Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 90 - setembro de 2003

 

Resenha:
TESTAMENTO DE PASÁRGADA

Fernando Py
poeta e tradutor, membro do conselho editorial de Poiésis

Neste 2003, a modo de comemoração dos trinta e cinco anos da morte do poeta Manuel Bandeira (1886-1968), foi lançada a segunda edição, revista, da antologia poética Testamento de Pasárgada (Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 2003, 352p.; organização, prefácio e estudos críticos de Ivan Junqueira). Creio ser ponto pacífico o fato de Manuel Bandeira ter o seu lugar entre os mais importantes poetas do Modernismo brasileiro e talvez de toda a nossa literatura. É sobejamente conhecido o papel que desempenhou na renovação da nossa lírica e — nunca é demais insistir — na nossa teoria poética, seja através do ensino catedrático no Colégio Pedro II, seja principalmente no memorialismo das páginas do Itinerário de Pasárgada (1954), livro que, no dizer de Autran Dourado, é “não só uma lição do fazer poético como uma lição de vida dedicada à poesia.” (1). O perfil literário-crítico de Bandeira, conforme acentua Ivan Junqueira no prefácio, apontaria, segundo certa crítica, para um poeta dito “menor”, classificação discutível sob muitos aspectos e à qual o próprio Bandeira parece aderir no poema ‘Testamento’ (2).

Mas é bom nunca levar Bandeira muito ao pé da letra. Poetas ditos menores, como ele, Mário Quintana, Joaquim Cardozo ou Dante Milano, não raro escrevem textos poéticos de altíssimo nível ou que revelam insuspeitadas profundezas e conexões das mais inesperadas. Veja-se, a título de ilustração, o que de Quintana diz o crítico e ensaísta Fausto Cunha: “Um poeta quase ‘passadista’ repentinamente inscreve seus versos ao lado da belíssima canção dos astronautas russos (...) e dos poemas neogóticos de Heinlein e Bradbury: ‘Vamos! vamos lançar no espaço — alto, cada vez mais alto! A rede das estrelas...’ (3). Com sua apurada sensibilidade para a poesia, Fausto Cunha soube ver bem nas entrelinhas dos poetas “menores” toda uma gama variada de intenções e sutilezas, nuanças delicadas que fazem a delícia dos amadores da verdadeira poesia.

Bandeira — para não perdermos o fio da meada — é autor de uma poesia toda assim: aparentemente simples, desafetada, porém cheia de complexidades de ritmo, de subentendidos enganadores, capaz de fazer aflorar o sentimento poético das coisas mais humildes e precárias, como precária deve ter sido sempre a sua saúde, sua vida, a “vida inteira que podia ter sido e que não foi.”(4). Tal fato confere especial encanto à leitura de seus versos, pois ele conseguiu plenamente transmitir “a delícia de poder sentir as coisas mais simples.”(5)

Mais que uma coletânea da poesia de Bandeira, o presente volume é um guia excelente. Aqui se encontram reunidos quase todos os poemas importantes de Bandeira (a escolha de Ivan, sobre ser pessoal, necessariamente reflete um gosto ou uma tendência: outros nem sempre elegeriam os mesmos poemas), agrupados segundo sua temática em: 1) Itinerário de Pasárgada; 2) O Menino Doente; 3) Influências e Confluências; 4) Ritmo Dissoluto; 5) Libertinagem e Verso Livre; 6) Bandeira e o Modernismo; 7) Lirismo Triste; 8) Poeta Menor; 9) Consciência Poética; 10) A Música da Poesia; 11) Humor e Sarcasmo; 12) O Amor e as Mulheres; 13) Silêncio e Solidão da Noite; 14) O Beco; 15) A Face Oculta; 16) A Vida que Poderia Ter Sido; 17) Presença e Aceitação da Morte; 18) Mas o Menino Ainda Existe; 19) ‘O Poeta se diverte’ — e encerrados com uma Bibliografia de e sobre o poeta.

Cada uma destas seções se inicia com um texto onde Ivan Junqueira faz um pequeno histórico do tema em causa na vida e na obra de Bandeira, explicando e explicitando os motivos das inclusões dos poemas, bem como os aspectos biográficos do poeta que se referem ao assunto. É claro que os poemas escolhidos para determinada seção poderiam — o próprio Junqueira o reconhece — pertencer a outras duas ou três. Mesmo a individuação das seções não seguiu um critério rigoroso, único, isto é, não obedeceu a uma metodologia que nivelasse rasamente o conjunto de maneira a parecer que somente estas divisões, e não outras, seriam possíveis. Não; esta é uma antologia aberta (na medida em que se poderiam acrescentar ou subtrair poemas, ou trocá-los, sem que o volume perdesse a sua organicidade), de cunho claramente didático, mas de uma didática superior, que em boa parte decorre das divisões imaginadas por Ivan Junqueira. Este, assim, contribui decisivamente — junto com o esclarecedor prefácio e as notas críticas lúcidas e

pertinentes — para uma nova caracterização da poesia bandeiriana, num redimensionamento e reavaliação certamente renovadores.

______
Notas

1. Uma poética do romance (São Paulo: Editora Perspectiva / INL-MEC, 1973), p. 15.

2. Manuel Bandeira: Estrela da vida inteira (Rio de Janeiro: José Olympio, 1966), p. 173. O poema faz parte da coletânea Lira dos cinquent’anos e traz a data de 25 de janeiro de 1943.

3. A luta literária (Rio de Janeiro: Lidador, 1964), p. 158. O poema a que o crítico se refere intitula-se ‘Os caminhos estão cheios de tentações’ e faz parte do livro O aprendiz de feiticeiro (1950).

4. Poema ‘Pneumotórax’, in: Libertinagem (1930), p. 19; Estrela da vida inteira, ed. cit., p. 107.

5. Poema ‘Belo belo’, in: Estrela da vida inteira, ed. cit., p. 172.