Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 89 - agosto de 2003


Entrevista com Felipe Cunha:
"Teatro de bonecos é uma poesia: o fascinante é criar os personagens, dar-lhes vida e emoção... é como dar vida às pedras"

Regina Mota

da Redação.

Natural do Rio de Janeiro, Felipe Cunha, 28, reside há quatro anos em Saquarema, cidade que ele freqüentava desde seus três anos de idade. Abandonou a Faculdade de Agronomia para se dedicar à vida artística. Formado em Artes Plásticas, fez curso de teatro e pintura no Rio. Como artista plástico tem seu valor reconhecido e possui um quadro no acervo do Museu Internacional de Arte Naïf, na capital fluminense.

Procurando alternativas para trabalhar na área das artes — afinal ele havia feito também um curso de atores — foi num sebo que acabou encontrando um livro sobre teatro de bonecos. A sua busca se deu também pela dificuldade que teve em encontrar atores para montar suas peças. Foi onde tudo começou. “Afinal, os bonecos, como atores, são mais disciplinados, chegam sempre na hora certa, não reclamam de nada”, afirma Felipe com bom humor. “Essa é uma arte nova, que aceita novas culturas”, complementa.

Foi na década de 1970 que esse tipo de teatro teve seu apogeu no Brasil. O artista fala da versatilidade do trabalho com bonecos: “Há grupos de teatro de bonecos que trabalham desde materiais reciclados até os mais sofisticados.”
Com texto de sua autoria, Felipe Cunha já tem montada a peça “Em Busca da Pedra da Verdade”. “Ela fala da futilidade humana, sobre a falsa idéia de que as meninas devem procurar valorizar somente a beleza física sem se importar com o conteúdo, basta ser bonita e usar roupa de marca, senão está fora do grupo.” A peça em questão faz parte de um projeto que está em vias de ser apresentado nas praças de Saquarema no próximo verão. Um dos objetivos do artista agora é encontrar os patrocinadores para apoiar o projeto. Felipe vai além em seu sonho e já planeja um vôo mais alto com seus personagens. “Estou pensando em adaptar a peça Romeu e Julieta. Uma adaptação para adolescentes, mais leve... estou estudando isso. É muito mais complicado trazer para o teatro de bonecos o que já foi feito por atores.” Felipe salienta que o curioso dos bonecos é que eles não podem simplesmente copiar o que já foi feito pelos atores de carne e osso, senão fica artificial e até ridículo... O boneco tem sua própria linguagem, que valoriza muito o próprio ludismo de sua estrutura, a criatividade do olhar do público, a imaginação. O encanto imaginativo é tão grande que muitas vezes, numa apresentação, o público adulto fica muito mais empolgado do que as próprias crianças.

O CURSO DE TEATRO - A intenção de Felipe é de aumentar o seu grupo, formado atualmente apenas por ele e a esposa, Luciana Márcia. Para isso, está montando um curso de teatro de bonecos para todos os interessados na Região dos Lagos, principalmente de Saquarema. No curso, os alunos desenvolvem, entre outras coisas, sua aptidão como atores, além de trabalhar todos os aspectos do fazer teatral, focado nos bonecos. Dessa maneira, aprende-se desde a confecção dos personagens, passando pelo figurino, pelo cenário e iluminação, até a manipulação dos mesmos. São vários os bonecos possíveis de serem trabalhados teatralmente, e cada um deles será estudado no curso, exceto as marionetes. Para desenvolver Romeu e Julieta há a necessidade de no mínimo mais 4 pessoas. A partir de 14 anos o adolescente já está habilitado a participar do teatro de bonecos, como manipuladores. Quem tiver interesse em fazer o curso, ou mesmo saber mais sobre o teatro de bonecos, ou ainda quiser participar desde já do grupo de Felipe e Luciana, basta entrar em contato com eles através do telefone (22) 2653-4458 ou pelo e-mail phill.cunha@bol.com.br.

Segundo Felipe, existe um caminho profissional para aqueles que desejam se dedicar ao teatro de bonecos, mas alerta que, como tudo na vida, é algo complicado, não é qualquer um que faz, que segue adiante. “A utopia é um caminho – disse ele –, se você pensar em dinheiro, não vai fazer. Mercado há. O teatro de bonecos é até mais aberto a novas pessoas do que o de atores. Você pode trabalhar numa sala apenas, por exemplo, não dependendo de espaço em salas de espetáculo.”

Para a pessoa ser “titeriteiro” (aquele que trabalha com teatro de bonecos) é preciso ser bom ator, sem os vícios comuns a essa profissão, pois o ator que atua com bonecos não precisa estar em primeiro plano, ele tem que transpor para suas mãos a alma do personagem sem se expor. Segundo Felipe, nesse tipo de arte não existem regras, mas experimentos, o ator faz todos os processos. “Para agregar valores à sociedade, o teatro de bonecos deveria ser o primeiro contato da criança com o teatro”, opina Felipe. Segundo ele, já foi comprovado que a criança acredita mais no boneco do que na professora. Sob essa perspectiva, ele acredita que o teatro de bonecos pode ser um excelente atrativo para as crianças na escola, atuando até mesmo como um complemento curricular. Felipe chama a atenção para esse detalhe que parece óbvio, mas que tem sua razão de ser. Ele tentou junto a alguns colégios da cidade exibir seu trabalho com o teatro de bonecos e não foi bem aceito. A diretora de uma escola chegou a dizer-lhe que o teatro não fazia parte do currículo e que não havia interesse para os alunos.
Felipe lembra que houve uma época em que cada praça do Rio de Janeira possuía um palco para apresentações de teatro de bonecos; a ausência dos mesmos hoje em dia demonstra a decadência dessa cultura e dos próprios valores artísticos da sociedade. “Uma cidade como Saquarema, por exemplo, não pode se contentar apenas com mega-shows – continuou – você pode fazer um trabalho pequeno, de qualidade, que traga público. Se a cidade quer ser turística tem que trazer eventos culturais e fomentar os próprios trabalhos locais. Não existe um movimento cultural organizado na cidade, pelo mercado ser muito pequeno ou pelo próprio egoísmo de alguns artistas. Para conseguir algo do poder público, o artista tem que ser organizado. Espero que as pessoas que lerem o jornal me liguem para pelo menos tomarmos um café”, concluiu Felipe Cunha.

OS VÁRIOS BONECOS QUE BRILHAM NO TEATRO

Boneco de luva - conhecido como fantoche e mamulengo, é o boneco mais comum onde o corpo do boneco e a mão do manipulador coberta por uma luva.
Boneco de vara - são bonecos com articulações nos braços onde o manipulador o conduz com uma varinha, tendo como variação bonecos de luvas com articulações na boca e vara nos braços.
Bonecos articulados - são bonecos de corpos inteiros articulados, onde são necessários dois ou mais manipuladores que controlam os bonecos diretamente.
Bonecos de sombra - é utilizado um fundo de tecido branco num ambiente escuro, onde o manipulador fica atrás do tecido com uma pequena fonte de luz, e bonecos feitos de papel, couro e outros materiais rígidos, presos numa vareta proporcionando sua sombra no tecido.
Marionetes - são bonecos de corpos inteiros totalmente articulados e controlados por fios presos numa cruzeta.

LINKS RECOMENDADOS

Dr. Botica - http://www.teatrodebonecosdrbotica.com.br/
Cia. Truks - http://www.truks.com.br/
Bonecos populares no Brasil - http://perso.wanadoo.fr/takey/BEA8.htm
Grupo Sobrevento - http://www.sobrevento.com.br/
Teatro de bonecos na escola - http://dario_junior.sites.uol.com.br/b.html
Grupo Giramundo - http://www.giramundo.org/
Cia. Articularte - http://www.articularte.com.br/
Cia. Catibrum - http://netpage.em.com.br/catibrum/