| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 89 - agosto de 2003 |
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| CONVERSAÇÕES
COM A ATMOSFERA AQUÁTICA A visão da infinita paisagem, desde sempre, estimulou o espírito. A largueza territorial de Ulisses, o mar pleno dos Lusíadas, a planura dos ventos de Martín Fierro, ou as campinas de tropear do índio velho Blau Nunes, dizem bem dessa expressão da paisagem. Firmados pelo clarão solar e pela visibilidade atmosférica, embora tempestades ocorressem, enigma e aventura seriam os caracteres que aquele ponto de vista distinguiu na linha do horizonte. Frente a frente com
esse olhar - pois é possível, após o século
das Luzes, desconfiar da sibilina luminosidade e transparência de
um mundo incertamente feérico -, qual o papel da névoa densa,
sobretudo na primavera, envolvendo toda a serra do Mar? Curso cego de sonhos - cenografia pneumônica liquefazendo a luz e a escuridão - essa atmosfera úmida seria horripilante naquilo que traz de umidade real e excessiva ao pulmão. Ressumando tristes metáforas e servidões sem termo, cúmplice das montanhas e da miúda chuva, seria a massa atmosférica úmida e compacta - igualmente - escondedouro do pensamento autônomo? A Matéria-prima vaporosa que auxiliaria a realização de um genuíno pensamento serrano, ou melhor, provinciano? A ORIGEM DO “RUÇO” Existindo em muitos
lugares - cerração nos campos de cima de S. Francisco de
Paula...cerração nas ruelas montesas de Ouro Preto... -,
nesta banda da serrania fluminense, todavia, esse horizonte solúvel
recebe o cognome de ruço. Seria o ruço, afinal, um dos específicos substratos do território petropolitano? A expressão da paisagem que testemunharia, como fato exclusivo da linguagem, a nossa diferenciação regional? Bem anterior ao dicionário
Houaiss, na Summula triunfal da nova e grande celebridade do glorioso
martyr S. Gonçalo Garcia, dedicada e offerecida ao Senhor Capitão
Jozé Rabello de Vasconcellos, por seu autor Sotério da Sylva
Ribeiro - falso nome do frei Manuel da Madre de Deus -, Officina de Pedro
Ferreira, Impressor da Augustíssima Rainha Nossa Senhora, Lisboa,
1753, reproduzida no volume 153 da Revista do Instituto Histórico
Geográfico Brasileiro, é possível concluir que ruço
jamais foi palavra genuinamente brasileira. Lê-se nessa pequena
suma: cavalos ruços pombos...(p. ). Frase de um ibérico
que confirma, ademais, a primitiva utilização adjetiva desse
termo. Seguindo o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa, ed. Objetiva, RJ, 2001, como, ademais, o Dicionário Aurélio, o campo etimológico do vocábulo ruço se origina do latim roscidus - orvalho, orvalhado -, existindo como rruço já no século XIV e alcançando, na centúria seguinte, sua forma contemporânea ao perder um /r/. Pela via latina, orvalhado ou orvalho seriam parentes próximos de ruçado ou ruço, uma vez que o antepositivo rosc propiciou vocábulos como róscido, rocio e o próprio ruço. Mesmo existindo uma origem comum, porém, o uso substantivo ou adjetivo desse vocábulo o afastou desse princípio, transformando o vínculo sangüíneo original em requintado contraparentesco. Como substantivo, ruço pode ser aplicado ao noviço descascador de sombreiro; em tauromaquia, é o animal cujo pêlo é um misto de branco e preto - sinônimo de pelagem salgada -, coisa um tanto rara em bovinos. O VOCÁBULO ÓTICO É de se notar que o adjetivo orvalhado qualifica o chão resfriado e coberto por gotas de água que se depositam na madrugada, enquanto ruço diz respeito a pardacento, grisalho. Em acepção informal, ruço é sinônimo de complicado, difícil, apertado. Comparado esse sentido ao uso metafórico do orvalho como lenitivo, refrigério, alívio ou, em doçaria, como lusitano sinônimo de confeitos para borrifar em doces, a desconsideração com a sua origem é, aparentemente, absoluta. Aparente, porque não seria difícil pensar que a palavra surgiria da necessidade de o olhar traduzir a cor que o orvalho, delicadamente, doa à natureza: pardo claro, gris, jamais branco ou preto. Vocábulo ótico que afirmaria o refinado contraparentesco, mesmo em sua acepção popular, pois o tom cinza é a nublação ou a incerteza da visão - logo, complicado, perigoso. Essa exigência ótica, que mirando o orvalho, gerou o adjetivo ruço, na serra do Mar criou sua variação úmida e substantiva ao enxergar a cerração como nuvem análoga à bruma ou névoa saída do ar frio da madrugada. Desejo dizer que a lembrança desse fenômeno atmosférico nem tão distante está do resfriamento que dá vida ao orvalho. O nevoeiro madrugador tem origem no ar resfriado que se instala em superfícies mais aquecidas. Erguendo-se de baixo para cima, alcançando - com o sol - mobilidade extremada até desaparecer devido ao reaquecimento diário das terras e das águas, essa neblina iluminaria ainda mais a simbiose ótica do ruço com o orvalho. Repare que a superfície resfriada em contato com o ar realiza o orvalho; porém, muitas vezes frio e úmido, esse ar é o mesmo que se aproximaria das áreas aquecidas - sólidas ou líquidas -, gerando nevoeiros ou brumas matinais. Estabelecendo-se nos vales mineiros, em terras baixas petropolitanas, nas praias invernais de Mostarda a S. José do Norte e tantos outros lugares, consequência da friagem atmosférica, brumas ou nevoeiros, em favor do orvalho, amplificariam ainda mais o entendimento com o ruço, já agora substantivado vapor. A específica
acepção montesa do ruço, confissão aquática,
retomaria, então, a consangüinidade com o latino orvalhado,
roscidus, restabelecida integralmente pela serra do Mar, ao nomear de
ruço o fenômeno atmosférico que cobre essa serrania.
Se o nevoeiro aparecido das noites e madrugadas frias vive nas campinas, vales abertos e planuras, não seria leviano sopesar que a original acepção serrana tenha nascido das migrações da hinterlândia mineira para a serra do Mar. O olhar mineiro-português encontrou verossimilhança ótica entre a névoa de seus vales e a cerração que enxergava descendo das montanhas. Remoendo o inconsciente distante, sem saber, o mineiro teria recuperado o vocábulo latino roscidus que, designando o fenômeno natural orvalho - parente próximo do nevoeiro matinal - e já conhecendo ruço como o termo que dá cor ao orvalho, não seria difícil imaginar a origem mineira de um novo sentido para o mesmo vocábulo: o ruço substantivado foi a nuvem dos vales que o mineiro reencontrou nessas paragens montesas. Identificado com o orvalho, o ruço foi também o vocábulo que fixou a diferença entre a bruma matinal se erguendo da terra e o nevoeiro que, chegando do céu, tinha origem marinha. Substantivo atracado às montanhas e sem esperança de fuga. O RUÇO NOS SÉCULOS 19 E 20 Eu não posso afirmar que ruço como cerração fosse usado informalmente na Petrópolis do século XIX. Reconhecido pela norma culta não era. A edição brasileira do Dicionário Contemporaneo da Língua Portugueza, F. J. Caldas Aulete, B.L.Garnier livreiro editor, RJ, 1884, acompanhando a edição lisboeta, 1881, noticia o verbo ruçar-se, sinônimo de alegrar-se com a esperança de obter alguma coisa, mimo ou dádiva, talvez retirado do costume de gatos roçarem-se em quem lhes faz festa. Grafado nas duas edições com /ss/, russo aqui também significa pardo claro ou grisalho. Russar é encanecer, tornar russo, fazer-se velho; existindo uma expressão, doutor da mula ruça, valendo homem com grau científico, mas que pouco sabe; presumindo-se sábio, sem o ser. No Dicionário da Língua Portuguesa - actualizado pelo acordo ortográfico luso-brasileiro de 1945 - Cândido de Figueiredo, 11 edição, 1949, russo é o habitante da Rússia, pois com /ç/ existe como pardacento, grisalho, desbotado, cabelo castanho muito claro, ou mesmo como cavalo macho ou burro de pêlo ruço. Ruçar é tornar-se ruço. O historiador da
rua petropolitana, Álvaro Luiz Zanatta, informa-me pessoalmente
que na década de vinte do século passado, aqui e ali, é
possível observar a dicção ruço vinculada
ao nevoeiro espesso nos jornais da cidade. A Chorographia do Município
de Petrópolis, Paulo Monte, Typographia Ypiranga, Petrópolis,
1925, expõe o aparecimento do ruço, descrevendo e evidenciando
os vínculos do fenômeno com as montanhas e os ares marítimos.
Da mesma forma que um poema de Bastos Tigre, O Veranista, apud Afrânio
Peixoto em Petrópolis, Joaquim Eloy dos Santos, em O Resgate de
uma Memória - Afrânio Peixoto, (p.43), diversos autores,
Academia Petropolitana de Letras - Fundação Petrópolis,
s/d, o professor Monte distingue a palavra com aspas (p.63), mostrando
que o seu uso úmido, em 1925, continuava desconhecido pela norma
culta. Embora ruço como nevoeiro, tudo indica, tenha sido contribuição
à língua portuguesa no século XX. Quinhão
da serrania fluminense. Sinônimo de nevoeiro espesso, o uso aquoso dessa voz, além disso, constituir-se-ia como exclusivo dialeto? Um dos elementos de construção do caráter regional petropolitano? Na cidade de Cunha, não sendo conhecido ou falado na urbe, é usado sem intensidade na vizinha reserva florestal da serra da Bocaina, em zonas rurais fronteiras ao Estado do Rio de Janeiro. Em Nova Friburgo, é principalmente conhecido pelas gerações idosas; já em Teresópolis, seu uso não suplanta as unidades léxicas cerração, nevoeiro ou neblina. O carioca que sobe a serra conhece e, casualmente, utiliza-se desse úmido sinônimo, quando observa as montanhas ou desloca-se para ela. DE MINAS PARA PETRÓPOLIS Provavelmente, esta banda da serra da Estrela foi o sítio em que mais se ancorou o substantivado ruço. De Minas para Petrópolis. A utilização aquosa da palavra, mais do que na serra do Mar, seria um dos viscerais exemplos da influente presença mineira no município. Citado acima, o professor Paulo Monte narra um fato atmosférico e montês não se perguntando, todavia, acerca da salinidade da cerração; particularidade que, em contraponto, a professora Nize Thomé, desde sempre moradora do Palatinado Superior, deu-me ainda agora testemunho ao lembrar um comentário habitual até meados do século passado, em sua família e entre os vizinhos, precisamente, o de sal nos lábios quando o ruço descia. Marinha substância que consolidaria a dicção petropolitana ruço. Ausente a indagação
ou impressão salobra da Chorographia do Município de Petrópolis,
não pôde estabelecer o professor Monte que, bem antes da
corte, o mar aristocrático havia já se instalado nesta serra,
sendo mesmo - convertido em névoa - o fenômeno natural que
mais caráter dá a esta região. Singular paradoxo:
se o fenômeno atmosférico ensopado de mar é a própria
representação alegórica do domínio da corte,
o substantivo ruço, refletindo uma natureza marítima e úmida,
igualmente, revelaria a comoção ou a resistência do
mineiro-petropolitano - melhor posicionado, ante o Poder aristocrático,
que o alemão despregado do mundo luso-brasileiro. A invenção
do específico vocábulo ruço foi um fato exclusivo
da linguagem, que expressando a paisagem, procurava uma identidade e auto-estima
que a presença do alóctone não permitia. De fato,
ruço como cerração, engendrado pela experiência
ótica mineira na serra do Mar, quase ia dizendo, criado na região
petropolitana e tendo seu uso expandido para àquela serra, foi
e continua sendo uma espécie de expressão de resistência
da hinterlândia, ou seja, da província diante da corte ou
metrópole. Devo lembrar que o meu primeiro romance, No Sereno do Mundo, ed. Pirilampo, Petrópolis, 1988, foi escrito para expor o mofo e o emparedamento da serrania petropolitana-brasileira, inundada pela neblina espessa. Narrativa que jamais indagou acerca da invenção de um novo sentido para o nome ruço vasculhando, porém, a importância existencial do fenômeno atmosférico na vida dessa região. Repare-se que o período do ano mais verossímil no entrecho do romance seria entre o inverno e a primavera, quando o frio, a miúda chuva e o ruço, transmutam-se em viventes na paisagem deste mundo pequeno. É fato que, nos trópicos, o outono, com o seu ar límpido, seco e transluzente, devolve à forma sua individualidade: cenografia de luzes e sombras, especialmente nas serras, amaciando o olhar e tornando palpáveis as coisas do mundo. Todavia, não aportou aqui linguajar ou unidade léxica singularizando o cariz outonal e, igualmente, dizendo do povo que o faria aparecer. Frente à volubilidade do clima petropolitano, baço, de chuvas, revirado e úmido ao longo das estações, o outono apenas superficialmente concede algo singular a esta serra, pois em confronto com outros empinados trópicos açoitados pelos ares marítimos, nada de específico reserva. O lugar serrano-petropolitano, enunciando de forma diversa o fenômeno da neblina ou cerração, comum a vários lugares, testemunharia a importante mediação da região na vivência do mundo. Embora as mudanças climáticas do globo talvez já abreviem a presença da névoa neste território. Mas, com o gravurista Escher caberia um fim, a felicidade do homem é também dependente da paisagem em que vive... |
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