| Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 84 - março de 2003 |
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ISLÃ E A GEOPOLÍTICA MUNDIAL Hamilton
César de Castro Carvalho Segunda maior profissão religiosa do mundo em número de adeptos e a religião que mais cresce atualmente, de há algum tempo vem o Islã ocupando as manchetes dos jornais, vinculado às complexidades da conturbada geopolítica mundial, que obrigou o Ocidente, quer por bem, quer por mal, a ter de se relacionar com os países do mundo árabe-islâmico. Embora estudioso do Alcorão desde os idos da juventude, não me proponho aqui a analisá-lo de seu ponto de vista teológico mas sim, contrariamente, tentar delinear os aspectos que regem e subjazem a relação entre os valores do islamismo e os da civilização ocidental moderna, mormente no que tange ao quadro geopolítico atual. Desde a derrocada, na Europa, dos regimes totalitários de esquerda a partir da década de 90, o Ocidente em geral e especificamente os EUA vinham se ressentindo da necessidade de encontrar um sucedâneo para a clássica dicotomia que caracteriza as guerras, quer “quentes”, quer “frias”, qual seja, a necessidade que todo sistema ou ideologia sempre têm se autojustificar a partir da existência de um outro sistema ou ideologia que se lhe oponham. Em outras palavras, toda ideologia carece de uma anti-ideologia que a justifique, não só em termos morais ou políticos mas principalmente em termos de poderio militar, que é a tônica de nossos dias. Este fato se explica não apenas em termos dialéticos mas, sobretudo, por ser parte integrante do inconsciente militar a noção de que toda luta pressupõe o antagonismo que separa o “nós” e dos “outros”, ou seja, quem está deste ou do outro lado da trincheira. Enquanto durou a guerra fria entre o mundo ocidental capitalista e o bloco comunista oriental, a máquina militar americana e a de seus aliados ainda pôde, a grosso modo, se justificar moral e militarmente como sendo o derradeiro baluarte da defesa da civilização ocidental contra o que então se alegava ser o bolchevismo ateu e materialista, antiliberal e antidemocrático. A guerra fria assumiu então ares de uma versão moderna das antigas e românticas Cruzadas medievais que, em torno à causa do resgate das terras santas do Oriente, dividiram os homens em fiéis – que eram os cristãos – e infiéis – representados pelos sectários do Islã, mesmo que, a tal respeito, há que se chamar a atenção para o relativismo desta classificação simplista e binária dos homens segundo a fé que professavam. Mas, do momento em que o colapso do comunismo fez dos EUA a única superpotência mundial e não mais tendo o mundo comunista como fator de justificação de sua máquina de guerra, lentamente o Islã passou a preencher, na geopolítica da Pax Americana, o clássico papel histórico que até então coubera ao comunismo, qual seja, o de inimigo número um da civilização ocidental cristã, da qual a América se julga e se autoproclama, unilateralmente, líder e defensora. A cobiça dos monopólios americanos pelo petróleo dos países árabes do Oriente Médio, aliás a verdadeira (mas nunca assumida) causa deste grave problema, conseqüência do exaurimento das reservas mundiais do precioso líquido, aliada ao fato de ser o mundo árabe predominantemente muçulmano, fez com que, lenta e até mesmo contrariamente aos intentos iniciais dos EUA, o Islã acabasse por se tornar o substituto do comunismo no histórico papel de “inimigo” do Ocidente e de seus valores culturais, morais e políticos. Aqui ainda há que se atentar para o fato de que ninguém no Ocidente, nem mesmo entre os militaristas mais fanáticos do Pentágono, assume esta postura. Oficialmente (e também de fato) as desavenças do Ocidente com o mundo árabe não revestem a característica de uma guerra contra o islamismo enquanto fé religiosa mas sim contra o fato de serem as correntes fundamentalistas do islamismo serem utilizadas por parte do mundo islâmico como ideologia política e como fator de auto-afirmação da unidade das nações árabes, ressentidas com o irrestrito e irresponsável apoio americano ao Estado de Israel, que sempre se opôs à formação de um Estado palestino na região, conforme a ONU já garantira desde o final da década de 40. Contudo, é
bem típico dos desconhecedores do Islã vê-lo a partir
de uma ótica monolítica, como se o islamismo não
tivesse, como ocorre no cristianismo e no judaísmo, suas próprias
divisões internas ditadas, em princípio, por sectarismos
e dogmatismos de cunho religioso-teológico. Não é
nosso propósito analisar aqui as profundas diferenças que,
no mundo muçulmano, separam as correntes islâmicas xiitas,
coreixitas e sunitas mas é importante saber que tais divergências
têm profundo reflexo no comportamento dos governos de países
de população muçulmana, principalmente porque nestes
o radicalismo religioso islâmico tem como equivalente político
o radicalismo ideológico dos líderes dos países árabes
mais fundamentalistas. Em outras palavras, ao radicalismo fundamentalista
da seita islâmica xiita eqüivale, como contrapartida, o radicalismo
político dos países cuja população adota,
predominante, esta corrente dogmática do Islã. Nestas nações,
há uma marcante tendência a ver no Ocidente e em seus valores
uma espécie de “anti-Islã”, encarando o mundo
ocidental como querendo reeditar, em versão moderna, a mentalidade
das velhas Cruzadas medievais, com a diferença de que, à
época, a Europa cristã visava à libertação
dos lugares santos das mãos do mundo islâmico enquanto que,
na versão do mundo atual, os objetivos do Ocidente se deslocaram
para a tomada das jazidas petrolíferas do Oriente Médio.
Ou então, expressando-se mais corretamente, as Cruzadas medievais
eram movidas, basicamente, por motivações religiosas, enquanto
a atual é de natureza intrinsecamente econômica, na medida
em que as reservas petrolíferas do Oriente Médio são
vitais à sobrevivência econômica do modus vivendi de
uma civilização centrada em um modelo industrializado e
movido sobre veículos automotores. Em vão tentam os assessores do governo americano desmentir o fato de que o islamismo não veio, como inimigo número um da América, para preencher o vácuo ideológico deixado com a saída de cena do mundo comunista ou então negar, perante a opinião pública mundial, que a guerra que ora move a América contra o terrorismo internacional não tem cunhos ou objetivos religiosos. Não é uma guerra contra o Islã mas sim contra o terrorismo moral e materialmente apoiado por setores radicais do fundamentalismo islâmico, que acabaram por transformar, pelas vias transversas, a nobre religião do profeta em ideologia anti-ocidental. Mas é exatamente como guerra religiosa contra o Islã que ela é divulgada pela propaganda dos países islâmicos, que exploram o fanatismo religioso de seus setores mais fundamentalistas para ainda mais fomentar um ódio de vida e morte contra o Ocidente. Não estamos, pois, diante do já clássico conflito ideológico entre capitalismo e comunismo, típico dos tempos da guerra fria, até mesmo porque todos os países árabes-islâmicos adotam o modo capitalista de produção e modelos de organização estatal altamente conservadores e autocráticos. Pior e mais profundamente ainda, parece que o mundo lenta e inexoravelmente se encaminha para um duro embate entre duas concepções de civilização diametralmente opostas: de um lado a ocidental-cristã, liberal e democrática, de liderança anglo-saxônica, consumista e materialista, em franco processo de decadência e imersa em sua mais profunda crise de valores e, de outro lado, a árabe-islâmica, conservadora, autocrática, de liderança árabe, frugal e em inequívoco processo de ascensão no mundo moderno. Para piorar as coisas e agravar ainda mais o quadro extremamente confuso desta babel geopolítica internacional, há que considerar-se igualmente as próprias dissensões internas dentro do mundo árabe, conseqüência não apenas das enormes diferenças dogmáticas existentes no seio do Islã, como também pela postura mais moderada ou radical que estas nações mantêm no que tange à suas relações com o Ocidente. Por outro lado, a tentativa do governo Bush em incluir alguns países árabes como sendo parte de um mítico e ridículo “eixo do mal” (o que é isto?) acirra ainda mais os ranços anti-americanos no mundo árabe e, pior ainda, reforça entre os sectários do islamismo a noção de que o Ocidente lhes move um incompreensível preconceito não só religioso mas, inclusive, étnico e cultural. A sorte está lançada e a guerra que se quer acreditar inevitável parece estar em marcha. Só nos resta esperar para aguardar deu desfecho. Provavelmente a máquina militar americana triunfará contra seus opositores, mal armados e divididos internamente, em que pese o fanatismo dos fundamentalistas islâmicos terem uma predisposição quase mística pela morte em razão da causa, que julgam comparável à guerra santa ou jidah, redenção do homem e porta de entrada no paraíso tão longamente prometido ao crente como prêmio aos mártires do Islã. Mas por pior que seja, por mais crises que possa desencadear no mundo, a guerra exporá a nu as reais razões ocultas dos monopólios americanos e da tirania do poder econômico que a grande nação do norte quer impor ao resto do mundo. Aos conhecedores da história só resta o consolo de saber que a longa história humana já viu outros impérios cuja queda vertiginosa seguiu-se exatamente a seu apogeu. Não seria aqui ocioso lembrar que, em sua cegueira belicista e irresponsável, os militaristas do Pentágono jamais tenham lido Spengler que, em seu clássico “O Declínio do Ocidente”, diagnosticou “a demonstração ostensiva e vulgar de poderio militar como sintoma e comportamento típicos dos impérios decadentes”. Sejamos, pois, dialéticos. Afinal o que nos consola é o fato de sabermos que o apogeu do poderio americano é, paradoxalmente, o início de seu inevitável declínio como império com pretensões à hegemonia mundial. BIBLIOGRAFIA: ARKOUN, Mohamed /
GARDET, Louis. L´Islam hier. Éditions Buchet-Châtel,
Paris, 1982 |
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