, busca o íntimo do personagem e nele disseca o significado de uma paixão, tão comum como qualquer outra paixão, a despeito de sua feição anômala.

Na verdade, toda paixão foge à normalidade de nossas relações habituais por ser em si um esforço em busca de um estado de exceção. Então, a pedofilia ou o, se assim se pode dizer, semi-incesto, servem mais como símbolos da própria anomalia do estado apaixonado. Este avança como uma máquina autodestruidora, desconhecendo, e até parecendo atrair-se pelos perigos extremados. O objeto da paixão, o ser amado, não concorre em nada para o seu desenvolvimento. Ao contrário, ele pode ser o oposto da idealização amorosa ou da felicidade que, aparentemente, tem-se em mira. Lolita, no caso, uma menina que não deseja comprometer-se com o senhor Humbert, um velho para ela, só querendo viver as experiências, brincadeiras e gostos (no caso bem norte-americanos) de sua idade, como os sorvetes caramelados, as histórias em quadrinhos, as fofocas de coleguinhas, namoricos, etc. Para poder possuí-la e tê-la sob sua tutela (nunca tornada oficial) para controlar todos os seus passos, o professor Humbert tem de esforçar-se 24 horas por dia, prestando atenção a cada segundo que passa, sem mais nenhuma outra ocupação possível. Mesmo a leitura, ele que é um intelectual, desaparece, servindo os livros apenas para disfarçar, pondo-os à frente do rosto, enquanto presta atenção de fato é nos movimentos de sua adolescente. Esta, apesar de sentir-se presa ao “velho” padrasto e amante, sem que tal anomalia a seduza, mas, sem ter como se libertar por questão econômica e até pelos limites que a época impunha à sua formação familiar, tenta escapar com pequenas mentiras, ou traições escondidas. A inteligência de Humbert tudo percebe, mas tenta segurar a situação enquanto pode para ter a sua desejada felicidade, que é a visão e o contato com o corpo da ninfeta... Ela debocha dele, chama-o de tarado e ofende-o sempre, tornando-se a relação bastante cínica. Ele se sujeita a tudo, humilhado em estado cada vez mais degradante. A paixão tudo justifica. É levado a uma decadência ultrajante similar à do velho professor moralista que um dia se desprende de seus preconceitos e se entrega ao amor de uma cantora de cabaré em “O Anjo Azul”, de Heinrich Mann.

A paixão, que tudo limita, acaba por limitar também o seu objeto, que da espécie genérica da ninfeta passa à ninfeta específica Lolita. Esta, de fato, passa a ser a amada, idolatrada, tão exclusiva que faz com que o pacato escritor, em sua obsessão angustiada, acabe, por ela, tornando-se assassino. É o declínio total a que o leva a saga. Mas, ao mesmo tempo, no assassinato, está a sua saída, a forma de libertar-se do compromisso cego da paixão, entregando-se à sociedade para ser julgado. É o castigo de seu crime, que, como em Dostoiévski, completa a saga para sua redenção, apesar de, ao contrário deste, estar no crime o próprio castigo, sendo o crime, no caso, a paixão que o antecede...

Como já me expressei acima, considero existir em toda boa Literatura, uma continuidade histórica das “descobertas” apontadas nos livros consagrados, como nas matérias científicas. Tal como na Química, na Física, na Matemática, os “achados” dos escritores se vão sucedendo, numa evolução como que em busca das verdades do que somos constituídos. Num romance como Lolita está implícito todo um passado de descrições e descobertas que vêm do Quixote de Cervantes, passa por Voltaire, Fieldings, Balzac, Stendhal, Flaubert, Tolstoi, Proust, etc, etc. As referências são diversas de qualquer outra linguagem. O cinema não pode transpor isto, por conseguinte, tendo ele suas próprias referências, evidentemente, e que, estando a Literatura implícita nas relações sociais, encontram-se por citações, mas não pela forma, que continua sendo sempre especial em cada linguagem. Há encadeamentos curiosos em “Lolita”, como por exemplo o nome da mãe da ninfeta: Charlotte. Qualquer pessoa de boa leitura lembra logo da amada de Werther do romance de Goethe. O personagem goethiano se mata por não poder realizar seu amor por Charlotte, uma pequena burguesa boa, compreensiva, amorosa, que, inclusive, gosta dele, e que só não pode atender à sua paixão por já se ter comprometido com um outro. A mãe de Lolita, de certa forma, também é uma pequena burguesa sentimental e boa mulher (que não sabe, entretanto, como tratar a sensualidade precoce da filha...). Por estas qualidades ela é que se declara a Humbert, e força com que ele se case com ela. A situação exatamente contrária a de Werther. Aqui é Humbert quem tem interesse por outra, por sua filha, e Charlotte quem, num desespero total, após descobrir a paixão pecaminosa do marido, deixa-se, praticamente atropelar, por um carro na rua, e morre. A situação oposta de um e outro caso parece refletir a mudança de uma Europa romântica a um país novo e rico, de gosto caracterizado no romance como infantilizado. Na nova situação, Werther/Humbert passa a odiar a Charlotte que atingiu a meia idade, se preocupa com a manutenção de um status simples de meias satisfações padronizadas por uma cultura que ele considera infantil, em seus cosméticos e programas de piquenique aos domingos... Ele anseia por voltar à sua condição de Werther apaixonado, num mundo em nada estabilizado por padrões banais. A relação entre as duas histórias daria para um paralelismo mais extenso, que não cabe aqui fazer, mas é curioso notar que, de certa maneira, o desenrolar da História de Literatura leva a variantes comportamentais, que o inocente e sentimentalíssimo Werther, de certa maneira, quase dois séculos depois será o pedófilo, frio, calculista Humbert. Tudo em nome do mesmo princípio: de uma saga conduzida pela paixão!

Chaga de um vício (possessão?)

As palavras não se definem tão claramente quanto as imagens. Uma descrição realista, como a do romance de Nabokov em pauta, pode oferecer leituras em outros planos que aquele em que vem expresso. Uma paixão, assim, pode não ser apenas uma paixão. Os símbolos se formam, e eles são, por vezes, inconscientes, resultados também da vivência do autor, tanto em sua relação com o mundo quanto com os livros. Como já referido, penso que haja um percurso continuado na História da Literatura, que conduz o fio dos bons romances. E o bom autor é o que costura os fios existentes, acrescentando-lhes suas cores próprias.

A obsessão de Humbert pela ninfeta, que o faz voltar-se à busca de seu prazer acima de tudo, tornando-se dissimulado, calculando cada passo que possa disfarçar seu objetivo de desfrutá-lo sem que os outros percebam, relegando a segundo plano todos os outros valores existenciais, mesmo aqueles que seu intelectualismo poderia sublimar, e várias outras características similares são típicas de um alcoólatra, ou de qualquer outra espécie de toxicômano. Cada vez mais o vício vai tomando conta do caráter do personagem, objetivando, em cada dia, apenas o controle de sua ninfeta, para tê-la consigo, usufruí-la, amá-la. E quanto maior a sua preocupação neste sentido, o prazer lhe vai escapando mais das mãos, tornando-se seu escravo a ponto de não mais controlar situação alguma, sendo, na verdade, controlado pelo próprio vício...

Humbert, como todo viciado, despreza todo mundo. Não há nenhuma descrição simpática a personagem algum feita por ele. As pessoas parecem existir para atrapalhar a sua fruição da única coisa que parece-lhe condizer com a dignidade íntima, que é seu vício. Não considera ninguém nem como igual, e muito menos como superior a ele. Somente a sua consciência deve dominar o mundo. Não existe Deus, evidentemente. E mesmo as pessoas que gostam dele, como ocorre com a pobre da Charlotte, ele as despreza, e faz uso delas para objetivar seus fins que se resumem a um só: sua satisfação própria no vício. Esta é também uma saga, ou melhor, uma chaga a trilhar o caminho da autodestruição. Com isto também um símbolo, e este maior, se faz entrever em seu percurso. A idéia de que a existência humana avança sempre em sentido contrário à conservação de tudo que é natural. Paixão ou vício são formas de atuação destrutivas inevitáveis no âmago das civilizações. Elas constituem seus objetivos mesmo de existência, pela transformação e pela necessidade de afirmação competitiva. E, assim, o caminho natural de todo desenvolvimento é o da destruição. Isto pelo egoísmo de todos, por suas necessidades de satisfação em detrimento da escassez dos bens e dos afetos, quando não se tem algum Ser Superior a quem se possa admitir neste mundo (e as associações de anônimos insistem ser primordial a crença num tal Ser, para a recuperação do drogado, pois este se considera superior a tudo e a todos, assim podendo usar ilimitadamente de sua droga, não devendo satisfação a ninguém, uma vez que todos são seus inferiores...). Na ausência de Deus, elege-se a paixão ou o vício, e estes caminham para a destruição. Tal visão traz muito de dostoievskiano, que afirmava que se Deus não existe, tudo é possível, o que é condizente com a formação literária de Nabokov.
Relações também se percebem com um plano não realista, apesar de todo o realismo da narrativa. O personagem vai perdendo toda a sua independência, à medida que a paixão (ou vício) avança. É como se incorporasse um espírito diferente do seu. Lolita, ou a história de uma paixão, ou a história do vício, é também a história de uma possessão, onde os demônios não são descritos literalmente, mas que nem por isto não contenha a história algo de fantasmagórico. E neste sentido demoníaco, também, a trilha da destruição pela ausência da dostoievskiana redenção, está, evidentemente, bem presente.

Namoro aos Estados Unidos da América do Norte

O romance tem como pano de fundo as cidades, estradas, costumes e habitantes de várias partes do interior dos Estados Unidos. Não chega nunca a uma cidade grande, como que a demonstrar os verdadeiros valores do país em sua imensidão interiorana. A paixão/vício do personagem central se desenvolve, como se estivesse quase sempre em fuga, por moteizinhos de estrada, com o mau gosto que ele acentua de suas arquiteturas e letreiros, às vezes um hotel mais pretensioso, onde ele observa que é uma reles e deteriorada imitação do padrão europeu, pelos bares e postos de gasolina de estrada, com as comidas que se associam ao gosto infantil de Lolita. Há um momento em que param numa cidadezinha, para Lolita prosseguir seus estudos, e há os contatos com professoras e alunas, onde a preocupação pelo desenvolvimento do sexo sem culpa e o esporte predominam sobre a formação humanística, o que choca o professor/escritor Humbert Humbert, e as reuniões de comadre, um certo solidarismo pelo comportamento individualista e prepotente, numa autoestima orgulhosa que se julga revolucionária, dona de um novo mundo, que de fato cresce ao redor, por terras e estradas sem fim, afastando-se dos velhos padrões europeus. Em resumo, Humbert encara os Estados Unidos da mesma forma que a sua adolescente Lolita. Um lugar jovem, que, saído da mesma civilização de onde ele veio, a distorce, dela divergindo, como ele, aliás (que por isto mesmo emigrou), mas dirigindo-se a concepções que ele repele... Curiosamente, Nabokov, no posfácio já mencionado, refere-se a um “inteligente” editor, que recusara a publicar o romance, ter observado que “Lolita” representa “a velha Europa pervertendo a jovem América”, enquanto outro editor que classifica como “virador de página”, que também descartara a publicação, viu no livro “a jovem América pervertendo a velha Europa”... Um como outro caso parecem observar alguma simbologia evidente que emana do livro, queira seu autor ou não...

Quando casado com Charlotte, esta programa umas férias na Europa. Humbert se opõe. Não quer mais rever a Europa, que lhe ficou como o lugar onde esteve internado num sanatório de doentes mentais. Até que ponto este fato não é também o símbolo de uma doentia Europa que acabara de sair da 2a guerra mundial, sendo sua peregrinação americana uma tentativa de cura, mudança dele como encarnação da mentalidade européia? Mas, não conseguindo encontrar sua “redenção dostoievskiana”, algo que o leve para um comportamento integrado com esta nova sociedade que não aceita, seu vício se acentua, agravando-se seu estado patológico com a paixão anômala. Sua tentativa de sobrevida é de fechar-se em si mesmo, não compartilhando nada com a sociedade do novo país, e encontrando um meio de prender a si seu vício, como se fosse possível evitar o mundo. Entretanto, este mundo que o cerca é o mesmo que a pessoa que ele prende. Lolita é os Estados Unidos, em seus gostos, comportamentos, juventude um tanto ingênua, e ao mesmo tempo esperteza que o surpreende e irrita. Assim, quando namora Lolita, simbolicamente, Humbert namora os Estados Unidos. É esta a sua tragédia, pela impossibilidade de conciliação entre os valores de seu tempo/lugar de origem com a juventude e tolices, sob seus conceitos, de Lolita/Estados Unidos. A sua tragédia, assim, é elevada a uma representação não de si apenas, mas de seu tempo de pós-guerra, quando a civilização americana se vai impondo, como vencedora, sobre a devastada e exausta Europa, cuja civilização entrou em crise. A saída deste novo impacto de civilizações é vista com temor, pois que acentua o caráter patológico do personagem, levando-o mesmo ao crime.

O livro de Nabokov, assim, contém, por outros meios, a mesma visão pessimista para os novos tempos, que já fora anunciada no “Admirável mundo novo” de Aldous Huxley, ou em “1984” de George Orwell. Como Thomas Mann pusera os países da Europa num sanatório de tuberculosos, em “A montanha mágica”, para refletir sobre a crise que o continente passava no início do século XX, e depois descreveu a ascensão nazista como um paralelo da carreira de um artista que desumanizava a Música, por meio de seu frio sistema do dodecafonismo, em “Doutor Fausto”, Nabokov descreve o namoro entre uma velha e já meio alquebrada civilização e outra ascendente, ainda não bem formada, encontrando nisto um perigoso caso de pedofilia, cujas conseqüências parecem levar a um fim trágico.

Uma última observação que me parece ainda pertinente como símbolo decorrente de “Lolita”, e que volta ao paralelo entre Literatura e Cinema. O conflito de civilizações do livro está estreitamente ligado ao conflito de gerações, mentalidades, do tempo. Nosso tempo, como os EEUU, cujo desenvolvimento se deu mais velozmente a partir do início do século XX, tem no Cinema um novo civilizador, um agente cultural de importância transformadora. E a civilização norte-americana reflete tal importância de modo ainda mais categórico que o resto do mundo, sendo o cinema nos EEUU uma indústria a espalhar seu way of life da forma mais abrangente. Lolita, no romance, é uma “aborrecente”, destas meninas chatas que ainda não são moças, e que se encontram em plena fase de mudança e impertinências para se afirmar no meio em que vive. No filme, para o público compreender o olhar apaixonado de Humbert, é uma graça de sensualidade que desperta paixões por sua imagem (sobretudo na segunda versão). O cinema, assim, pela imagem, inverte o papel e os valores das histórias narradas em livro. O público todo passa a ser meio pedófilo como Humbert, apreciando as coxas da menininha, que, como atriz, por sua vez, adquire fama pelas apresentações de suas coxas, corajosamente exibidas nas telas... O curioso é que as legislações incriminam a pedofilia, mas a sua prática parece incentivada com filmes assim – e até que ponto ela não se expandiu exatamente por este culto à imagem trazido pelo cinema? O mesmo, aliás, se pode dizer da vulgar e perversa cantora de cabaré do citado “Anjo Azul”. Ao ser levada para a tela, Marlene Dietrich tornou-se famosa pelas belas pernas, como se o professor não passasse de um boboca e o “bas-fond” da cantora é que representa um mundo de sensualidade avançada, como se isto fosse a modernidade desejável com uma agitação já sem tempo para moralismos e humanismos... Há uma grande diferença entre a leitura da história de uma prostituta, por exemplo, e a encenação onde a atriz tem todos os relacionamentos descritos, de forma expressa, e não deixa de ser atriz, apesar de fazer o que caracterizava a prostituta. Na verdade, a concepção moral mudou no mundo, com o advento da imagem cinematográfica. Na transformação de valores, Humbert se perde, tentando esconder, sem deixar, no entanto, de praticar seu vício, que ele mesmo já não sabe se por estado patológico ou se por liberação saudável dos novos tempos, nova civilização, novo país a comandar os costumes... E quantas vezes Humbert se mostra moralista, tentando preservar sua Lolita de conceitos e práticas comuns na sociedade americana, que ele deplora, encarando até com maus olhos a preocupação excessiva com a liberdade sexual pregada por professoras!... No entanto, ele violenta da forma mais abusiva sua pequena enteada! Contradição ou confusão ante a transformação dos valores, quando já não sabe como julgar ou agir? Valores norte-americanos somente, que em si divergem de tradições européias? Ou formados pela aventura cinematográfica invasora dos costumes de toda parte?