| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 89 - agosto de 2003 |
|||||||
| Resenha:
Depois de Caderno (Goiânia, ed. do Autor, 2000), eis que Edmar Guimarães apresenta Desenhos de sol (Goiânia, Instituto Goiano do Livro, 2002). Após uma auspiciosa estréia, a consagradora confirmação de talento poético. A obra é finamente introduzida por um estudo de Moema de Castro e Silva Olival, “Desenhos de sol e a dialética das imagens”, ensaísta de valor, autora do erudito estudo Crônica: dimensão literária e implicações dialéticas. Ela põe em destaque, no poeta, determinados pressupostos cubo-surrealistas. Os poemas reunidos em Desenhos de sol convidam à reflexão sobre a pertinência verbal e a obtenção da mais ampla ressonância auditivo-ideativa, mediante uma busca da escassez de meios. Poeta raro, Edmar Guimarães. A marcha contida de seus tesouros imagéticos sugere ao leitor uma caminhada entre ruínas e construções, com que o poeta faz deslizar o trágico destino humano. Por se qualificar
como o tecido de uma poesia pura, de um momento para outro rebrilha a
metáfora lancinante: Um bom exercício
de busca de frações de síntese, da condensação
ad infinitum que se propõe o poeta, pode ser comprovado na mera
abertura de uma página ao acaso: É que a direção
tendencial das composições é o haikai. Exemplos: Poesia põe
rã Já longe,
sem datas, Para Edmar Guimarães o vivido e o viver se confundem. A memória presentifica emoções, cuja natureza é composta de objetos antigos e lembranças ancestrais, mais aqueles que, em presença, desencadeiam as reminiscências, potencializam o passado. Como está em “Transferência”: “teia que a mariposa do tempo balança / reage.” Depois: “Retornam velhos e feios / os fantasmas da infância.” Assim, os poems unem
a paisagem, as coisas perdidas e a nostalgia da aurora do mundo. Como
está no final de “Histórico”: O poema “Poço”, tão denso, tão fundo, fala da memória: “Ela vem entre ervas / cidreira e losna”, algo como “...o sopro / do que nasce / ao suspiro.” Tudo é válido
na oficina verbal de Edmar Guimarães: aliterações,
desmembramentos lexicais, trocadilhos, paronomásias, paradoxos,
recursos estilísticos, louçanias de Retórica, etc.
Até o grotesco, orvalhado de harmonia estética: A dimensão poética dos versos de Edmar Guimarães oscila entre a expressão do mundo real e a magia da imaginação. Assim, é freqüente o leitor mergulhar no sonho, impulsionado pelos vocábulos recorrentes como: ar, brisa, luz, sombra, perfume, odor, orvalho, fogo, nada, assim como defrontar-se com o mundo real, representado por figurações sólidas: casa, muro, parede, telha, talo, poço. Apesar de uma das
partes da obra denominar-se “Al Cova”, para a qual se reserva
o erotismo das palavras e das imagens, preside o significado profundo
de Desenho de sol dissimulado espanto perante o tema da morte ou da erosão
dos atributos da vida. Quantas vezes os vocábulos “ossos”
e “poço” se farão presentes, ao lado de outros,
igualmente denotativos de circunstâncias funestas? Nesses casos,
como em outros, o poeta explora a contaminação semântica
de palavras homófonas ou homógrafas.
|
|||||||