| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 90 - setembro de 2003 |
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Língua
e Cultura: Hamilton
Cesar de Castro Carvalho Por vezes, de forma recorrente, volta à baila em nosso país a questão do crescente processo de desnacionalização e descaracterização da língua portuguesa. Este debate reacendeu-se recentemente com o polêmico projeto de lei no 1676/99, de autoria do deputado Aldo Rebelo, do PC do B de São Paulo, pelo qual se pretende regulamentar o melhor uso da língua portuguesa com vistas à sua preservação diante da perigosa e ameaçadora tendência do vernáculo a se tornar um mero subdialeto do idioma inglês. Seus críticos armam-se do mesmo arsenal de sempre, carente de criatividade e acusando maldosamente os defensores da língua de serem puristas do idioma, de compactuar com a xenofobia e o antiamericanismo, enveredando outros para a chacota e o deboche, alguns até afirmando que, se levado e aplicado a extremos, o projeto em debate dentro em pouco levaria os brasileiros a falar o ... latim dos velhos romanos. O problema, assaz complexo porque esbarra na questão de que a língua é instrumento vivo e, como tal, não pode ser regulamentada por lei ou decreto é, no entanto, uma meia-verdade. Se, por um lado, quem faz a língua é o seu bom ou mal uso por parte de seus falantes em geral, por outro lado a burocratização e a regulamentação do uso do idioma não pode, em hipótese alguma, servir como escusa ou leniência passiva para que se permita a descaraterização do mesmo. Antes de mais nada, é preciso deixar claro que influência estrangeira no idioma não se confunde, de forma alguma, com a sua descaracterização pela simples substituição de vocábulos do vernáculo por seus equivalentes alienígenas escolhidos arbitrariamente ou ao sabor de modismos ditados pela técnica, pela ciência ou por clichês estereotipados usados por personalidades famosas. Tomemos, como exemplo de influência de idioma estrangeiro, um vocábulo que dá nome à maior de todas as paixões do povo brasileiro: o futebol. É lógico que, ao inventarem o famoso football, os ingleses não poderiam dar ao nobre esporte bretão um nome tirado do tailandês, do malaio ou do espanhol, que obviamente não são línguas da Inglaterra. Mas o vocábulo, designativo de um novo desporto inventado pelos ingleses, encontrou sua forma aportuguesada na grafia “futebol”, sendo incorporada pacificamente ao nosso léxico quotidiano. Hoje, podemos considerar que futebol é vocábulo da língua portuguesa, embora de origem inglesa. O mesmo dizemos do italiano pizza, dos galicismos ducha e madame ou até do buquê e abajur, formas aportuguesadas do francês bouquet e abat-jour , embora nada obste a que se use, alternativamente, os equivalentes vernaculares ramalhete e quebra-luz. Alguns vocábulos até se fixaram melhor na grafia estrangeira do que na nossa prosódia e ortografia, como senhorita, do espanhol señorita, que soa melhor e até mesmo menos senhorial e arcaico do que o nosso senhorinha, evocativo do Brasil dos senhores de engenho do século XIX. Caso idêntico ocorre quando, relativamente a uma partida esportiva, usamos o adjetivo amistoso, equivalente hispânico do nosso adjetivo amigável. Insurjo-me, entretanto, contra o crescente uso de estrangeirismos não como um meio alternativo de expressão lingüística mas, ao contrário, pelo esnobe e pedante uso de vocábulos estrangeiros a mero título de status, vocábulos estes que têm equivalentes perfeitos na língua portuguesa. Elencá-los não seria de todo difícil: hoje diz-se van em vez de furgão ou camionete, stress em vez de cansaço ou fadiga, home delivery em vez de entrega em domicílio, expert em vez de entendido ou especialista, break em vez de pausa ou intervalo e tantos outros. A informática também dita suas normas e impõe seus padrões e modismos. Por que dizer link em lugar de elo ou conexão, site em lugar de portal, page em lugar de página ou mouse em lugar de ratinho ou camundongo? O que têm nossos vocábulos vernaculares de antiestético ou de inconveniente? Há algum tempo vi e ouvi na TV o ex-ministro Pedro Parente (parente de quem?) dizer a um repórter que estava muito ocupado com gerir a questão do “apagão”, exprimindo-se da maneira típica dos que recorrem a trechos do discurso na língua inglesa apenas por esnobismo vazio: “- Estou trabalhando full time”. Ridículo, não? Ou deveria ter dito em bom português “Estou trabalhando em tempo integral” ou então assumido logo de vez a língua dos nossos colonizadores dizendo “I am working full time”. Seria menos hipócrita! Fato curioso é que a hipocrisia tem de ser mantida a todo custo: usa-se mouse mas ninguém, em sã consciência, tem coragem de admitir que, em um dicionário de português, o vocábulo camundongo deva ser substituído pelo inglês mouse ou furgão por van. Porém, a bem da verdade e do repúdio à hipocrisia, seria melhor radicalizar: por que, em vez de passivamente nos permitirmos a lenta agonia do vernáculo face à tirania da língua inglesa, não reformar a Constituição e adotar o inglês como língua oficial do Brasil? Ao menos seria mais prático, aceleraria o processo de desnacionalização do vernáculo e da conseqüente americanização da cultura nacional e, mais importante ainda, assumiríamos de vez e sem hipocrisias desnecessárias, nosso status de colônia cultural e de fundo de quintal do Império Americano. Inaceitável é continuar a fingir que somos culturalmente soberanos mesmo face ao avanço da cultura americana que impera no país, com sua agressividade e seu culto à violência generalizada. O que não podemos é continuar a fingir que conseguimos edificar uma autêntica civilização latina nos trópicos quando, de fato, já estamos em vias de nos render ao domínio da esfera cultural anglo-saxônica. Xenofobia?, perguntarão meus críticos. Jamais! Antiamericanismo? Também não: sou maduro e equilibrado o bastante para não confundir Estados Unidos como nação e Império Americano que, como patologia do poder, impõe sua cultura goela abaixo de povos e nações inteiros, sem a menor consideração por seu passado histórico, por seus valores e pelas idiossincrasias de suas respectivas identidades culturais. Nada tenho em particular contra o inglês enquanto idioma oficial e veículo cultural dos povos de colonização inglesa. O problema é a invasão de outras culturas e a sua submissão pela cultura massificada norte-americana, que impõe a outrem seu modus vivendi, seus valores, suas tradições, seu ethos político e seu idioma sem o menor respeito e consideração pelas características culturais das nações dominadas. Contrariamente ao que alegam os críticos deste tão polêmico projeto, este trata com generosidade as exceções, abrindo à posterior regulamentação a possibilidade de assimilar novas situações excepcionais, exatamente como, por exemplo, o faz em Amsterdam a Academia de Esperanto em relação à oficialização e ao uso de neologismos recém admitidos a este idioma de pretensão universal. Além do mais, não se fez no projeto a menor concessão à xenofobia e ao preconceito, apenas preservando a língua portuguesa de um perigoso processo que, a médio prazo, poderia redundar na integral descaracterização desta e em sua lenta degradação em um dialeto misto quase anglo-lusitano, com graves e irreversíveis danos à língua nacional. Os que se opõem ao projeto em discussão são os que, em nome de argumentos facciosos e até pueris, defendem esta submissão cultural e neocolonialista à língua inglesa, aqui muito mais entendida no sentido político-cultural de língua dos EUA do que no sentido simplesmente idiomático de língua da Inglaterra. Diversamente dos que encaram esta questão como meramente lingüística e cultural, a preocupante desnacionalização do português face à tirania da língua inglesa ultrapassa, e em muito, os mais estreitos confins da questão idiomática e cultural, inserindo-se no mais amplo e maior contexto de uma globalização econômica que caminha para a transformação de todas as nações em meras colônias e vassalos dos EUA, epicentro geográfico e sede velho e megalômano sonho americano: o estabelecimento de um vastíssimo império político, econômico, militar e cultural em escala mundial. Para nós brasileiros e para as demais nações submetidas e sujeitas à perda de suas características nacionais, só restam duas alternativas: ou lutamos para preservar nossas culturas nacionais ou então teremos de nos conformar à condição de colônia cultural e econômica deste império que se delineia. Ironicamente parodiando Shakespeare, o bardo-maior da língua inglesa, teremos de resolver o grande dilema de nossa identidade cultural indagando à Hamlet: “Sermos ou não sermos nós mesmos – eis a questão”. |
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