| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 88 - julho de 2003 |
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| ERNANI
AGUIAR E O SAMBA DO ESPÍRITO SANTO No dia 26 de abril de 2003 foi estreado na Sala Cecília Meireles o Te Deum de Ernani Aguiar, com a Orquestra Sinfônica Petrobrás Pró-Música sob a regência de Roberto Duarte, e os corais Municipal de Petrópolis e da Universidade Católica de Petrópolis. Ao final da execução, algo incomum em uma peça religiosa: o público, de pé, exigiu, não parando de aplaudir, que houvesse um bis, e o maestro atendeu-o bisando o final da peça. E, após o bis, o público ainda insistia nas palmas, como querendo mais, e o entusiasmo da vibração da obra continuou nos ânimos à saída do teatro. O que houve de mudança para que isto acontecesse? Quando, ultimamente, uma estréia da chamada música erudita contemporânea causou tanta aceitação? Nas últimas
décadas, tem havido um duplo preconceito musical no Brasil: contra
tudo que não seja atonal e contra qualquer resquício de
brasilidade, pois nossos ritmos e tipos de melodia são malvistos
como tudo que possa lembrar o Nacionalismo, época em que os intelectualóides
não sabem distinguir da opressão da ditadura militar (ou
fascistogetulista) e o subdesenvolvimento em muitos setores, preconceito
que é com a manifestação cultural natural, e até
com o idioma que se fala (NOTA: em Poesia há idiotas vanguardistas
que prezam até a deturpação de nossa língua
em função de alguma composição anglicista
ou sei lá o quê, onde o escrever dentro da naturalidade da
língua é taxado de mau gosto, como se a língua fosse
de mal gosto (1) ... No entanto, nos EEUU, a língua falada pelo
povo é a que está nos poemas – mas, nós queremos
imitar aquela cultura, sem perceber que lá determinada sintaxe
que aqui se quer inventar é natural, e lá, os compositores
escrevem dentro do espírito nacional deles sem que ninguém
lhes chamem de fascistas... Há aqui, parece-me, um subdesenvolvimento
mental em relação ao que somos, uma vergonha de subdesenvolvidos,
menosprezando nossa maneira de ser e de nos manifestarmos). Em virtude
deste preconceito, os compositores escolheram o caminho de escrever para
iniciados em leituras musicais e não mais se importaram com as
audições musicais. O grande público, assim, se vê
excluído das salas de concerto de músicas de seu tempo.
Quando vai, chateia-se, em geral, e, em geral, os próprios músicos
que escrevem ou são capazes de compreender a construção
de uma peça vanguardeira, chateiam-se também. Conheci já
compositores que são capazes de falar horas de suas peças,
mas, até mesmo eles, evitam ouvir-se ou ouvir seus pares contemporâneos...2
O complexo de subdesenvolvimento
não se impõe apenas aos criadores. O repertório sinfônico
de caráter brasileiro (ficou difícil até usar o termo
NACIONAL, pois sei que fica pesado para a maior parte dos brasileiros,
que se envergonham do país...), por exemplo, contém um número
grande de obras primas. Claro que o maior número delas é
de Villa-Lobos. Mas, mesmo este é pouco executado nos concertos
sinfônicos. Um compositor desta dimensão em outro país
qualquer que cultivasse sua cultura (como os EEUU, a França, a
Alemanha, Itália, etc) teria todo ano gravações e
apresentações completas de suas Bachianas e Choros, pelo
menos. Aqui, poucas de suas 12 sinfonias estão gravadas, e nunca
são levadas em concerto!!! (Soube que na Finlândia é
feriado nacional a data de nascimento de Sibelius, pelo orgulho que dele
sentem, por sua música estar no ouvido de todos. E, no entanto,
é um criador bem inferior ao nosso Villa!!!...) Há, porém,
obras-primas relegadas fora das obras de Villa-Lobos. Quando foi a última
vez que as orquestras nacionais levaram a Congada, de Mignone? Ou o genial
Maracatu do Chico Rei (balé com libreto do Mário de Andrade)?
Ou as Festas das Igrejas? Houve, desde Alexandre Levy, com sua Suíte
Brasileira (1890), que termina com um Samba, e Nepomuceno com a Série
Brasileira (1891), obras que deveriam ser do conhecimento de todos, por
traduzirem estados de espírito congêneres a nossa disposição
anímica, e que, se mais divulgadas, ampliariam a freqüência
do público aos concertos sinfônicos. Por que não tocam
mais o Reisado do Pastoreio do Lorenzo Fernandez, cujo Batuque chegou
a ser regido por Toscanini, Koussevitski e Bernstein? Ou a Dança
Brasileira ou a Suíte de Vila Rica de Camargo Guarnieri, por exemplo?
Tais obras, que contém um cunho de origem popular tão forte
e são tão bem realizadas não podem ser bissextas.
Deveriam freqüentar com assiduidade as rádios, programas de
televisão, retornadas ao povo, que sem dúvida as merece
e delas gostaria como provam os aplausos ao Te Deum do Ernani, que, de
certa forma, retorna ao desenvolvimento musical sob o prisma popular brasileiro.
Outro preconceito é o de que não se deve levar sempre as
mesmas obras e os mesmos compositores. Como se o repertório da
Alemanha devesse extirpar Beethoven ou Bach por eles terem já sido
muito tocados! Não é idiotice de subdesenvolvido mesmo?
Há obras que ficam, outras que não. Querer tirar as que
o público consagra é não querer que o público
tenha seu direito de escolha, ou pior: é achar que não é
para o público que se destina a obra de arte! E não lhe
dar oportunidade de se familiarizar mais com as peças mais aplaudidas. E por que o público gostou desta obra? Qual a alquimia nela contida? Ernani Aguiar teve a formação na Pró-Arte do Rio de Janeiro, sob a orientação principal de Guerra Peixe e aperfeiçoamento na Itália, em Florença. Tudo isto é importante como formação de músico, mas não o qualificaria tão bem quanto o seu esforço continuado em sempre aprender mais e mais vivenciar a fenomenologia musical, como eu, como seu amigo (e parceiro) há mais de 20 anos, tenho testemunhado. Nunca encontro Ernani que não tenha encomendado e esteja estudando partituras dos mais diversos compositores de todos os tempos, não só para suas apresentações como regente, mas, e sobretudo, por sua necessidade interna de vivenciar e estudar continuamente Música. Isto o torna num dos mais bem preparados músicos brasileiros do momento, quando grande parte dos compositores tende a se esclerosar dentro dos princípios artificiais das composições cerebralmente atentas a certas tendências do correr do século XX. A sua experiência é direta com as partituras e com as diversas orquestras que tem regido. É claro que, quando bem jovem, e como toda a sua geração, também participou de experimentalismos. Pode-se dizer que explorou vários aspectos vanguardistas de seu tempo. Isto lhe aumentou a capacidade técnica, fornecendo-lhe certos recursos que sempre atualizam suas exposições formais. Hoje em dia, ele costuma dizer que não deseja mais fazer música para intelectual... Sua música tem um sentido de abordagem viva de uma necessidade interior, e que representa uma demanda coletiva, humana. Este despojamento
dos “intelectualismos radicais” caracteriza uma personalidade.
Ernani Aguiar tem um temperamento ágil, pragmático, objetivo.
Sua dinâmica interior não admite sentar-se para ficar esperando.
Vai direto aos assuntos. E fala alto, com expressividade! Tal temperamento
transparece claramente em suas composições, e, talvez, por
isto, elas atinjam tão facilmente o grande público. A brasilidade que aparece no Te Deum não foi sua característica primeira. Além dos experimentalismos vanguardistas da juventude, houve uma fase, ainda jovem (início da década de 1970) quando namorou diversas tendências de seu século, como testemunham suas duas Sonatinas para Piano por onde perpassam de Satie a Schostakovitch, sem, no entanto, constituir mera imitação, e tendo, isto sim, sua eterna característica de concisão e objetividade. Seu espírito fogoso, que acentua o inesperado nas composições, levantando sempre a atenção do público, aparece plenamente numa complexa obra para coro e orquestra meio orffiana, a Cantata de Natal de 1981. Sim, Carl Orff é-lhe afim na impetuosidade e linguagem direta. Apesar da brasilidade ter se anunciado em algumas obras da juventude, esta só aparecerá plenamente, e com grande conhecimento de nossas tradições musicais, no final da década de 1980. Foram muitos estudos realizados para isto, e o encontro consigo mesmo, que sempre se dá em evolução para qualquer criador, que atingiu aí a consciência de seu envolvimento cultural, de seu meio, de sua terra, vizinhança, linguagem mesmo... Na sua primeira missa (Missa Breve – Tempos Novos) em português, dos tempos do Vaticano II, já havia um Hosana em ritmo de baião, que é repetido (por renegar a primeira) na segunda missa que escreveu (Missa São Francisco, “à capela”, e aí reafirmando este caminho encontrado na primeira, como sendo aquele, dentre toda a obra, que deveria se salvar!). Este o Ernani que se conhece, de estilo bem marcado, com suas peças como os Quatro Momentos (em que o nº 3, com seus quatro pequenos movimentos cheios de ritmos brasileiros “percussionados” nos instrumentos de cordas é a composição para cordas brasileira mais executada no Brasil e no exterior, sendo aqui a exceção do que se disse acima sobre a não repetição das obras para o público) ou os Instantes para orquestra de cordas (O Instantes II – de Prados, abriga um Boi mofado e a suave Cantilena – e hoje também bastante executada em sua versão para coro, de que fiz a letra, de características sentimentais na melodia, que remontam desde a modinha até a marcha rancho). Mas, aqui não é lugar nem há espaço para se comentar a obra de Ernani Aguiar. O que quero é refletir sobre os aplausos entusiásticos ao Te Deum, servindo-me da citação dessas outras peças para demonstrar o que existe na personalidade do compositor que o levou a este e outros êxitos não comuns na música contemporânea. Tais aplausos foram precedidos de dois meses, em 1º de fevereiro de 2003, na Alemanha, pela estréia de sua Segunda Sinfonieta, pela Orquestra Sinfônica Vilingen-Schwenningen, sob a regência também de Roberto Duarte. O público alemão chegou ao delírio, obrigando nosso maestro a bisar três movimentos!!! Aliás, o simples nomear dos movimentos já dá uma idéia de sua linha: 1º) Samba; 2º) Frevo; 3º) Marcha Rancho; 4º) Escola de Samba. E a grande novidade, me parece, é que tais ritmos não são apenas alusivos no desenvolvimento orquestral. Ao contrário do que se fez sempre em música de concerto, Ernani quase não relaxa a percussão, numa continuidade que só ocorre, de uma forma geral, na música popular. Mas, por outro lado, sua orquestração é riquíssima, variada, e a exploração dos temas é de uma inventividade à toda prova, sem nunca cair em vulgaridade! É uma música de muito fôlego. E com muitos aspectos engraçados, dada a sua irreverência e criatividades curiosas tanto no plano rítmico quanto instrumental. O mesmo que foi dito
à Segunda Sinfonieta vale para o Te Deum. São obras que
eu chamaria de gêmeas, inclusive com a aparição de
sambas contagiantes com a percussão continuada como em música
popular. Em ambas o popular torna-se expresso, sem eufemismos, e não
mais apenas referido, o que, de certa forma, é novidade. Fazendo-se
uma comparação com as artes plásticas, e tendo a
música atonal como paralelo ao abstracionismo, eu diria que este
retorno à harmonia tradicional com os elementos populares expostos
de maneira literal, é como um híper-realismo em Música.
Novidade, sim. Há um retorno ao nacionalismo de Villa-Lobos, Mignone,
Guarnieri, de um lado, mas não da forma como eles o faziam. Ernani,
se pintor, não teria retornado ao figurativismo somente, mas teria
usado sua palheta para apresentar figuras e paisagens mais realisticamente
do que nunca em suas telas. Esta é uma música nova, e, com
o otimismo de quem deseja a retomada das artes para um público
real, quem sabe?, é A NOVA MÚSICA! NOTAS (1) Já ouvi
um poeta dizer que cortava todos os pronomes relativos “que”
de seus poemas, o que imprime um aspecto meio esquisito a seus versos,
agradando-lhe exatamente isto – quanto mais obscura e estranha a
frase, ele se considera melhor poeta... E o pior é que isto não
é um caso isolado na contemporaneidade. Um certo mestre me falou
mal da palavra “pois”. Tinha de ser abolida dos versos...
Lembrei-me de vários “pois” nos melhores poetas do
passado, mas senti que não adiantava discutir: a questão
é que não se ouve mais a musicalidade própria de
nossa língua, nem se respeita sua estrutura montada, tendo-se prazer
exatamente pela sua destruição, como que por ódio
a tudo que se relacione à cultura e nação brasileiras.
Calei-me em ambos os casos, pois parece que sou um eterno aprendiz por
mais que tenha escrito ao longo da vida e refletido sobre Literatura e
Arte. Que poderia dizer a um mestre? Só digo a meu leitor: veja
você!!! |
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