Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 87 - junho de 2003


Pedro II e “seu” Petrópolis ao estilo do velho Machado

Gerson Valle

escritor, membro do conselho editorial de Poiésis, autor de “Jorge Antunes, uma trajetória de arte e politica”

À escritora Lília Schwarcz, autora do fascinante “As Barbas do Imperador”1



1 – O imperador de casaca
A cidade de Pedro poderia ter sido a do Primeiro, que comprara a fazenda do Córrego Seco, nela pretendendo construir um palácio com o significativo nome da Concórdia, não tivesse ele abdicado do trono, no instante mesmo em que se projetava tal palácio (de que resta um esboço no Arquivo Histórico do Museu Imperial). Já seu filho, com espírito desprovido de seus arrebatamentos, não planejou, na construção de um palácio de veraneio, outorgar-lhe nenhuma outra significação do que um local de fuga do calor e da febre amarela do Rio, onde pudesse sossegadamente entregar-se a leituras, estudos de hebraico, astronomia, convivência com a família e alguns amigos com gosto pela leitura, passeios tranqüilos em meio à natureza e observar a tentativa de colonização européia, onde o trabalho não fosse mais escravo, sem ter de se voltar com isto contra a oligarquia proprietária. Ao menos, em sua propriedade particular, feita cidade com seu nome quando tinha 3 anos de monarca, e 18 apenas de vida, um novo Brasil poderia ser experimentado. Um Brasil que correspondesse ao temperamento ameno que foi levado a ter pela educação rigidamente controlada por seus tutores, tementes da repetição das impetuosidades de seu pai. Tenha D. Pedro II planejado este destino para Petrópolis, ou isto tenha sido obra dos políticos que o cercavam, como o mordomo Paulo Barbosa, que batizou a cidade, e, calcula-se, muito o aconselhava, o fato é que, ao se tornar maduro, tal era seu caráter e temperamento visível, e tal o uso dado ao palácio e à cidade.

Sobre o temperamento de D. Pedro II, Gilberto Freyre (2 ) observa que, tendo sua infância sido sufocada, sem convivência, inclusive, com as brasilidades culturais do grande país agrário de então, seus educadores prepararam-no para um Estado mais da cidade que do campo, burguês, racional, burocrático, faltando-lhe “um dos aspectos essenciais de sua missão: o seu relacionamento com o que a maioria dos seus súditos esperava dele” - o monarca a cavalo, “de farda de almirante ou uniforme de general, mais caçador em terras brasileiras, mais entusiasta das comidas brasileiras, de São Joões dos alegremente, ludicamente, religiosamente comemorados no interior do Brasil. Menos da cidade-corte e mais desse interior que parece ter visitado quase como turista europeu”. Pedro II vestia-se normalmente de cinzento ou preto em sua sobrecasaca de burguês, dizendo preferir as funções de um mestre-escola a de um chefe de Estado... (“como se fosse inimigo das cores num Brasil de gente entusiasta de cores”). Considera Freyre ter-lhe faltado “o exato ânimo liturgicamente imperial, esteticamente autoritário, carismaticamente monárquico. Não parece ter ostentado com entusiasmo o papo de tucano. Nem a própria coroa de imperador. Nem o manto, simbolicamente tão expressivo, de Imperador”.

Seus educadores (e todo brasileiro da época) muito temeram que nele se repetissem as “loucuras” do pai. Mas, ao contrário, D. Pedro mostrou-se pouco Bragança, parecendo ter herdado mais o lado da mãe, a princesa Habsburgo Dona Leopoldina, filha do imperador Francisco I da Áustria. Ela amava os estudos (sobretudo de Botânica e Geologia) e trouxe consigo alguns artistas e cientistas para pintarem e estudarem as terras brasileiras... Num país de turbulentos mestiços franzinos, Pedro II, imperador que não gostava do foco sobre si mesmo, era um pacato leitor, alto e louro à feição austríaca...

Um exemplo do gosto pela não ostentação, de vida mais burguesmente simples, é exatamente o despojamento que marcou a construção e a habitação do palácio de Petrópolis. Se formos pensar na tradição dos palácios fora das capitais dos reinos europeus, o nosso não chegaria nem a merecer o nome de palácio. Basta lembrarmos da imensidão d’O Escorial de Filipe II, do refinamento de toda a Paris transportada para a Versalhes de Luís XIV... Se o caso dos Braganças antepassados de Pedro II terem apenas erigido uma muito “pequena Versalhes” em Queluz, ainda assim uma pequena pompa à la Versalhes também acompanhava a estadia dos reis ali. Mas, com a simplicidade do palácio de Petrópolis, não há nada que se pode comparar em termos de habitação e costumes de um monarca.
A cidade erigida sob o nome e refletindo as intenções de vida de D. Pedro II, tornou-se num típico local de villegiatura da burguesia fluminense. O que se passa em época de férias? No século XIX, passeava-se, lia-se, conversava-se, tomava-se chá, faziam-se picnics, reuniam-se em saraus... Mesmo este último item não era muito do gosto de Pedro II. Seu período de festas não ultrapassou muito de 1850 (com 25 anos de idade), época em que suas vindas a Petrópolis se regularizaram, com o palácio quase pronto (na verdade ele veraneou em Petrópolis dos 22 anos até o exílio, estando, inclusive, nesta cidade, quando foi proclamada a República em 15/11/1889). Suas constantes leituras e estudos tinham mais um compromisso amador que propriamente de lazer. Era como se ele estivesse sempre respondendo às obrigações reais, procurando conhecer as ciências e artes para usá-las como instrumento da razão, em prol de sua administração. Dava-lhe, no entanto, mais prazer o preparar-se que o governar, o que ele confessava (em seus diários, por diversas vezes, demonstra o aborrecimento que constituíam para ele os despachos, mas que, com espírito resignado e patriótico, ele enfrentava, friamente, religiosamente). Assim, o governo adquiria um certo sentido pragmático, que afastava as paixões políticas, buscando uma neutralidade, que, com o ar de homem superior, conceito que desfrutava entre os brasileiros de uma forma geral, evitava as ocorrências extremas, fazia com que se acalmassem ânimos, e até abafava, com facilidade, os escândalos (como o caso do roubo das jóias ocorrido no palácio de São Cristóvão, e que nada ficou apurado com certeza, sendo difícil a um historiador posicionar-se ante os fatos apenas denunciados no exagero de opositores nitidamente republicanos como os escritores Arthur Azevedo e Raul Pompéia, que, metaforicamente, fizeram suas ficções sobre algumas suspeitas sem provas...). As mudanças tornavam-se difíceis de se realizar. Mesmo sendo um abolicionista, a escravidão só terminou um ano antes do término de seu governo. E a República, com todo o movimento de homens ilustres demorou décadas a vingar, como se até seus opositores adquirissem no Brasil o seu ritmo e moderação no agir. Curioso, sobre isto, aliás, é lembrar que tão conciliável era o espírito de Pedro II que chegou a declarar preferir ser presidente da República a imperador!

2 – Pedro II e Machado de Assis
Aliás, uma outra declaração sua, já no exílio, mesmo que amargurado, revela no fundo alguma coisa de seu temperamento (3 ): “A minha biografia escreve-se em meia folha de papel em branco, tendo no alto o meu nome e em baixo estas palavras: O meu sucessor fará que me façam justiça”. Parece-me de interpretação complicada, fora a evidente crítica ao governo republicano. Manifesta como superior a folha em branco, a não ocorrência de alguma coisa extraordinária (o branco é mais que isto: é não ocorrência de coisa alguma, mas digamos que tenha sido exagero de estilo). E acha que a posteridade verá como benéfica a não interferência, a passagem sem estardalhaço...

Em lugar algum seu desejo de “passar em branco” realizava-se melhor que em sua cidade de Petrópolis. Nela não existiam salas do trono, como nos paços de São Cristóvão e no da atual Praça XV, não havendo, assim, agendas de despachos rotineiros. É certo que muitas embaixadas se fixaram em Petrópolis, recebendo Dom Pedro embaixadores no palácio. Houve alguns ministros plenipotenciários que residiram em palácios, por sua vez, que se fizeram históricos em Petrópolis, como o inglês William Christie, que era na rua Dona Maria II (atual rua da Imperatriz), causador da conhecida questão em 1863, e a do uruguaio Andrés Lamas, por quem Dom Pedro demonstrava consideração e amizade, com mansão na antiga rua dos Mineiros, atual Silva Jardim, onde a princesa Isabel passou sua lua de mel, e mesmo Pedro II, em 1888, adoentado, aconselhado por seu médico, passou uns dias, antes de ir para Águas Claras. Tal imóvel foi, no século XX, a “Casa das freiras” do Colégio Sion. Mas, enfim, mesmo com amizades e encontros que poderiam ser de trabalho, o seu dia a dia petropolitano quase que poderia ser comparado a da villegiatura de qualquer outro veranista. Inclusive, caminhava pelas ruas sem nenhum compromisso com a importância de seu cargo nem ser molestado pelos súditos, ou qualquer risco de segurança (o quê, para nós, hoje em dia, é um espanto!). Há registro, por exemplo, em seu diário, no dia 22/06/1861 (4 ): “Corri toda Petrópolis a pé. Visitei o hospital que estava bem sujo, vi se o cemitério se achava fechado como recomendara em princípios deste ano ao engenheiro e estive no jardim de Binot”. Percebe-se aí, em toda a atividade de caminhada de uma villegiatura, que, no entanto, ele mantinha sempre presente sua preocupação de governante com a coisa pública. Se bem que, em suas observações e indagações que muitas vezes registra nos diários, sobretudo em suas viagens pelas províncias do Brasil, há que se reconhecer faltar-lhe o “o exato ânimo liturgicamente imperial, esteticamente autoritário, carismaticamente monárquico” observado por Gilberto Freyre - O hospital sujo não poderia ser limpo se ele apertasse sua administração, ou os meios políticos que pudessem atingi-la? Observa com a curiosidade de alguém que deseja informar-se, faz anotações, mas não parece considerar sua responsabilidade o estado das coisas. Tal como o turista europeu ainda observado por Freyre, mais do que o responsável pelo destino de nossos usos e costumes. Como escrito acima, era o abolicionista que torcia pela abolição, mas não se sentia, como monarca, autorizado a realizá-la...
Este caráter “não intervencionista” de Pedro II, que, por um lado positivo, bem demonstra seu liberalismo – e neste sentido um perfeito democrata, que deixava as opiniões se manifestarem sem censurá-las diretamente – de certa forma afetou o desenvolvimento brasileiro como um todo, no sentido dos fatos não se projetarem com violência, não havendo transformações radicais, como se a História caminhasse também sem marcar a “meia folha branca” com que ele definiu sua vida.

O estilo que não se volta aos lances emocionantes, às ocorrências extraordinárias, mas que sempre observa a vida, naquilo que ela se desenrola o mais prosaicamente possível, sem alardes e com certa fleugma, passa a ser respeitado no país como sendo o da sensatez do “pai da pátria”, do imperador estudioso, de casaca, sem “retóricas dos bordados”, num tempo quando o Romantismo adulava bordados e babados, e numa terra de negros dançarinos dos ritmos percussiantes dos atabaques, com um povo bastante festeiro... A admiração pelo caráter deste bem mais Habsburgo que Bragança, de certa forma, cria mesmo algum ideal de civilização europeizante em certa elite. Curiosamente, em paralelo ao desejo de D. Pedro de sua vida ser meia folha em branco, já em 1880, Machado de Assis publicava em jornal o romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, onde num capítulo, O velho diálogo de Adão e Eva, só aparecem os nomes dos personagens (Brás Cubas e Virgília), com suas falas em pontilhados, e noutro capítulo (De como não fui ministro d’Estado) há apenas os pontilhados ao longo de toda a página...
O mulato Machado de Assis, nascido em morro carioca, sem se ater às expansividades de caráter vindos nos ritmos das senzalas onde dormiam os parentes de sua mãe, também mantinha, em sua literatura, certa fleugma, como o imperador. Parece mais próximo aos anglicismos de um Laurence Sterne que ao jovem país que habitava, trazendo-nos a fina ironia que reduz as desventuras das paixões e todos os embates da vida a sintéticas observações pueris. Não se deixa mais levar, a partir das Memórias póstumas exatamente, por qualquer grandiloqüência. Até que ponto o mesmo desejo “europeizante” e de distanciamento cultural é coincidente, ou até que ponto ele se tornou possível graças ao “espírito” mesmo que Pedro II fazia inspirar à grande parte da Nação? Aliás, diga-se de passagem, o comportamento pequeno-burguês urbano tipicamente brasileiro, da segunda metade do século XIX à primeira do XX, era o de obediência a uma educação pouco reivindicativa, silenciosa mesmo, de achar inconveniente, aborrecido (os termos da época eram “cacete”, “pau”, equivalentes a “chato”) qualquer gesto excessivo, detestando chamar a atenção. As famílias pequeno-burguesas respeitavam o decoro da aparência, não sendo afeita a vulgaridades. Não por grandes conhecimentos da civilização européia, como parecia ser a compostura de Pedro II, mas por se julgar dentro de uma tradição européia (mesmo que idealizada, uma vez que a História na Europa tinha seus passos mais largos, mais vívidos...).

Machado vai se tornando, nos últimos livros, cada vez mais reticente em seus enredos, até se tornar, como o espírito de D. Pedro, em Memorial de Aires, um ficcionista quase sem tramas, apreciando mais a passagem do estilo que os desenlaces novelescos. A passagem do Império à República é retratada, em Esaú e Jacó, pela mudança de uma tabuleta numa loja comercial – a Confeitaria do Império. O comerciante Custódio apoquenta-se por ter de mudar a tabuleta, por estar velha, meio apodrecida, e logo quando isto acontece, cai o Império. Temeroso de que sustentar o mesmo velho nome pode causar problemas com a clientela republicana, vai pedir sugestões ao Conselheiro Aires. E lamenta-se por não poder continuar com a velha tabuleta, a que já se afeiçoara pelo tempo...

De certa forma, fica na citada passagem, uma idéia do país sentir-se meio órfão com a saída de cenário de Pedro II. Mas, isto ainda é dito em seu estilo, inclusive com o comentário de Aires de que: “- Está bom, lá vai; agora é receber a nova, e verá como daqui a pouco são amigos”. Como se pouco importasse a diferença entre Império e República, como se nada pudesse nunca mudar o Brasil, que para ele era a passagem de bonde de umas poucas ruas de Laranjeiras ao centro. Como para o imperador, seu Brasil deveria refletir seus dias montado num Poder Moderador, que o predispusera a Constituição. E em nenhum lugar as coisas eram tão em seu “espírito” contido quanto na então pequena cidade de Petrópolis, moldada, em seu tempo, como se fosse uma expansão de seu pensamento, visão do mundo. Os veranistas, os colonos alemães, os outros grupos étnicos que vinham chegando, pareciam respeitar o espírito de seu monarca, não só governante político, mas literalmente proprietário da fazenda que se fizera enfiteuse.

3 – Amar a idéia de amar, sem corpo, só nalma...
Uma apreciação em seus diários, em vários momentos, revela-nos um quotidiano muito repetitivo, onde o tomar banho (que em seu asseio, ao contrário de muita gente de sua época, era matéria diária) e refeições se tornam fatos dignos de registro. Há mesmo chegadas a Petrópolis, onde os dias sucessivos são marcados com a palavra “Nada”, como nada tendo a registrar. Uma outra fonte dos “brancos” por onde parecia gostar de conduzir sua existência, pode ser testemunhada em suas cartas à condessa de Barral. Há, aliás, um diário de 1872, escrito em francês, onde ele cumpriu o que parece ter sido uma promessa feita a ela, de lhe contar o que fazia no dia a dia. Depois de muitos banhos, refeições, visitas ao “meu colégio Pedro II”, onde examinava o grego e o latim dos alunos, ou coisas similares, há uma observação aposta pela Barral que parece criticá-lo ao devolver-lhe o diário: “Mas, estas são as coisas a serem contadas à amiga?”
A amizade, aliás, com a condessa de Barral, é, em si, um emblema da personalidade de Dom Pedro. Descobertas suas cartas entre nós quando um descendente da condessa as entregou ao Museu Imperial, imediatamente, na década de 50, apareceram livros (como o de Raimundo Magalhães Júnior) que se posicionavam a favor ou contra a possibilidade dos dois terem sido amantes. Nas cartas não se trocam nenhum beijo. Dom Pedro, ambiguamente, sempre se reporta aos “bons tempos de Petrópolis” que seriam os da década de 1850 e início dos 60 (quando a Barral era a preceptora das princesas Isabel e Leopoldina, e D. Pedro também dava aulas às filhas, estando sempre, assim, muito próximo dela. As cartas começam quando as princesas se casam e a Barral volta para a França).
Petrópolis aí é um pano de fundo a um envolvimento sentimental de nosso monarca, que se prolonga, em alguns anos dos 70 com a Barral morando numa casa da atual rua Nelson Sá Earp, e no início dos anos 80 morando no hotel que hoje é a Universidade Católica (do relógio das Flores), com as interrupções, quando aparecem as cartas, e a Barral reside com seu filho em Paris. Diga-se de passagem que ela segue sempre amicíssima da princesa Isabel e convivendo na companhia de toda a família, inclusive da imperatriz Teresa Cristina (quase se podendo colocá-la como um membro da família). A constância das cartas de Dom Pedro, no entanto, sempre se dizendo saudoso e aludindo a um passado que pode ou não ser idílico, e que chegam a ser diárias, nos abre enormes dúvidas. Seria a sua capacidade de abstrair-se das paixões, tão contrariamente a seu pai (e talvez, por causa dele mesmo assim o tenham preparado seus educadores), e apreciar as possibilidades existenciais (de que teria dificuldade de participar) chegado ao ponto de amar somente a idéia de amar? Vivendo um século que valorizou elementos do romantismo, se dispunha ele a vivenciar um amor por uma mulher da forma intelectual de uma amizade, escolhendo, inclusive, uma amiga que correspondesse à boa educação que admirava, procurando assim humanizar-se, retirando a postura de um nobre distante, blasé?

4 – Petrópolis/Brasil, ideal/real
O que me passa do caráter de Dom Pedro II tem muito desta “vida idealizada”, e que traria o contorno primeiro da cidade de Petrópolis, como projeção de seu ideal. Um ideal de “página branca”, onde a História parece não ter muito o que contar, além das ocorrências prosaicas, das eleições sucessivas na Câmara, leitura de discursos esperados, as lojas vendendo nos dias úteis, fechadas nos feriados, os alunos dos colégios respeitando os horários de estudo, com professores medíocres, bons ou razoáveis, mas sempre dentro dos parâmetros que não chegam a constituir nenhuma ameaça à paz social, enquanto os turistas passeiam em Cascatinha, ou bebem alguma cerveja dos colonos... Há alguns fatos que escapam ao rame-rame da cidade pacata, e se deixam aparecer em alguns relatos da História (mas há uma vigilância para que isto não se torne constante). Tal, por exemplo, o banho de limão que deram no imperador, num dia de carnaval em que ele passava em frente a um hotel da rua central da cidade que o homenageia no nome. As pessoas que por lá transitavam sentiram-se tão indignadas que fizessem tal brincadeira, desrespeitando-o, que usaram da mangueira contra incêndio para encharcarem os hóspedes do hotel.

Esta reação popular em defesa de Dom Pedro, demonstra o carinho que o petropolitano por ele nutria, e que, por sua vez, reflete sua feição carinhosa pela cidade, pela vontade de conhecer, participar ordenadamente das coisas, dar-lhe sua afeição quieta e cordial (até que ponto a cordialidade detectada por Sérgio Buarque de Hollanda no caráter do brasileiro não tem em Dom Pedro II seu grande inspirador?).

A própria cidade foi tomando, por sua vez, uma forma romântica de recanto florido, com casas amáveis, riozinhos simpáticos, florestas encantadoras... A sua cidade. O que de mais saudoso lhe ficou do reinado e do Brasil em seu exílio. Em 30 de janeiro de 1891 (ano de sua morte) descreve no diário um sonho que teve, onde deixavam que retornasse ao Rio: “Que felicidade! E aí eu iria passar o inverno daqui em Petrópolis, voltando na primavera que é na Europa lindíssima”. É curioso que admite, tendo sido destronado, viver na primavera européia, onde, evidentemente estão seus gostos culturais, mas se bem que lhe tenham permitido voltar para o Rio, é em Petrópolis que se vê passando o verão – inverno europeu – e isto lhe é a idéia de felicidade!

Sim, era o local da felicidade para Dom Pedro. E no exílio ele sempre indagava, por carta e aos que lá chegavam, como ia “seu” Petrópolis. Assim que chamava sua cidade. Por exemplo, em 15 de julho de 1891, no diário: “Estive com Aljezur recordando-me de meu Petrópolis”, ou em 3 de agosto de 1891: “Binot com quem conversei de meu Petrópolis”. Por que este possessivo no masculino, quando se pensa que Petrópolis é a cidade, e assim deveria estar no feminino? Parece-me que o subentendido não é a “cidade de Petrópolis”, mas “meu lugar Petrópolis”, “meu recanto”, “meu ninho”, “meu amor”, “meu eu melhor”, que ele, como todo mundo, tinha o direito de escolher, quando lhe foi imposto, de garoto, um trono com as obrigações de governar, ter o seu paço e um casamento oficial com uma nobre. Petrópolis (como a condessa de Barral) não lhe foi imposto. Foi sua escolha, que ele amorosamente construiu (mesmo que não fosse para ser amante, mas sempre amigo) com o ideal de amor para um passar melhor por este mundo (para seu país, como para seu espírito...). Esta, sua relação amorosa com sua cidade, que também se mostrou a seu tempo tão encantadora. E que esperamos, venha ainda se recuperar das deformações que o tempo lhe tem causado, esquecida do espírito cordial de seu patrono. Mas, que se podia esperar de um povo, uma Nação, ante a passagem imaculada de alguns ideais sem corpo, sem a realidade tangente de suas necessidades e engates? Enquanto Machado escrevia obras primas do espírito – e que nos sirvam eternamente de exemplos literários e perquirição do espírito humano supranacional – havia também quem descrevesse o que de fato se passava na terra, como o Aluizio Azevedo de O Cortiço. Este país real foi crescendo, e de cortiços as favelas subiram não só os morros da cidade do Rio de Janeiro, mas a montanha que leva a Petrópolis. E por todo o Brasil se espalha uma realidade que requer medidas mais enérgicas e participantes que os ideais europeus na constituição de uma cultura de imitação.

Havia, não se pode negar, algum sonho diferenciado no comportamento de Pedro II, que talvez fosse de uma educação superior, ideal, e que muito bem poderia ainda fazer à Nação. Não tem dúvida que seu espírito cordial, respeitador das opiniões alheias, deve servir sempre de exemplo para a melhoria social. Mas, pode-se chamar de pacifista aquele que empreendeu o ataque massivo e prolongado ao Paraguai? Mesmo que pensemos que, no seu entendimento, aplicar-se-ía aí o conceito jurídico de guerra justa? Um enorme erro a provar que a contenção, característica de seu caráter, não opera sempre sabiamente, pois as circunstâncias acabam por constituir as ações, quer se queira ou não, e estas, se não se ativerem firmemente a princípios, podem se deixar levar pelas conveniências. enganosas e maléficas. E até que ponto tal caráter contido foi mais prejudicial ou benéfico ao Brasil? Não há dúvida que sua figura era tão nítida e aceita que a sua retirada do cenário deixou um vazio de orfandade. Getúlio Vargas, em parte, tentou resgatá-la na figura do “provedor pai da pátria”. Seus quinze anos seguidos de poder, no entanto, estão longe dos 49 de Pedro II. Ninguém teria mais condições de se manter tanto tempo assim. No final Pedro II parecia ser o Brasil. Mas, tão longe estava, que o Brasil por si se procura ainda, longe do pai despatriado, e suas realidades pedem que seus governantes não mais se distanciem dele. Não sejam mais observadores, a viverem no sonho de amar o amor. Que arregacem a manga e subam o morro de suas favelas, para tentar erradicá-las!

Há, no entanto, na contenção do estilo literário de Machado, um procedimento altamente sábio e educativo, que, em paralelo ao caráter do imperador, nos faz indagar se não haveria aí um indício de comportamento diferente dos dois brasis tão abordados na Sociologia clássica. Um terceiro, um quarto, um enésimo Brasil é possível de ser deduzido das experiências passadas (e que experiência imensa foi o Império de 49 anos de Pedro II!!!), e que, mesmo que aparentemente alienado de sua realidade material, esconda um fio condutor civilizatório (e, certamente na Literatura de Machado, isto é sempre verdadeiro) que nos convenha retornar, para acertarmos o passo como a Nação avessa às impetuosidades guerreiras e patriotadas infantis das atuais potências dominadoras. E, quem sabe, assim, o exemplo brasileiro (de tradição machadiana, pedrista...) não influencie melhor um caminho de mais dignidade para o futuro? Retornar ao bom comportamento da pequena burguesia de outros tempos, que sequer dizia palavrão, ao estilo direto, sem os gestos exagerados da verbosidade, como em Machado, à distribuição dos quarteirões por famílias da cidade de Petrópolis, onde tudo se encontre no devido lugar, com o respeito à natureza e ao traçado urbanístico racional (o antigo plano Koeler de Petrópolis) e reencontrar, talvez, em Pedro II o verdadeiro mestre escola que desejou ser, a nos ensinar algum tipo de respeito pela paz social. Seria isto ainda possível, desejável? Alguma coisa de positivo, sem dúvida, haverá na oposição ao cenário de competetividade individualista que pouco respeito demonstra pelo social, numa agressidade voltada à renovação e ação acima dos princípios morais e de cordialidade, com que se expressa a civilização do Império norte-americano. Entretanto, nunca é demais lembrar que nas observações cautelosas machadianas, há uma crítica nítida a uma sociedade de inúteis, onde seu Braz Cubas passa a vida inteira sem trabalhar, sem nada construir, achando, por isto, muito bom não ter tido filho, não transmitindo o legado de nossa (brasileira?) miséria a ninguém, e no máximo de tentativa de criação chega a observações sobre a “função da ponta do nariz”... Retornar a isto, evidentemente, não é desejável, mas apontar certas características dentre os muitos brasis, talvez valorize tendências...

NOTAS
1 Companhia das Letras, São Paulo, 1998.
2 Freyre, Gilberto – “Novas sugestões em torno de D. Pedro II”, in Anuário do Museu Imperial, nºs 42/43 (1981/1982), Petrópolis, 1984
3 in Carvalho, Afonso Celso Vilela de – “Exílio e morte de D. Pedro II”, Anuário do Museu Imperial, vol. 36, ano 1975, Petrópolis, 1982.
4 Os diários de D. Pedro II citados podem ser encontrados no Arquivo Histórico do Museu Imperial.

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