Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 88 - julho de 2003

MAX WEBER E O CAPITALISMO JAPONÊS


Hamilton Cesar de Castro Carvalho

bacharel em Direito, livre pensador, reside em Petrópolis-RJ.

A célebre obra de Max Weber “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” sempre despertou na historiografia especializada a curiosa pergunta que aqui ora se coloca: – “Sendo o Japão um país de cultura oriental, não-cristã (e por cristão aqui leia-se especificamente protestante), como aplicar-se-ia a ele a teoria exposta na obra acima de Weber, que vincula o surgimento do capitalismo no Ocidente à doutrina calvinista da predestinação e à conseqüente interpretação do êxito material como garantia da graça divina?”

A resposta a esta intrigante e justificável indagação pressupõe uma análise mais profunda e um conhecimento mais detalhado da teoria weberiana. Está bem claro que esta, um verdadeiro estudo de sociologia da religião, parte do ponto de vista de que existe uma inequívoca relação entre a ética do protestantismo – principalmente em sua variante calvinista – e a noção daquilo que Weber denominou de “espírito do capitalismo”, ou seja, a formação de uma cosmovisão capitalista típica do homo economicus ocidental, aqui certamente entendido como o burguês europeu, em cuja mentalidade econômica Weber centrou sua ambiciosa análise sociológica. Devemos ter em vista ainda o fato de que a visão de Weber é certamente marcada pelo eurocentrismo que se esperaria de um brilhante sociólogo alemão escrevendo sobre as condições autóctones que, historicamente, explicaram o colapso do feudalismo europeu e a conseqüente ascensão de sua burguesia capitalista.
À primeira vista, somos tentados a ver na teoria de Weber uma compreensível limitação geográfica e histórica, na medida em que sua análise está restrita às condições sócio-econômicas especificamente geradas no seio da civilização européia, principalmente a que abrange a Europa anglo-saxônica de fé protestante em sua variante calvinista, considerando que a Reforma luterana e a conseqüente formação de uma mentalidade capitalista como fruto da ascese calvinista, foi um subproduto típico da civilização européia, da qual o cristianismo reformado foi um dos esteios éticos, históricos e econômicos.

É justamente a questão religiosa, ou melhor, a sócio-religiosa, que aqui se coloca com o fito de tentar explicar como e por que o capitalismo japonês se comporta dentro dos padrões da ética protestante ocidental em um país oriental de maioria religiosa xintoísta ou budista, ambas caracterizadas não só por um notório imobilismo social como, igualmente, por um tipo de comportamento ascético totalmente hostil e refratário ao mundanismo e à secularização que caracterizam, no Protestantismo, a obsessiva busca do lucro, mola mestra e motivação maior de toda sociedade capitalista. O pleno entendimento desta indagação pressupõe, certamente, o conhecimento dos processos históricos que caracterizaram, no Japão, a transição do feudalismo para o capitalismo.

O feudalismo europeu durou quase 10 séculos, da queda do Império Romano no Ocidente em 476 a. D. a 1453, ano da tomada de Constantinopla pelos turcos, enquanto o período feudal nipônico durou pouco mais de 600 anos, ou seja, da ascensão do xogunato Kamakura em 1192 até 1868, ano em que o colapso daquele modo de produção pré-capitalista terminou com a denominada Restauração Meiji, que conduziu ao trono e ao poder central a tradicional monarquia japonesa, fato concretizado pelo deslocamento da corte imperial nipônica de Quioto para Edo, atual Tóquio, escolhida como nova capital do país. É notória a falta de sincronia entre o feudalismo europeu e o japonês; aquele durou mais tempo mas começou e terminou antes do nipônico, cujo tardio colapso final deu-se em meados do século XIX, quando a Europa já estava em plena era moderna. Entretanto, em linhas gerais as instituições do feudalismo europeu e japonês apresentam semelhanças que nos permitem fazer curiosas comparações. Em ambas predominava o tipo de economia agrária, tendo a terra como base de toda riqueza, na medida em que os daimyo eram o equivalente nipônico dos senhores feudais europeus, enquanto os servos da gleba, denominados heimin, lavravam a terra com a qual tinham uma ligação vitalícia ao prestar estes serviços aos senhores feudais. Também no Japão, como no Ocidente, deu-se a lenta ascensão de uma classe de burgueses urbanos, os chamados chonin, que se enriqueceram – como seus equivalentes europeus – com o comércio e o empréstimo de dinheiro a juros.

Entretanto, uma grande diferença separava os dois tipos de feudalismo no que tange à formação do poder político: enquanto na Europa a figura do rei surgiu de um lento processo de ascensão social e política dos senhores feudais mais fortes, que subjugaram seus concorrentes mais fracos, implantaram a monarquia e constituíram os modernos Estados nacionais, no caso japonês uma família real – a do tenno ou monarca – que no período feudal nunca deixou de existir como fonte nominal do poder na corte de Quioto – ascende ao topo da pirâmide social e se impõe sobre o xogunato em franco processo de decadência, restaurando a monarquia centralizada com a ascensão do imperador Meiji-Tenno ao trono em janeiro de 1868.

De há muito tempo já vinha o Japão feudal sendo pressionado pelas potências européias e dos EUA, sedentos de novos mercados consumidores, a sair de seu lento isolamento e abrir seus portos ao comércio mundial. Em vão portugueses e espanhóis, depois holandeses, ingleses e norte-americanos por muito tempo tentaram estabelecer contatos comerciais mais estreitos como Japão feudal, contatos a que se opunham os xóguns que, fiéis à já clássica e típica xenofobia nipônica, temiam que a abertura do país ao comércio estrangeiro provocasse a queda do regime, a decadência dos costumes e das seculares tradições sobre as quais repousava, em grande parte, a estrutura do poder feudal no país.
Mas o imperador Meiji, uma personalidade que combinava rasgos de tradicionalismo aliado a um realismo político compreendeu, melhor do que ninguém, que mais cedo ou mais tarde o Japão ver-se-ia na contingência de ter que enfrentar o crucial dilema de se ocidentalizar à força ou então sucumbir às potências estrangeiras ocidentais, cujo nível técnico de civilização (e principalmente o de suas armas), era nitidamente superior ao da civilização nipônica. As profundas reformas de base empreendidas por Meiji atingiam em cheio tradições consolidadas por séculos, encontrando fortíssima resistência por parte das classes nobres de uma nação tradicionalmente conservadora e apegada às suas milenares tradições.

Meiji contratou cientistas e professores do Ocidente, construiu em 1878 a primeira ferrovia do país– a Tóquio-Iocoama – importou da Europa o telégrafo recém inventado por Morse, fundou bancos, ampliou as bases do sistema eleitoral, deu ao homem comum do povo o direito a usar sobrenomes, o que era proibido nos tempos feudais, mandou vir juristas da Alemanha para assessorá-lo na elaboração de uma Constituição que, se autocraticamente inspirada no modelo prussiano, ao menos já representava o germe embrionário da clara noção de um Estado monárquico fortemente unificado. Houve forte resistência por parte dos meios sociais mais tradicionalistas; por exemplo, não foi fácil privar os antigos samurais do velho direito a portar armas brancas como a katana, a tradicional espada samurai, doravante transformada em arma de uso privativo das forças armadas e policiais do império.

No que tange ao fato econômico – e aqui começaremos a abordar a questão de da teoria de Weber – o capitalismo japonês nasceu do próprio Estado centralizado, monárquico e unificado em torno à casa real nipônica. Sentindo a necessidade não só de dotar o Japão de plenas condições para competir em pé de igualdade com as demais potências ocidentais, como igualmente de modernizar o país para se defender de eventuais agressões ou ocupação por parte de outras nações estrangeiras, Meiji-Tenno assumiu a idéia de que ao Estado nacional caberia de início promover, com recursos públicos, uma rápida aceleração do processo de acumulação capitalista que, na Europa, se deu de forma lenta e gradual sem o caráter traumático que tipificou a aurora do capitalismo de Estado nipônico. Historicamente, a rápida transição japonesa de uma sociedade feudal para uma sociedade capitalista moderna explica-se pelo fato de que, ao contrário do que ocorrera no colapso do feudalismo europeu, o Japão não conheceu dois movimentos ou fases de capital importância na história econômica européia, os quais propiciaram que a transição da sociedade feudal para a capitalista se fizesse sem traumas ou sobressaltos históricos e econômicos: o Renascimento e a Reforma.

Para tal processo ocorrido no Japão concorreriam em grande parte os chamados zaibatsu, palavra japonesa que designa os grandes conglomerados familiares que já pontificavam, em seus germes embrionários, nas últimas décadas do xogunato Tokugawa. A instituição monárquica japonesa – o mikado – tomou a iniciativa de fundar grandes empresas com capital público, as quais, após completado seu processo de acumulação originária de capital, foram aos poucos sendo vendidas aos zaitabsu, que posteriormente evoluiriam para se transformar nos poderosos oligopólios que hoje dominam o capitalismo japonês moderno. Finalmente, tentaremos responder à pergunta por nós inicialmente formulada e que tenta esclarecer por que e como, à luz da teoria de Weber, foi possível a transposição de um modelo capitalista europeu e ocidental para um país oriental cuja tradição histórica e ético-religiosa não-protestante, conseguiu edificar uma sociedade capitalista tão poderosa a ponto de deter hoje o segundo maior PIB de toda a economia mundial, superado apenas pelo dos EUA.

Toda e qualquer objeção à impossibilidade desta transposição teria de passar por uma análise, ainda que superficial, do conteúdo ascético do xintoísmo e do budismo conforme praticados no Japão, comparando-o com as transformações por que a própria Reforma luterana passou na Europa. Se, conceitualmente, opusermos ascese a mundanismo e ética religiosa a espírito mercantilista, será curioso constatar que a Reforma empreendida por Lutero teve, em seus primórdios, um conteúdo fortemente crítico do processo de mundanização do Catolicismo Romano, principalmente no que tange à questão das indulgências, fortemente combatidas por Lutero não só em termos morais mas igualmente teológicos. É sintomático que Lutero tenha, pouco a pouco, se desvencilhado desta visão ascética que o levava a identificar a edificação espiritual e a fuga do mundo material como sendo a dimensão do divino, enquanto via apego ao mundanismo como a aproximação do homem à dimensão do demoníaco. Esta satanização do mundo do lucro material e do enriquecimento, em oposição à espiritualização do homem na ascese monástica, foi parte integrante dos escritos iniciais de Lutero, o qual convidava o homem à reflexão e a afastar-se das inevitáveis tentações do mundo material como o domínio das forças do mal.

Lentamente, contudo, de reformador religioso e ainda preocupado com o fato teológico em si, com os abusos do Papado romano e com a salvação da espiritualidade da Igreja através da ascese hostil à sua secularização, Lutero passou a teólogo político, criando em sua interpretação das Epístolas paulinas uma verdadeira cultura propícia a uma cosmovisão moralmente favorável à ascensão do capitalismo e à participação do crente cristão nas coisas do mundo material e, muito mais do que isto, vinculando o êxito material à presença graça divina no homem e não mais às tentações das forças malignas. Por tal razão, Lutero e sua – digâmo-lo – interpretação econômica das Epístolas paulinas, estão na base e no cerne da edificação daquilo que Weber denominou de “espírito do capitalismo”, cria e fruto da nova ética que o reformador germânico se propusera a preconizar.

No caso do xintoísmo e do budismo japonês, contudo, a ascese não só era parte integrante da visão de mundo xintoísta e budista como ainda o é mesmo nos dias de hoje, quando o Japão tradicional e conservador espanta o mundo com sua economia pujante e edificada sobre as sólidas instituições de um capitalismo que representou, naquele país asiático, um espantoso caso típico de verdadeira transposição da cultura econômica européia, ocidental e cristã-protestante para um país oriental, cuja população professa, em sua imensa maioria, duas religiões que sempre fizeram da ascese e da renúncia ao mundo material sua pedra angular no que tange à sua visão teológica.

Diante deste fato, é preciso acrescentar que a Reforma Meiji, responsável direta pela fulminante ocidentalização do Japão e pela introdução do capitalismo à ocidental no país, não quis fazer (e nem o conseguiu) do Japão um país totalmente ocidental. O homem japonês e sua sociedade conservadora continuam orientais em espírito, em comportamento, em sua escala de valores e, sobretudo, nas idiossincrasias mais marcantes do psiquismo nipônico. Há uma ponta de verdade na acusação feita por Yokio Mishima, o grande dramaturgo japonês, de que o Japão estava trocando os valores éticos Bushido e da cultura samurai pelo espírito pragmático ocidental e pela cultura do capitalismo mercantilista, fato que o levou ao suicídio ritual em 1970. Entretanto, do ponto de vista meramente econômico-cultural, o capitalismo japonês (mas não o homem japonês) sem dúvida representa, com suas instituições, um dos mais curiosos e singulares casos de transposição de cultura e de valores já ocorridos na história humana. Do ponto de vista econômico mas apenas dele, é perfeitamente possível considerar-se o Império do Sol Nascente como uma nação ocidental, na medida em que o gerente de uma grande empresa japonesa em nada difere, em seu comportamento econômico diário, de seus equivalentes europeu ou norte-americano.

Finalmente, é preciso acrescer que, ao contrário de alguns estudiosos afirmarem que, ao analisar as condições autóctones do processo de formação capitalista na Europa, a teoria de Weber só se aplica ao capitalismo europeu (e, por extensão, norte-americano), o capitalismo japonês provou a universalidade da brilhante teoria do sociólogo alemão, o que dispensa afirmar aqui que o Japão meramente assimilou do capitalismo ocidental as suas instituições econômicas, a sua ética mercantil e seu espírito capitalista, permanecendo nos demais aspectos de sua sociedade um país culturalmente oriental. A meu ver, finalmente, a teoria de Weber reputa-se universalmente aplicável a todos as nações que optaram pela via capitalista de desenvolvimento. Longe de ser uma exceção à teoria de Weber, paradoxalmente o Japão e sua moderna sociedade capitalista cada vez mais confirmam que a ética protestante no melhor estilo ocidental conseguiu criar, neste país remoto país oriental de fé não-cristã, uma verdadeira mentalidade capitalista que nada deve às suas melhores congêneres ocidentais.


BIBLIOGRAFIA:

GORO, Hani. Meji Ishin (A Reforma de Meiji). Editora Iwanbami – Tóquio - 1961

REISCHAUER, Edwin. The Story of a Nation. Alfred A. Knopf Pusblihers – Nova York - 1970

WEBER, Max. Die Protestantische Ethik und der Geist des Kapitalismus. Bernard & Graefe Verlag, Koblenz - 1985.

WENCESLAU, Moraes. Relance da Alma Japonesa. Parceria A.M. Pereira Ltda . Lisboa - 1972 .

YAMASHIRO, José. Japão – Passado e Presente. IBRASA – São Paulo – 1978