Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 89 - agosto de 2003


Resenha:
Notas sobre o livro Mais que os nomes do nada do poeta Aricy Curvello.


José Luiz Dutra de Toledo

Mestre em História pela UNESP – Franca / SP

Ao ler o livro Mais que os nomes do nada (São Paulo – Editora do Escritor / Luz e Silva Editor – 1996) me senti diante de uma das mais poéticas sínteses do indivíduo/mundo uno/fragmentado contemporâneo assumida por alguém conhecido/ nomeado ou chamado de Aricy Curvello!... Um livro heraclítico, recheado e sofisticado por exercícios estético-literários lúdicos, experientes e críticos (a palavra que vai além da palavra): uma obra que, como salienta o crítico Carlos Menezes em sua coluna Estante no jornal O Globo – edição de 21 de Setembro de 1980, mostra/ revela um escritor “igualmente preocupado com a transformação do mundo e com a forma literária.” Um trabalho literário que me relembrou/citou José Afrânio Moreira Duarte, João Guimarães Rosa, Maiakovski, Henriqueta Lisboa, Eunice Arruda, Fábio Lucas, Ascendino Leite, Márcio Sampaio e Carlos Drummond de Andrade. “Ao silêncio empurra o nada.” (pág. 12). As frases são expressões faciais? Máscaras? Ou expressões/trovões em olhares relâmpagos? Tudo é sobretudo e sobrenada. “Sentir sem poder de captura.” (pág. 17). As palavras também são realidades que expandem a realidade. O ovo que não veio de uma galinha, nem de uma serpente, a cor incolor, a dor indolor, fingir/frigir o que deveras me aflige ou... amálgama siderúrgico de esquecimento e memória, Itabira e Uberlândia, exílio e redenção? Nunca me ensinaram jogar pôquer e Gustavo Capanema abriu portas para Rodrigo Mello Franco, Oscar Niemeyer , C. Drummond, C. Portinari e Lúcio Costa. O dentro e o fora, o incluso e o excluso: que confuso!... Entre camas, escamas, barbatanas, banhas, óleos, banheiros, cafés e trajetos de ônibus, viver é todos os verbos e “apenas nós significamos os significados” (pág. 22). Camadas de amor superpostas sepultam os amores subterrâneos/ apagados, outras manhãs, outras maçãs, impossível dar nome ao que some ininterruptamente e eu agora só sou manchas num lençol recolhido à lavanderia de um hotel? Ruínas? Sementes de mentes loucas que mentem? Todos nós reeditamos continuamente a história de Tróia.

Brasília bastilha recoberta por decorativas pastilhas/escamas, com seus jardins de cactáceas tecnocráticas ardilosas (ou ardorosas) continua tentando ser a capital da era dos analgésicos. Me empresta uma alfaia para eu ir a uma posse?

“Nunca, nunca amanhece diferente”, ó Alvorada idolatrada salve, salve!... “Esperança também cansa.” (pág. 37). As sementes só florescem uma vez apodrecidas, História é um contínuo apodrecimento irreversível. Você é um espetáculo que se desmancha e eu sou as manchas, as nódoas, as pegadas... relâmpago dentro do labirinto. Somos habitados por muitos Pessoas. E também, por muitas horas, desabitados. “Até o que excluirmos nos incluiu” (pág. 42). Ugo Cerletti, por diversas vezes, foi ao matadouro de Roma observar como acalmavam os porcos antes do abate e, assim, acabou inventando a máquina que dá eletrochoques nos internos de hospitais psiquiátricos. Mas nenhuma máquina apaga as camadas de tempo gravado atrás das nossas portas e comportas. Nossas “dores ilegíveis” (pág. 46). “O que é Deus e o que é fera?” (pág. 50). “Os sonhos passam.” (pág. 51). O verniz de tartarugas nos vasos de antúrios da mamãe: também sou Proust!... “O que vejo não mais verei” (pág. 53). Aves coloridas em estandartes celestiais da Amazônia pós-jesuítica. A passagem das opiniões ilusórias... perplexidade!..

Estamos acampados no provisório. Quero morar num oratório. Os que confundiam exportar o país com o desenvolvimento nacional tinham razão? Ó!... Salve o braço mecânico! Louvado seja! “O Brasil é muito longe dos operários” (pág. 60). O que buscamos é mortal. “Hoje é ontem” (pág. 65). Nos Estados Unidos ouvimos palmas e aplausos que ecoam da palma de uma só mão!... Nas casas, televisões eternamente ligadas!... (pág. 35). Precisamos de mais cemitérios para os nossos cães! Medusas, algas, sardinhas, tubarões e outros peixes roeram o corpo de um dos náufragos de uma grande barca que, em plena noite, atravessava a baía da Guanabara, desfigurando-o e , incorporado pelos vivos do Atlântico, hoje “sua respiração percorre o litoral” (pág. 77). “Ainda és o que foste?” (pág. 78). “Negar é afirmar.” (pág.80). “Sobreviver já é vencer”. – Thomas Mann. Sobrevivemos ao que vivemos. A força enganosa das nossas esperanças decide os nossos destinos. Ou revela-lhe o que a ti há muito pertence! (pág. 82). As coisas só duram enquanto estão sendo construídas. “A vibração das aparências não é o berço das coisas.” (pág. 89). “Mais que palavra há na palavra.” (pág. 93). “Ser é uma invenção constante.” (pág. 94). “O que se vai se nada permanece?!...” (pág. 95). Só li este livro de Aricy Curvello, publicado no ano de 1996. Impressionou-me a atualidade da poesia deste mineiro radicado no Estado do Espírito Santo – Brasil!
(17 de Fevereiro de 2003).