Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 90 - setembro de 2003

 


O espírito volúvel na abordagem da nossa cultura

Gerson Valle

membro do conselho editorial de Poiésis, autor da novela "Os souvenirs da prostituta", com lançamento previsto para o segundo semestre de 2003.

“Banquete de tiranos” é um dos conhecidos poemas de José Martí (1853-1895), poeta cubano que nunca deixou de ser admirado por toda latinoamericanidad, e que, em Cuba, é tido como um dos patrimônios culturais, sendo grandemente comemorados, em 2003, os 150 anos de seu nascimento. Martí foi, como o nosso Castro Alves, um poeta engajado nas transformações políticas e sociais de sua época. Talvez por isto, ou por uma leve analogia da construção do verso, cada vez que leio o citado poema, e me deparo com:

Hay una raza vil de hombres tenaces
De si proprios inflados, y hechos todos

me vêm à cabeça os dois seguintes versos d’ “O Navio Negreiro” de nosso poeta:

Existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e covardia!...

À diferença de Martí, no entanto, Castro Alves não é, no Brasil, mais tão festejado quanto o foi por muito tempo após sua precoce morte. Gerações inteiras conheciam de cor, por exemplo, o mencionado poema, que era sempre recitado com verdadeira emoção. Hoje, a maior parte considera os exageros e rompantes do chamado “condoreirismo” como algo de mau gosto, um tanto kitsch, mesmo quando se dizem ainda geniais os extremismos cinematográficos do também baiano (e, de certa forma, “condoreiro”, se pode-se usar tal expressão para o cinema) Gláuber Rocha. A diferença, no entanto, é que este é consagrado no exterior, e, ao que parece, sentimo-nos impotentes ante julgamentos externos, como se não estivéssemos muito seguros sobre nossos próprios valores, por isto mesmo sempre mudando suas apreciações. Como, apesar dos exageros de estilo similar, aceita-se comumente o chamado samba-exaltação do tipo “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso (cuja letra precedeu de 40 anos o teatro do besteirol...), e que, durante algum tempo foi tido também por kitsch, e, talvez por causa das teses sobre a expressão “tropicalista” de nossa cultura (grandemente suscitada pelos movimentos da música popular) voltou a ser aceita em alguns repertórios, não de forma tão emblemática quanto logo após sua aparição, mas, de qualquer forma, sem ser esquecida. Em parte acredito que isto se dê pelo fato de a música popular admitir maior constância cultural, talvez porque tenha atingido, profissionalmente, um significado econômico maior. Mas também aí é limitado o conhecimento do passado menos recente, sendo difícil encontrar-se até mesmo as partituras das inúmeras burletas com textos de autores como Arthur Azevedo ou composições de Chiquinha Gonzaga, que tanta repercussão tiveram em sua época... Na verdade, os conceitos e admirações dos brasileiros não são tão constantes quanto os dos cubanos ou outros quaisquer povos. Temos, por característica primeira cultural, o rigor da moda, mudando a cada instante, e fazendo com que as tradições não se acomodem entre nossos conceitos.

Ainda no campo da Poesia, um estrangeiro como Otto Maria Carpeaux, logo ao chegar ao Brasil, nos anos 40, na publicação “Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira”, colocava Gonçalves Dias como o nosso poeta mais significativo, conceito sempre repetido por Manuel Bandeira, e que seguia uma visão e gosto trazidos do século XIX. Hoje, quase não se sabe mais do grande poeta, que pareceu superado com a onda provocada pelos concretistas há uns 40 anos ao descobrirem Souzândrade, como se este suplantara tudo do Romantismo. Se bem que, no momento, também este último maranhense voltou ao esquecimento que estivera antes de ter rompido São Paulo adentro guiado pelos concretistas... Já ouvi pessoas cultas dizerem que a linguagem de G. Dias é muito datada, com expressões de seu tempo, compondo o verso em métrica meio enfadonha (e, no entanto, seu ritmo vigoroso, parece-me muito brasileiro, como um samba!...), e coisas similares que nunca ouvi nenhum francês dizer quanto a Baudelaire, que continua sendo sempre o marco do início do Modernismo, mesmo em seu palavreado também “datado” (e como poderia deixar de sê-lo, se ele não era vidente para descobrir as gírias do nosso tempo?) e métrica regularíssima, como toda métrica que se preze de todos os tempos...

Coisa mais curiosa ainda é a eleição feita entre grandes representantes de nossa cultura do início do século XX, promovida por uma revista, de Olavo Bilac como o “príncipe dos poetas brasileiros”. Era uma unanimidade como a de Chico Buarque, no campo da música popular, de uns vinte anos atrás. Toda mocinha tinha Bilac em sua cabeceira... Quantas pessoas ainda o lêem, hoje em dia?

Outra paixão nacional foi Augusto dos Anjos, cujo Toma um fósforo. Acende teu cigarro!/ O beijo, amigo, é a véspera do escarro tornou-se até, em determinado momento, expressão corrente de conversa entre pessoas com certa educação literária... Carpeaux, na obra citada, considera dos Anjos como o mais original e mais independente de todos os nossos poetas mortos. Quem ainda o cita? E, aliás, quem é que ainda cita Carpeaux, tão levado a sério nas décadas de 50 e 60, como eu estou fazendo? (A obra a que venho me referindo foi editada diversas vezes, entre as décadas de 1940 e 1960, pelo Ministério da Educação e Cultura, e, então, por Edições de Ouro, o que demonstra, dentro de seu gênero, ter gozado de certa popularidade, que, indubitavelmente, perdeu com o tempo).

E, para não me alongar em exemplos no campo da Poesia, o brasileiro é tão volúvel em suas predileções, que, no ano passado, ao se comemorarem os cem anos de nascimento de Drummond, houve alguma manifestação contrária, dizendo-se que se estava falando demais dele, como se isto fosse em si uma simplificação cultural, ou uma eleição de gosto medíocre, e começaram-se a apontar supostos defeitos ou “mau tom” (sob o aspecto subjetivo de algumas linhas) em sua obra... Estar-se falando demais em alguém, para o brasileiro, é pecado. Tem-se de variar, mudar o disco, como se dizia antigamente...

Consta que quando o famoso diretor cinematográfico Franco Zeffirelli esteve algum tempo no Rio, para dirigir a ópera “La Traviata” no Municipal, foi umas três vezes à mesma boate. Na primeira, todos queriam estar com ele. Na segunda, menos, apesar dele continuar tendo a mesma simpatia. Na terceira, ao vê-lo, houve quem exclamasse entediado: “Ih, lá vem o chato do Zeffirelli!” Não que ele fosse chato. Mas, para o comentarista, Zeffirelli tornara-se numa figurinha fácil, contrária à novidade do dia, que é o que deseja viver... Isto, e talvez um pouco também pela sua fama. O brasileiro – e aí aponto uma outra característica paralela à constante mudança perseguidora das modas - parece querer burlar os fatos e pessoas famosas, como querendo sempre encontrar uma originalidade que em nada se fixe.

Ruim para nós. Paris, Viena, Madri, Buenos Aires e outras grandes cidades guardam alguns centros da arquitetura eclética que moldou um belo urbanismo a partir da segunda metade do século 19. O resultado foi tão bom, que ninguém, nestes lugares, ousa mexer nos prédios então construídos. Em Paris, admite-se até modificações internas, mas as belas fachadas, que tanto contribuíram para a fama da cidade, não podem ser mudadas. Pois bem, o Rio também teve seus prédios no mesmo estilo, a partir das reformas do prefeito Pereira Passos, no início do século XX, na Avenida Rio Branco. Mas, como o brasileiro se cansa rápido de tudo, a partir dos anos de 1950 foram sendo demolidos estes prédios, e o urbanismo da Av. Rio Branco se viu substituído por duas colunas de edifícios altos, só restando da “Belle Époque” o Teatro Municipal e o Museu de Belas Artes... Em 40 anos a avenida foi duas vezes urbanizada, apesar da primeira delas ter sido primorosa e haver espaço no centro da cidade (como na então recém-inaugurada Avenida Presidente Vargas) para novas construções. Pode-se ser assim tão volúvel?

A conseqüência deste espírito restrito aos ditames das modas recentes é a despersonalização cultural, com a falta de respeito pelo passado, que conduz à pouca atenção pelos estudos, a novidade pela novidade, por agressão, se necessário for, e a falta de parâmetros para a reflexão da realidade vivente. Isto nos leva a uma certa incerteza cultural. Às vezes alguns movimentos parecem próximos a consolidar uma evolução própria, como, de certa maneira, de 1922 ao início dos anos 40 ocorreu com o Modernismo, mas uma incrível necessidade de se autodestruir, imitar o que se propaga mundo afora, mesmo quando muito distante de nossas realidades locais, somente pela vaidade de se dizer novo, contemporâneo, atento à atualidade, parece mais forte que a apreciação de herança, paisagem circundante, aclimatação... Os Estados Unidos, que parecem ser o modelo desta visão de modernização constante, no entanto, retém suas figuras do passado obstinadamente. Ao contrário de nós, lá quase que só se vê o que nasce lá mesmo (como disse o Presidente Lula num discurso recente, o norte-americano põe em primeiro plano ele mesmo, no segundo plano, idem, e assim também no terceiro plano...). Um escritor como Hemingway, por exemplo, é inquestionavelmente citado e lido sempre como grande mestre, independentemente de seu conteúdo poder ser a da descrição de alguns porres pessoais e admiração por esportes competitivos, sobretudo os que exaltam a força física ou a audácia obstinada, em busca do comportamento extraordinário, mesmo que suicida... Não cabe aqui julgá-lo, mas, se fosse em nossa Literatura, sem dúvida que, após algum período de entusiasmo por seu estilo objetivo e uso enxuto da língua, acabariam por diminuí-lo por sua temática. Talvez seu individualismo contenha alguma essência da personalidade do povo de seu país. E isto, lá, é reconhecido e sempre passado às novas gerações como identificação com uma cultura de vencedores. Aqui, fazemos questão de esquecer sejam quais forem nossos valores. Será por acharmos que não merecemos nenhum destaque por fazermos parte do terceiro mundo? Que seria pretensão nos considerarmos culturalmente desenvolvidos? Teríamos o que se poderia chamar de complexo terceiromundista? Será por isto que desejamos não dar continuidade a nenhuma tradição?

Aliás, o mercado norte-americano absorve mesmo a contracultura e a forma de contestação ao que, aparentemente, seriam seus valores mais óbvios, como que em respeito à democracia da opinião e da manifestação individual. De tal forma, que a cultura é um somatório onde se inclui a contracultura, chegando às raias de uma literatura cafajeste, cheia de enunciados criminosos e fascistas como a de um Charles Bukowski ter lá sua aceitação, com edições sucessivas e público. Este parece ser, antes de mais nada, o respeito pela preservação da manifestação própria cultural, que nós temos cada vez menos. O mercado lá parece absorver tudo, pois isto integra a afirmação cultural nacional. Na verdade, uma literatura agressiva como a de Bukowski também reflete valores próprios da cultura norte-americana, cujos filmes de televisão mostram seguidamente o desprezo pelo ser humano, com as perenes perseguições automobilísticas onde morrem e se ferem meia cidade somente para que o herói (que acaba sendo tão assassino e brutal como qualquer vilão) consiga destruir o autor de alguma injustiça, por ódio, fazendo as (in)justiças com as próprias mãos, e sempre num ritmo alucinante de destruição, cujos diálogos são sempre violentos, onde a palavra bullshit sai da boca de qualquer criança, com a mesma raiva de qualquer gângster. O pior é que tal “cultura”, que eu chamaria de “cultura da bullshit”, nos é passada, e nós a incorporamos como nossa, quase nunca nos lembrando de nomes como Lima Barreto, por exemplo, cujos romances no início do século XX nos conduzia a reflexões muito mais próximas de nossos caminhos...

Neste mesmo ano que José Martí completa seu 150º aniversário, Gonçalves Dias (1823-1864) chega aos 180 anos de nascimento. Não é um número tão redondo assim, mas, de qualquer forma tem lá sua expressividade como todo múltiplo de 10. Outro número similar, aliás, será em 2004, referente a sua morte. Farão 140 anos que ele se afogou no naufrágio de um navio que aproximava-se da costa maranhense, onde nascera. Houve então uma comoção nacional, que levou Machado de Assis a escrever os seguintes belos versos (num tom lírico-patético digno de um García Lorca, e que seria apreciado por todos nós, indubitavelmente, se tivesse sua assinatura, mas como se trata de coisa nossa...):

Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros!
Virgens da mata, suspirai comigo!

Quem, hoje, ainda com ele suspira? Ou pior: quem disto se lembra?