Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 89 - agosto de 2003


Resenha:
A POESIA PURA DE EDMAR GUIMARÃES

Fábio Lucas

Depois de Caderno (Goiânia, ed. do Autor, 2000), eis que Edmar Guimarães apresenta Desenhos de sol (Goiânia, Instituto Goiano do Livro, 2002). Após uma auspiciosa estréia, a consagradora confirmação de talento poético.

A obra é finamente introduzida por um estudo de Moema de Castro e Silva Olival, “Desenhos de sol e a dialética das imagens”, ensaísta de valor, autora do erudito estudo Crônica: dimensão literária e implicações dialéticas. Ela põe em destaque, no poeta, determinados pressupostos cubo-surrealistas.

Os poemas reunidos em Desenhos de sol convidam à reflexão sobre a pertinência verbal e a obtenção da mais ampla ressonância auditivo-ideativa, mediante uma busca da escassez de meios.

Poeta raro, Edmar Guimarães. A marcha contida de seus tesouros imagéticos sugere ao leitor uma caminhada entre ruínas e construções, com que o poeta faz deslizar o trágico destino humano.

Por se qualificar como o tecido de uma poesia pura, de um momento para outro rebrilha a metáfora lancinante:
E o olhar que nem
retornou
de ver o instante.
(de “Objetos da brisa”, p. 97)

Um bom exercício de busca de frações de síntese, da condensação ad infinitum que se propõe o poeta, pode ser comprovado na mera abertura de uma página ao acaso:
No silêncio longilíneo da garça, grasna
o pato.
Quebra o momento de louça
. (em “Ossama”, p. 96)

É que a direção tendencial das composições é o haikai. Exemplos:
É manhã nos sonhos.
Miúdas noites ainda úmidas
respiram seus lírios.
(p. 98)

Poesia põe rã
nos ramos. Com lápis de ar
risca luz no lago
(p. 98)

Já longe, sem datas,
harpas, liras, coisas fátuas...
o belo, baratas.
(em “Reflexões”, p. 99)

Para Edmar Guimarães o vivido e o viver se confundem. A memória presentifica emoções, cuja natureza é composta de objetos antigos e lembranças ancestrais, mais aqueles que, em presença, desencadeiam as reminiscências, potencializam o passado. Como está em “Transferência”: “teia que a mariposa do tempo balança / reage.” Depois: “Retornam velhos e feios / os fantasmas da infância.”

Assim, os poems unem a paisagem, as coisas perdidas e a nostalgia da aurora do mundo. Como está no final de “Histórico”:
Qualquer estátua podre
de jardim, um gesto existido,
guarda voz de origens
extintas.

O poema “Poço”, tão denso, tão fundo, fala da memória: “Ela vem entre ervas / cidreira e losna”, algo como “...o sopro / do que nasce / ao suspiro.”

Tudo é válido na oficina verbal de Edmar Guimarães: aliterações, desmembramentos lexicais, trocadilhos, paronomásias, paradoxos, recursos estilísticos, louçanias de Retórica, etc. Até o grotesco, orvalhado de harmonia estética:
Urubus usam a beleza nas asas
...pousam na carniça.
(p. 96)

A dimensão poética dos versos de Edmar Guimarães oscila entre a expressão do mundo real e a magia da imaginação. Assim, é freqüente o leitor mergulhar no sonho, impulsionado pelos vocábulos recorrentes como: ar, brisa, luz, sombra, perfume, odor, orvalho, fogo, nada, assim como defrontar-se com o mundo real, representado por figurações sólidas: casa, muro, parede, telha, talo, poço.

Apesar de uma das partes da obra denominar-se “Al Cova”, para a qual se reserva o erotismo das palavras e das imagens, preside o significado profundo de Desenho de sol dissimulado espanto perante o tema da morte ou da erosão dos atributos da vida. Quantas vezes os vocábulos “ossos” e “poço” se farão presentes, ao lado de outros, igualmente denotativos de circunstâncias funestas? Nesses casos, como em outros, o poeta explora a contaminação semântica de palavras homófonas ou homógrafas.
O que chama a atenção, na obra de Edmar Guimarães, é o espírito de síntese, conjugado ao alargado poder de sugestões imagéticas. O modo refinado com que produz o seu texto poético indica, nele, um lirismo visceral. Leitor agudo, remete a autores e mitos da alta literatura. E traz nova dicção à poesia contemporânea brasileira.