| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 89 - agosto de 2003 |
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| Resenha:
A TORRE DE BABEL O episódio da torre de Babel, na Bíblia (Gen. 11: 1-9), indica, ente outras coisas, que o espírito empreendedor do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, estava possuído do pecado do orgulho. Esse orgulho manifestou-se de modo insólito: pretenderam os homens erguer numa planície uma torre tão alta que seu cume atingiria o céu. O que poderia ser homenagem, revelou-se, aos olhos de Deus, prova de um orgulho inominável; assim, para castigar esse orgulho, Deus fez com que os homens deixassem de falar a mesma língua, e de tal forma confundiu-os em suas comunicações entre si que, impossibilitados de continuar a obra monumental, os homens se dispersaram por toda a terra. Trata-se de uma parábola; primeiro, mostra a impossibilidade de atingir o céu por meios materiais; diversamente de vários animais, como a maioria das aves, muitos insetos e os morcegos, p. ex., o homem não pode voar por sua própria natureza. Segundo, atingir os céus seria, no caso, não uma homenagem e sim dar mostras de soberba, tentando igualar-se a Deus; terceiro, e é o que nos interessa mais de perto neste artigo, um empreendimento dessa natureza exigiria comunicação pronta e perfeita entre as pessoas envolvidas. Assim, foi embaralhando essa comunicação, que Deus evitou a consumação da obra e fez com que os homens — e seus idiomas — se dispersassem sobre o globo. Não cabe aqui esmiuçar os diversos aspectos desse episódio, mas apenas chamar a atenção do leitor para a maneira como os antigos hebreus procuravam explicar a origem e a existência de tão variadas línguas entre os homens. De um modo geral, a idéia de “babel” está ligada à noção de “confusão”, de “incomunicabilidade” e esse tema está na raiz do livro de poesia de Gabriel Nascente, intitulado justamente A torre de Babel (Goiânia: Editora Kelps, 2000, 616p.). Apesar do tamanho
enorme, ou talvez devido a isso mesmo, o livro de Nascente não
se compõe de um único poema, ou seja, não tem a unidade
estrutural de um épico do tipo da Eneida e Os Lusíadas,
nem abrange um corpus amalgamado, como Divina Comédia, p. ex. Também
não possui a unidade épico-lírica da Invenção
de Orfeu. Cito estes poemas não só por serem paradigmáticos
em si, mas por representarem uma espécie de fonte, de veículo
poético para o autor, sobretudo o poema de Jorge de Lima, com o
qual, aliás, A torre de Babel tem diversos pontos de contato. Escrevi acima que
o livro não possui a unidade estrutural que observamos nos poemas
épicos. Porém, a própria lida com a linguagem, a
palavra, uma certa obsessão de formular uma poética baseada
na palavra e seus significados já respondem pela unidade do conjunto
— ainda que não estrutural — e Gabriel Nascente desenvolve
os poemas e as partes do livro com um critério visivelmente ordenador,
mesmo caótico na superfície. Afinal, a Invenção
de Orfeu também é um poema aparentemente caótico,
cuja ordenação não se percebe de pronto. Algumas
imagens de Nascente mostram sua visível preocupação
com o trabalho de organização de seu caos: “A palavra
é meu gatilho: / dispara poesia.” (‘Périplos
da palavra-I’, p. 32).
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