| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 91 - outubro de 2003 |
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ALENCAR, EUCLIDES E GRACILIANO – O ROMANCE ENTRANHADO
NA TERRA (parte 2)
Antes de abordarmos
Euclides da Cunha em Os Sertões – inserido no período
insatisfatoriamente denominado sincretismo ou pré-modernismo -,
faz-se necessário justificar a ausência do realismo-naturalismo
de Franklin Távora e Inglês de Sousa. Ousamos discordar de mestre Antonio Candido, assinalando que a obra de Franklin Távora, já em franca transição de período estético, o que por si já deslocaria o sentido da obra ficcional, encontra-se eivada de determinismos extremamente reducionistas. Ademais, ao prefaciar O cabeleira (1876), Távora lança a teoria da “literatura do norte”, de caráter um tanto desagregador e preconceituoso ao considerar o regionalismo do Sul espúrio, e escrevendo, a rigor, um romance histórico, feito repetido em O Matuto (1878) e Lourenço (1881), retratando cenas da Guerra dos Mascates, tema, aliás, já abordado por Alencar em título homônimo (1873-4). Inglês de Sousa, de obra menos extensa e, para alguns, o verdadeiro precursor do Naturalismo com O cacaulista (1876), e O coronel sangrado (1877), aprofunda o naturalismo “ a Taine” em sua produção de temática amazônica. Abusa do tripé fatalista raça-meio-momento em O missionário (1891), tipificando as teorias psicofisiológicas que talvez tenham encontrado melhor mão em Adolfo Caminha ( A normalista, 1893; O Bom-Crioulo, 1895), Domingos Olímpio ( Luzia-Homem, 1903), ou mesmo na rara figura de Júlio Ribeiro, autor de A carne (1888), pérola do “mauvais-gôut”, obra dedicada ao “príncipe do Naturismo, Émile Zola” (sic) e proibida/maldita até os anos 50, no século XX. Euclides da Cunha, embora distanciado cerca de uma década da efervescência naturalista e, portanto, literariamente pré-modernista, encontra-se em pleno positivismo da República Velha. Neste sentido, o vocabulário técnico do engenheiro militar, ora gongórico, ora claro, aponta, pelo viés do comtismo, a degradação humana do sertão, a ruína de uma raça insulada pela seca. A proposição-denúncia de Os sertões está nas “Notas Preliminares”, com uma epígrafe, naturalmente, de Hippolyte Taine : ...“Il s’irrite
contre les demi-verités qui sont des demi-faussetés, contre
les auteurs qui n’altèrent ni une date, ni une généalogie,
mais dénaturent les sentiments et les moeurs, qui gardent le dessin
des événements et en changent la couleur, qui copient les
faits et défigurent l’âme; il veut sentir en barbare,
parmi les barbares, et parmi les anciens, en ancien.”1 De espírito irrequieto, cadete expulso da Escola Militar – em cerimônia ao Ministro da Guerra do Império Benjamim Constant, atirou-lhe o sabre aos pés -, o liberalismo de Euclides não compactuava integralmente com o receituário comtista, ainda que este tenha desempenhado um papel decisivo não somente entre os intelectuais, tendo também contribuído no círculo que engendrou a derrubada da Monarquia. “Incapazes por si de tamanho feito”, sustenta Luiz da Costa Lima, “os evolucionistas, nisso representados pelos positivistas de farda, ajudaram que a questão militar aumentasse de proporções, a qual, aliada à questão religiosa e à maneira como se processara a abolição, apresentava, conforme Oliveira Vianna, a causa da derrota do trono”2 . Neste contexto, a República surgia como a forma mais avançada de governo para o evolucionismo, e a fidelidade a ela era um princípio para Euclides, enviado ao front do interior baiano para cobrir a sufocação dos rebeldes, propagandeados pela imprensa do eixo Rio-São Paulo como combatentes em favor da monarquia. Já na Bahia, como correspondente do diário “O Estado de São Paulo”, Euclides ainda crê nessa possibilidade: “em breve pisaremos o solo onde a República vai dar com segurança o último embate aos que a perturbam”3 . Em outro momento, o autor justifica a guerra não como massacre entre iguais, mas como uma necessidade “positiva” e “natural”: “Vinha serôdio o falar em soberania apisoada pelos turbulentos impunes. Ademais ninguém se iludia ante a situação sertaneja. Acima do desequilibrado que a dirigia estava toda uma sociedade de retardatários. O ambiente moral dos sertões favorecia o contágio e o alastramento da neurose. A desordem, local ainda, podia ser núcleo de uma conflagração em todo o interior do Norte. De sorte que a intervenção federal exprimia o significado superior dos próprios princípios federativos: era a colaboração dos Estados numa questão que interessava não já à Bahia, mas ao país inteiro.”4 (grifos nossos) A solução da guerra como “limpeza ou higiene racial” era um dos princípios deterministas, os quais, de certa forma, Euclides comungaria até topar com a realidade do entorno do Arraial. É interessante que apontemos um cruzamento literário, normalmente despercebido. Em 1891, onze anos antes da publicação de Os sertões, e sob forte febre naturalista, que repugnava, Machado de Assis lança Quincas Borba. A trama engendra a vida de Rubião, um simplório professor de Barbacena, que recebe, por herança, uma fortuna de seu amigo Quincas Borba, filósofo excêntrico, com a condição de cuidar de seu cachorro, também chamado Quincas Borba. Provinciano, rico e ingênuo, Rubião é envolvido e logrado pelo casal de oportunistas Sofia e Cristiano Palha, que passa a administrar-lhe a fortuna, dilapidando-a, valendo-se da boa vontade do professor. Criticando ironicamente a engrenagem social da época, a reificação das pessoas e as lutas sem ética e moral pela ascensão econômica e poder, Machado vale-se de uma crítica ainda maior, ao “atestar a sua tese” com a criação do Humanitismo, teoria de Quincas Borba, que, em resumo, justificava que os fracos e tolos, como Rubião, seriam manipulados e aniquilados por mais fortes (ou mais espertos), que no final, triunfariam, vivos e enriquecidos. Tal “teoria” cunhou a célebre frase “ao vencedor, as batatas”, que sem esclarecimento prévio, não parece fazer qualquer sentido. Segue um excerto da “ilustração” da “teoria” de Borba: - Não há
morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas
formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente,
não há morte, há vida, porque a supressão
de uma é princípio universal e comum. Daí o caráter
conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas
e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das
tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir
à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas,
se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam
a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz
nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação.
Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria
da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas
e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a
guerra não fosse isso, tais demonstrações não
chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora
e ama o que lhe aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional
de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente
a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor,
as batatas. É interessante e esclarecedora, nesse contexto, naturalmente, a inserção da “teoria” de Quincas Borba, Humanitismo e não Humanismo, para agravar, incisivamente, o sufixo pejorativo. Anti-naturalista por convicção e desafeto pessoal de Euclides, Machado antecipa, através da ironia ácida, o quadro de uma década seguinte. Retornemos a Os sertões. Euclides, no entanto, percebe pouco a pouco o grave engano que ressoava no Sul maravilha. Ao dar-se conta da realidade, isto é, que não havia sublevação anti-republicana, Euclides busca uma natural explicação haeckeliana, entendendo que havia no atavismo de Conselheiro e seus seguidores um movimento retrógrado ao curso da humanidade; o insulamento daquela raça forte, mas combalida, resultaria numa estagnação sócio-biológica. Nesta condição, dizimá-los seria um crime, que foi cometido e denunciado. Mesmo assim, pairaria sobre Euclides um enigma a decifrar: como uma população etnicamente “poluída” resistia a um confronto com tropas militares e armamento/munição modernos? Para ele, a resposta armava-se no próprio insulamento, que teria detido o “declive da inevitável decadência”6 . Uma vez desarmada a hipótese política da guerra, Euclides funda, com Os sertões, a nossa consciência crítica, apoiada, entretanto, num arcabouço cientificista. A própria estrutura da obra, em três partes, compõe uma espécie de silogismo determinista, a saber: “A Terra” – análise do condicionamento mesológico, com forte contribuição do determinismo geográfico de Ratzel; “O Homem” – análise dos aspectos sociológicos dos sertanejos: costumes, crenças, superstições e misticismo, sendo Conselheiro um produto desses fatores, observados sob um prisma determinista racial de Gobineau, e “A Luta” – o conflito» resultante entre o regressismo do interior insulado versus o progressismo dos litorâneos. Seu desfecho, epílogo da mais sangrenta tragédia de nossas letras, é um primor de concisão, valendo a passagem integral: "Fechemos
este livro. Euclides da Cunha, através de eixos paradoxais – não compactuava com o autoritarismo dos comtistas, mas cria no poder redentor da ciência; valia-se, vide a própria estrutura da obra, de elementos deterministas, à maneira dos naturalistas, embora se mostrasse um narrador apaixonado, arrebatado, longe da frieza daqueles - expõe a revolta da nacionalidade, coloca o dedo na chaga das disparidades sociais ao concluir que o crime não era sufocar os rebeldes, mas aqueles rebeldes do sertão – esse é um dado, para nós, fundamental – escrevendo, como disse o Barão do Rio Branco, pela primeira vez, “com o cipó”. NOTAS 1 CANDIDO,A. Formação da Literatura Brasileira,
Itatiaia, 4ª ed., pág. 299 . |
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