| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 87 - junho de 2003 |
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| Pedro
II e “seu” Petrópolis ao estilo do velho Machado À escritora Lília Schwarcz, autora do fascinante “As Barbas do Imperador”1
Sobre o temperamento de D. Pedro II, Gilberto Freyre (2 ) observa que, tendo sua infância sido sufocada, sem convivência, inclusive, com as brasilidades culturais do grande país agrário de então, seus educadores prepararam-no para um Estado mais da cidade que do campo, burguês, racional, burocrático, faltando-lhe “um dos aspectos essenciais de sua missão: o seu relacionamento com o que a maioria dos seus súditos esperava dele” - o monarca a cavalo, “de farda de almirante ou uniforme de general, mais caçador em terras brasileiras, mais entusiasta das comidas brasileiras, de São Joões dos alegremente, ludicamente, religiosamente comemorados no interior do Brasil. Menos da cidade-corte e mais desse interior que parece ter visitado quase como turista europeu”. Pedro II vestia-se normalmente de cinzento ou preto em sua sobrecasaca de burguês, dizendo preferir as funções de um mestre-escola a de um chefe de Estado... (“como se fosse inimigo das cores num Brasil de gente entusiasta de cores”). Considera Freyre ter-lhe faltado “o exato ânimo liturgicamente imperial, esteticamente autoritário, carismaticamente monárquico. Não parece ter ostentado com entusiasmo o papo de tucano. Nem a própria coroa de imperador. Nem o manto, simbolicamente tão expressivo, de Imperador”. Seus educadores (e todo brasileiro da época) muito temeram que nele se repetissem as “loucuras” do pai. Mas, ao contrário, D. Pedro mostrou-se pouco Bragança, parecendo ter herdado mais o lado da mãe, a princesa Habsburgo Dona Leopoldina, filha do imperador Francisco I da Áustria. Ela amava os estudos (sobretudo de Botânica e Geologia) e trouxe consigo alguns artistas e cientistas para pintarem e estudarem as terras brasileiras... Num país de turbulentos mestiços franzinos, Pedro II, imperador que não gostava do foco sobre si mesmo, era um pacato leitor, alto e louro à feição austríaca... Um exemplo
do gosto pela não ostentação, de vida mais burguesmente
simples, é exatamente o despojamento que marcou a construção
e a habitação do palácio de Petrópolis. Se
formos pensar na tradição dos palácios fora das capitais
dos reinos europeus, o nosso não chegaria nem a merecer o nome
de palácio. Basta lembrarmos da imensidão d’O Escorial
de Filipe II, do refinamento de toda a Paris transportada para a Versalhes
de Luís XIV... Se o caso dos Braganças antepassados de Pedro
II terem apenas erigido uma muito “pequena Versalhes” em Queluz,
ainda assim uma pequena pompa à la Versalhes também acompanhava
a estadia dos reis ali. Mas, com a simplicidade do palácio de Petrópolis,
não há nada que se pode comparar em termos de habitação
e costumes de um monarca. 2 –
Pedro II e Machado de Assis Em lugar
algum seu desejo de “passar em branco” realizava-se melhor
que em sua cidade de Petrópolis. Nela não existiam salas
do trono, como nos paços de São Cristóvão
e no da atual Praça XV, não havendo, assim, agendas de despachos
rotineiros. É certo que muitas embaixadas se fixaram em Petrópolis,
recebendo Dom Pedro embaixadores no palácio. Houve alguns ministros
plenipotenciários que residiram em palácios, por sua vez,
que se fizeram históricos em Petrópolis, como o inglês
William Christie, que era na rua Dona Maria II (atual rua da Imperatriz),
causador da conhecida questão em 1863, e a do uruguaio Andrés
Lamas, por quem Dom Pedro demonstrava consideração e amizade,
com mansão na antiga rua dos Mineiros, atual Silva Jardim, onde
a princesa Isabel passou sua lua de mel, e mesmo Pedro II, em 1888, adoentado,
aconselhado por seu médico, passou uns dias, antes de ir para Águas
Claras. Tal imóvel foi, no século XX, a “Casa das
freiras” do Colégio Sion. Mas, enfim, mesmo com amizades
e encontros que poderiam ser de trabalho, o seu dia a dia petropolitano
quase que poderia ser comparado a da villegiatura de qualquer outro veranista.
Inclusive, caminhava pelas ruas sem nenhum compromisso com a importância
de seu cargo nem ser molestado pelos súditos, ou qualquer risco
de segurança (o quê, para nós, hoje em dia, é
um espanto!). Há registro, por exemplo, em seu diário, no
dia 22/06/1861 (4 ): “Corri toda Petrópolis a pé.
Visitei o hospital que estava bem sujo, vi se o cemitério se achava
fechado como recomendara em princípios deste ano ao engenheiro
e estive no jardim de Binot”. Percebe-se aí, em toda a atividade
de caminhada de uma villegiatura, que, no entanto, ele mantinha sempre
presente sua preocupação de governante com a coisa pública.
Se bem que, em suas observações e indagações
que muitas vezes registra nos diários, sobretudo em suas viagens
pelas províncias do Brasil, há que se reconhecer faltar-lhe
o “o exato ânimo liturgicamente imperial, esteticamente autoritário,
carismaticamente monárquico” observado por Gilberto Freyre
- O hospital sujo não poderia ser limpo se ele apertasse sua administração,
ou os meios políticos que pudessem atingi-la? Observa com a curiosidade
de alguém que deseja informar-se, faz anotações,
mas não parece considerar sua responsabilidade o estado das coisas.
Tal como o turista europeu ainda observado por Freyre, mais do que o responsável
pelo destino de nossos usos e costumes. Como escrito acima, era o abolicionista
que torcia pela abolição, mas não se sentia, como
monarca, autorizado a realizá-la... O estilo
que não se volta aos lances emocionantes, às ocorrências
extraordinárias, mas que sempre observa a vida, naquilo que ela
se desenrola o mais prosaicamente possível, sem alardes e com certa
fleugma, passa a ser respeitado no país como sendo o da sensatez
do “pai da pátria”, do imperador estudioso, de casaca,
sem “retóricas dos bordados”, num tempo quando o Romantismo
adulava bordados e babados, e numa terra de negros dançarinos dos
ritmos percussiantes dos atabaques, com um povo bastante festeiro... A
admiração pelo caráter deste bem mais Habsburgo que
Bragança, de certa forma, cria mesmo algum ideal de civilização
europeizante em certa elite. Curiosamente, em paralelo ao desejo de D.
Pedro de sua vida ser meia folha em branco, já em 1880, Machado
de Assis publicava em jornal o romance “Memórias Póstumas
de Brás Cubas”, onde num capítulo, O velho diálogo
de Adão e Eva, só aparecem os nomes dos personagens (Brás
Cubas e Virgília), com suas falas em pontilhados, e noutro capítulo
(De como não fui ministro d’Estado) há apenas os pontilhados
ao longo de toda a página... Machado vai se tornando, nos últimos livros, cada vez mais reticente em seus enredos, até se tornar, como o espírito de D. Pedro, em Memorial de Aires, um ficcionista quase sem tramas, apreciando mais a passagem do estilo que os desenlaces novelescos. A passagem do Império à República é retratada, em Esaú e Jacó, pela mudança de uma tabuleta numa loja comercial – a Confeitaria do Império. O comerciante Custódio apoquenta-se por ter de mudar a tabuleta, por estar velha, meio apodrecida, e logo quando isto acontece, cai o Império. Temeroso de que sustentar o mesmo velho nome pode causar problemas com a clientela republicana, vai pedir sugestões ao Conselheiro Aires. E lamenta-se por não poder continuar com a velha tabuleta, a que já se afeiçoara pelo tempo... De certa
forma, fica na citada passagem, uma idéia do país sentir-se
meio órfão com a saída de cenário de Pedro
II. Mas, isto ainda é dito em seu estilo, inclusive com o comentário
de Aires de que: “- Está bom, lá vai; agora é
receber a nova, e verá como daqui a pouco são amigos”.
Como se pouco importasse a diferença entre Império e República,
como se nada pudesse nunca mudar o Brasil, que para ele era a passagem
de bonde de umas poucas ruas de Laranjeiras ao centro. Como para o imperador,
seu Brasil deveria refletir seus dias montado num Poder Moderador, que
o predispusera a Constituição. E em nenhum lugar as coisas
eram tão em seu “espírito” contido quanto na
então pequena cidade de Petrópolis, moldada, em seu tempo,
como se fosse uma expansão de seu pensamento, visão do mundo.
Os veranistas, os colonos alemães, os outros grupos étnicos
que vinham chegando, pareciam respeitar o espírito de seu monarca,
não só governante político, mas literalmente proprietário
da fazenda que se fizera enfiteuse. 3 –
Amar a idéia de amar, sem corpo, só nalma... 4 –
Petrópolis/Brasil, ideal/real Esta reação popular em defesa de Dom Pedro, demonstra o carinho que o petropolitano por ele nutria, e que, por sua vez, reflete sua feição carinhosa pela cidade, pela vontade de conhecer, participar ordenadamente das coisas, dar-lhe sua afeição quieta e cordial (até que ponto a cordialidade detectada por Sérgio Buarque de Hollanda no caráter do brasileiro não tem em Dom Pedro II seu grande inspirador?). A própria cidade foi tomando, por sua vez, uma forma romântica de recanto florido, com casas amáveis, riozinhos simpáticos, florestas encantadoras... A sua cidade. O que de mais saudoso lhe ficou do reinado e do Brasil em seu exílio. Em 30 de janeiro de 1891 (ano de sua morte) descreve no diário um sonho que teve, onde deixavam que retornasse ao Rio: “Que felicidade! E aí eu iria passar o inverno daqui em Petrópolis, voltando na primavera que é na Europa lindíssima”. É curioso que admite, tendo sido destronado, viver na primavera européia, onde, evidentemente estão seus gostos culturais, mas se bem que lhe tenham permitido voltar para o Rio, é em Petrópolis que se vê passando o verão – inverno europeu – e isto lhe é a idéia de felicidade! Sim, era o local da felicidade para Dom Pedro. E no exílio ele sempre indagava, por carta e aos que lá chegavam, como ia “seu” Petrópolis. Assim que chamava sua cidade. Por exemplo, em 15 de julho de 1891, no diário: “Estive com Aljezur recordando-me de meu Petrópolis”, ou em 3 de agosto de 1891: “Binot com quem conversei de meu Petrópolis”. Por que este possessivo no masculino, quando se pensa que Petrópolis é a cidade, e assim deveria estar no feminino? Parece-me que o subentendido não é a “cidade de Petrópolis”, mas “meu lugar Petrópolis”, “meu recanto”, “meu ninho”, “meu amor”, “meu eu melhor”, que ele, como todo mundo, tinha o direito de escolher, quando lhe foi imposto, de garoto, um trono com as obrigações de governar, ter o seu paço e um casamento oficial com uma nobre. Petrópolis (como a condessa de Barral) não lhe foi imposto. Foi sua escolha, que ele amorosamente construiu (mesmo que não fosse para ser amante, mas sempre amigo) com o ideal de amor para um passar melhor por este mundo (para seu país, como para seu espírito...). Esta, sua relação amorosa com sua cidade, que também se mostrou a seu tempo tão encantadora. E que esperamos, venha ainda se recuperar das deformações que o tempo lhe tem causado, esquecida do espírito cordial de seu patrono. Mas, que se podia esperar de um povo, uma Nação, ante a passagem imaculada de alguns ideais sem corpo, sem a realidade tangente de suas necessidades e engates? Enquanto Machado escrevia obras primas do espírito – e que nos sirvam eternamente de exemplos literários e perquirição do espírito humano supranacional – havia também quem descrevesse o que de fato se passava na terra, como o Aluizio Azevedo de O Cortiço. Este país real foi crescendo, e de cortiços as favelas subiram não só os morros da cidade do Rio de Janeiro, mas a montanha que leva a Petrópolis. E por todo o Brasil se espalha uma realidade que requer medidas mais enérgicas e participantes que os ideais europeus na constituição de uma cultura de imitação. Havia, não se pode negar, algum sonho diferenciado no comportamento de Pedro II, que talvez fosse de uma educação superior, ideal, e que muito bem poderia ainda fazer à Nação. Não tem dúvida que seu espírito cordial, respeitador das opiniões alheias, deve servir sempre de exemplo para a melhoria social. Mas, pode-se chamar de pacifista aquele que empreendeu o ataque massivo e prolongado ao Paraguai? Mesmo que pensemos que, no seu entendimento, aplicar-se-ía aí o conceito jurídico de guerra justa? Um enorme erro a provar que a contenção, característica de seu caráter, não opera sempre sabiamente, pois as circunstâncias acabam por constituir as ações, quer se queira ou não, e estas, se não se ativerem firmemente a princípios, podem se deixar levar pelas conveniências. enganosas e maléficas. E até que ponto tal caráter contido foi mais prejudicial ou benéfico ao Brasil? Não há dúvida que sua figura era tão nítida e aceita que a sua retirada do cenário deixou um vazio de orfandade. Getúlio Vargas, em parte, tentou resgatá-la na figura do “provedor pai da pátria”. Seus quinze anos seguidos de poder, no entanto, estão longe dos 49 de Pedro II. Ninguém teria mais condições de se manter tanto tempo assim. No final Pedro II parecia ser o Brasil. Mas, tão longe estava, que o Brasil por si se procura ainda, longe do pai despatriado, e suas realidades pedem que seus governantes não mais se distanciem dele. Não sejam mais observadores, a viverem no sonho de amar o amor. Que arregacem a manga e subam o morro de suas favelas, para tentar erradicá-las! Há, no entanto, na contenção do estilo literário de Machado, um procedimento altamente sábio e educativo, que, em paralelo ao caráter do imperador, nos faz indagar se não haveria aí um indício de comportamento diferente dos dois brasis tão abordados na Sociologia clássica. Um terceiro, um quarto, um enésimo Brasil é possível de ser deduzido das experiências passadas (e que experiência imensa foi o Império de 49 anos de Pedro II!!!), e que, mesmo que aparentemente alienado de sua realidade material, esconda um fio condutor civilizatório (e, certamente na Literatura de Machado, isto é sempre verdadeiro) que nos convenha retornar, para acertarmos o passo como a Nação avessa às impetuosidades guerreiras e patriotadas infantis das atuais potências dominadoras. E, quem sabe, assim, o exemplo brasileiro (de tradição machadiana, pedrista...) não influencie melhor um caminho de mais dignidade para o futuro? Retornar ao bom comportamento da pequena burguesia de outros tempos, que sequer dizia palavrão, ao estilo direto, sem os gestos exagerados da verbosidade, como em Machado, à distribuição dos quarteirões por famílias da cidade de Petrópolis, onde tudo se encontre no devido lugar, com o respeito à natureza e ao traçado urbanístico racional (o antigo plano Koeler de Petrópolis) e reencontrar, talvez, em Pedro II o verdadeiro mestre escola que desejou ser, a nos ensinar algum tipo de respeito pela paz social. Seria isto ainda possível, desejável? Alguma coisa de positivo, sem dúvida, haverá na oposição ao cenário de competetividade individualista que pouco respeito demonstra pelo social, numa agressidade voltada à renovação e ação acima dos princípios morais e de cordialidade, com que se expressa a civilização do Império norte-americano. Entretanto, nunca é demais lembrar que nas observações cautelosas machadianas, há uma crítica nítida a uma sociedade de inúteis, onde seu Braz Cubas passa a vida inteira sem trabalhar, sem nada construir, achando, por isto, muito bom não ter tido filho, não transmitindo o legado de nossa (brasileira?) miséria a ninguém, e no máximo de tentativa de criação chega a observações sobre a “função da ponta do nariz”... Retornar a isto, evidentemente, não é desejável, mas apontar certas características dentre os muitos brasis, talvez valorize tendências... NOTAS . |
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