| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 90 - setembro de 2003 |
|||||||
|
Literatura: Marcelo
J. Fernandes Esta série de três artigos pretende abordar momentos distintos da temática regionalista (ou sertaneja) no romance brasileiro: em José de Alencar, no Romantismo; Euclides da Cunha, no pré-Modernismo, e Graciliano Ramos, na segunda geração modernista. Não há o objetivo de se estabelecer um alinhamento estilístico entre os autores – o que seria artificial e inconsistente – mas traçar um paralelo entre os três momentos estéticos, cujos autores encontram-se plenamente identificados e comprometidos com a denúncia de uma nação não-litorânea excluída, apartada do meio urbano próspero e desenvolvido, histórico e geograficamente debruçado sobre o Atlântico. ALENCAR E A ABERTURA DO CAMINHO “Uma notícia
tá chegando lá do interior A necessidade de se assomar sobre o novo país recém-independente e situá-lo intelectualmente fez com que o decênio de 1830 propiciasse o surgimento das importadas sociedades filomáticas, que granjearam prestígio e fomento junto a um grupo de professores e alunos de Direito, no Rio de Janeiro. Entre essas agremiações – que guardavam semelhanças com as “academias” setecentistas da transição Barroco-Neoclassicismo, em contexto estético igualmente em transição, – destacou-se a “Sociedade Filomática”, que através de sua “Revista” assinalava, em recensão assinada por Justiniano José da Rocha, o lançamento de Poesias, de Domingos Gonçalves de Magalhães. Apesar de reagir, no mesmo exemplar, ao “cego ardor por inovações”, e ao “louco horror que se professa(va) por tudo quanto (era) usado”1 , o crítico via em Gonçalves de Magalhães o “gênio que, sob impulso do sentimento amoroso e da impressividade da ‘natureza virgem da América’, encontraria o princípio nacional, isto é, o caráter diferenciador de nossa poesia. ”2 A Revista da Sociedade Filomática, apesar de sua sobrevida efêmera (dois anos), assinalou os princípios ainda incipientes da profunda renovação temática que o decênio de 40 traria. Em 1834, no Instituto Histórico da França, três jovens membros brasileiros proferiram comunicações que promoviam a “revolução” nacionalista em voga: Gonçalves de Magalhães, Torres Homem e Araújo Porto-Alegre, respectivamente, versando sobre Literatura, História e Artes, em geral. Magalhães fez um breve histórico de nossa literatura, acusando as influências eruditas de Portugal e França de terem asfixiado a poesia cantada, espontaneamente criada pelos nossos índios, inspirados pela natureza. Torres Homem sintetizou a história das ciências no Brasil, sufocada por séculos de colonialismo português e então partindo para o progresso pós-independência, com a criação de novas faculdades de Direito, o desenvolvimento do Ensino Médio e da Medicina. Porto-Alegre opôs-se, em parte, à radicalização de Magalhães; acreditava que os índios eram pragmáticos em relação à natureza, que as artes foram introduzidas pelos portugueses e a literatura pelos jesuítas. Defendia que, apesar da dominação portuguesa na arte sacra (com influência italiana, por seu turno), as peças eram acabadas por artesãos que eram, via de regra, mestiços e negros. Porto-Alegre ainda ressaltou que, com a vinda da Corte (1808), a missão artística francesa e os músicos italianos, nosso gosto artístico se desenvolveu, abrindo caminho para um “solo fértil”. Com o lançamento da revista-manifesto Niterói e o livro Suspiros poéticos e saudades, em 1836, na capital francesa, Magalhães definia algumas das premissas para uma concepção de cultura e literatura brasileiras, tais como: “o regime colonialista português, dado o seu despotismo, prejudicara o desenvolvimento autônomo e fecundo dessa cultura; as culturas indígenas do Brasil, não fosse a sua destruição pelos colonizadores, teriam contribuído decisiva e ponderavelmente para a cultura nacional; a natureza brasileira, pela sua prodigiosa beleza, era altamente propícia ao gênio artístico; e com a independência do Brasil, com os estímulos que os brasileiros recebiam de sua natureza e com a recuperação da contribuição indígena – tudo se podia esperar da cultura e da literatura brasileira”. Ora, desdobrando-se estas premissas, temos todo o arcabouço temático-teórico da nossa dita primeira geração romântica e, pelo menos, três das vertentes da prosa: a indianista, a histórica e a regionalista. A “inauguração” da prosa nacional era iminente nos idos de 1840, visto que já grassavam entre nós adaptações de folhetins (Walter Scott, Hugo, etc) com grande êxito de público, o que impunha a criação de uma obra genuína, feito alcançado em 1843 por Teixeira e Sousa ( O filho do pescador), que a crítica remeteu ao ostracismo absoluto, e, com a legitimação de A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, no ano seguinte, já com as feições romanescas consolidadas. Alencar despontaria um pouco mais tarde, em 1856, com Cinco minutos e alcançaria sucesso de crítica e público com a obra O guarani, do ano seguinte. Sua produção é passível de ser dividida em três momentos: o primeiro, de 1856 a 1864, contém seus romances mais importantes e quase toda a produção teatral; o segundo, de 1865 a 1869, abrangendo os estudos políticos, e no último, 1870-75, transparecendo o seu desgosto com a vida pública, avultam O gaúcho, O sertanejo e Senhora, com ênfase no romance regionalista, que cria e inaugura. A questão acerca do romance inicial de temática sertaneja é intrincada. Cronologicamente O gaúcho é o marco (1870), anterior, pois, a O garimpeiro, de Bernardo Guimarães (1872) , a Inocência (1873) de Visconde de Taunay e a O cabeleira (1876), de Franklin Távora. Entretanto, numerosos críticos apontam a obra de Taunay como introdutora e outros tantos, a de Távora, desprezando, talvez, os prenúncios da transição romantismo/ realismo-naturalismo em Inocência e a consolidação desses traços em O cabeleira. O gaúcho assinala a última fase de José de Alencar, que travava duras polêmicas com Franklin Távora (consorciado com o lusitano José Feliciano de Castilho), Joaquim Nabuco e Sílvio Romero, encerradas com O sertanejo (1875). Neste período, Alencar publicou no prólogo de Sonhos d’ouro (1872) o seminal artigo “Benção Paterna”, em que discorre sobre a literatura brasileira em geral e nela situa a sua produção. Denomina de “aborígine” a fase de Iracema (notar que, nessa época, ainda não haviam sido escritos Ubirajara, Senhora e O sertanejo); “histórica” ( ‘representa o consórcio do povo invasor com a terra americana’), compreendendo As minas de prata e O guarani, e a última fase , que chama de “infância de nossa literatura, começada com nossa independência política, ainda não terminou”, atrela O tronco do ipê, Til e O gaúcho, ressalvando no primeiro a “proximidade da corte” e, portanto, um pequeno desvio ao aspecto regional. O que ressalta na proeminente obra de Alencar é seu projeto nacionalista, que o situa como o grande iniciador e artífice da literatura brasileira; antes dele, nenhum autor se ocupou em refletir sobre o sentido da criação literária, haja vista as numerosas polêmicas, prefácios, cartas, que transparecem uma consciência crítica e profunda de seu ofício, distando-o, assim, de seus contemporâneos e aproximando-o de Machado de Assis que declarou, em 1883: “Alencar escreveu as páginas que todos lemos, e que há de ler a geração futura. O futuro não se engana.” Alencar, ao se debruçar sobre o interior, “onde não se propaga com rapidez a luz da civilização”3 e dar as costas para o litoral (cf. com a última fase de Eça de Queiroz, que decepcionado por motivos outros, volta-se para o campo, com entonação neo-árcade), constrói uma alegoria da própria formação brasileira. Antonio Candido, em sua Formação da literatura brasileira, aponta que o romance romântico tinha “fome de espaço e uma ânsia topográfica de apalpar todo o país”, havendo uma “conquista progressiva de território”, neste caso, partindo do Rio de Janeiro e daí para as fazendas, cerrados, garimpos mineiros, Goiás, o litoral e o agreste nordestino, os pampas, culminando com o “Meio-Norte” de Aluísio Azevedo (Maranhão) e a amazônia de Inglês de Sousa, já no Realismo-Naturalismo. Alencar também traça, cronologicamente, o eixo Sul-Norte: O gaúcho (RS, 1870); O tronco do ipê (RJ, 1871); Til (interior, SP, 1872) e O sertanejo (CE, 1875). Era natural que Alencar, imerso na ficção romântica (e aqui, criador e criatura) amalgamasse elementos romanescos tais como o heroísmo e alguma xenofobia à sua composição regional. Tal fato não minimiza o valor de sua iniciativa, ao fazer o público leitor desviar o foco para o outro dos dois “Brasis”. Apesar de alguma falta de equilíbrio entre homem e meio e da excessiva idealização dos cenários – reconhecida pelo próprio autor ainda em “Benção Paterna” - , José Martiniano de Alencar foi o iniciador do romance brasileiro, o introdutor da vertente regionalista, a nosso ver, e um dos mais notáveis de nossa ainda breve história literária. 1 BOSI, A. O Romantismo,
SP, Cultrix, p.84
|
||||||