Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 85 - abril de 2003

POESIA DE CORDEL EM MELODIA


Marco Aureh

músico e compositor, membro do conselho editorial de Poiésis.

Minimizar a poesia pelo fato dela estar sendo cantada é uma ignorância típica da ideologia intelectualóide-academicista. Em outras palavras, considerar que letra de música é inferior a poesia, nem sempre condiz com a realidade dos fatos. Os autores dessa proeza, além de pesquisarem as pérolas eruditas citadas pelo Gerson Valle em seu artigo nesta edição, e tomarem conhecimento do cancioneiro medieval e renascentista de países como Espanha, Portugal, França e Inglaterra, deveriam também, realizar um passeio pelo Nordeste com a proposta de sentirem de perto a riquíssima poesia de cordel cantada pelos trovadores do sertão. A maioria do que hoje é criado em pequenos livretos, originalmente produzidos para serem pendurados em varais (daí o termo cordel), não recebe melodia, mas quando isso ocorre os resultados são fantásticos. E a origem dessa rica literatura é musical. Numa época em que poucos habitantes do agreste sabiam ler e escrever, os poemas eram cantarolados ou declamados pelos cantadores.

Atualmente conhecidos como repentistas, estes artistas mambembes, quando inspirados, cantam de improviso belíssimas trovas. E isto nada mais é do que poesia cantada. Utilizam-se, normalmente por espontaneidade intuitiva, de rimas ricas e aliterações simbólicas que deixariam Olavo Bilac e Cruz e Souza respectivamente pasmados. Patativa do Assaré é um grande representante dessa nata, assim como o hoje reconhecido, e um pouco mais rebuscado, Ariano Suassuna; deste grande autor, tive a grata oportunidade de musicar o espetáculo entitulado “Coração Mamulengo”, trilha sonora que foi editada em CD com a poesia de Ariano cantada pelos atores da peça.

Para ilustrar mais ainda o artigo citado, da MPB podemos destacar diversos casos onde a “letra” é também um poema. Alguns músicos instrumentistas formaram famosas parceiras com letristas poetas. Victor Martins letrou (ou seria poetizou?) a música de Ivan Lins; Aldir Blanc a de João Bosco; Fernando Brant a de Milton Nascimento; Ronaldo Bastos a de Beto Guedes; Geraldinho Carneiro a de Egberto Gismonti... e por aí vai. Em muitos destes casos pode ter sido ao contrário: o poema foi musicado como o fez João Ricardo ao musicar Cassiano Ricardo e Manoel Bandeira no mais famoso disco dos Secos & Molhados.

Grande parte da história da música popular brasileira foi escrita (no sentido próprio do termo) com a força da poesia de muitas letras famosas. É claro que as letras das canções populares são mais coloquiais, mas nem por isso, menos poéticas.
Como afirmou Gerson Valle, a letra de música pode conter poesia ou não, assim como a poesia, se me permitem a metáfora, em alguns casos, não contém “letra” alguma..