Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 84 - março de 2003


MARCO AUREH CANTA SYLVIA ORTHOF

Sylvio Adalberto

escritor, membro do conselho editorial de Poiésis

Apresentamos abaixo a entrevista com o poeta, músico e compositor Marco Aureh, que está desde o ano passado empenhado na divulgação de seu CD “Cantando Sylvia Orthof”, fundamentado na obra da escritora que dedicou grande parte de sua vida à criação de peças teatrais voltadas para o público infantil. Petropolitano, filho da cantora Maria Alice e sobrinho do compositor Jair Maia, Aureh tem significativa atuação na cultura de Petrópolis, tendo participado do conselho editorial do extinto jornal Culturarte, na década de 90. Agora, além de sua carreira musical, também passa a integrar o conselho do Poiésis.

Poiésis - A escritora Sylvia Orthof criou um mundo maravilhoso de fantasia e viveu impregnada dele. Você como parceiro principal, que vestiu as letras criadas por ela, com uma música deliciosa, ela que se definia, em suas próprias palavras, como uma “inventadeira de fantasiosas doidices”, como é que você vê e situa a Sylvia no contexto da literatura infantil nacional?
Marco Aureh - Você definiu bem a Sylvia. Ela começou a escrever depois de certa idade, quarenta anos aproximadamente, e realmente criou um mundo de fantasias impressionantes. A importância dela na literatura infantil é ímpar. Trouxe uma enorme contribuição no que diz respeito à liberdade, à espontaneidade. Até então se escrevia para criança de uma forma meio ingênua. Sylvia chegou quebrando esse padrão e, de uma forma inovadora, começou utilizando uma linguagem despojada com muita liberdade e senso de humor. Creio que essa tenha sido a principal colaboração dela.

Poiésis - Você acredita que o trabalho da Sylvia tenha divulgação a altura de sua importância?
Marco Aureh - Acredito que não. Seu talento é reconhecido pelas instituições literárias através de mais de cem livros editados, mas a obra ainda não chegou a atingir a dimensão que merece, realmente por falta de uma maior divulgação.

Poiésis - Como foi fazer o CD Cantando Sylvia Orthof?
Marco Aureh - Esse CD é um trabalho antigo, que está vindo a público agora. As músicas foram surgindo na medida em que os espetáculos iam sendo produzidos e levados à cena; assim, esse disco é o resultado desses espetáculos. Por isso tem música que foi feita em 1988. Com exceção da música Saudade, que foi o último poema que a Sylvia fez, quando já estava no hospital. Foi a última música que fiz, em 1997, logo que ela morreu. Fora isso, fui compondo as músicas à medida que musicava as peças teatrais que eram dirigidas pela própria Sylvia. Quando se está trabalhando na produção de um determinado espetáculo a gente fica impregnado da essência do tema, a gente vive, almoça, janta e dorme com o tema, assim o resto é só deixar fluir.

Poiésis - Quais os projetos e planos para divulgar esse trabalho?
Marco Aureh - Este ano vamos cair na estrada para divulgar esse trabalho com o espetáculo intitulado Viagem Musical Brasileira, que batizamos com a sigla V.M.B. É uma viagem de trem, aonde vamos parando por várias estações e cada estação é uma referência a um ritmo brasileiro. Estação Caruaru (Recife) toca um frevo, estação Xapuri (região norte) tocamos um boi-bumbá, e por aí vai. E tem também o Projeto Escola, que é um trabalho voltado às crianças. Esse projeto já está em pleno andamento. Ano passado fizemos algumas escolas, entre setembro/outubro. A idéia é fazer uma turnê pelo país, participando de eventos ligados à literatura e à educação.

Poiésis - Qual tipo de apoio você está tendo para divulgação desse trabalho?
Marco Aureh - A produção do disco teve o apoio da Fundação Cultural Petrópolis e mais as Editoras FTD, Nova Fronteira, Scipione e Saraiva, com as quais já estamos negociando para uma segunda edição. Agora, a divulgação e distribuição são de caráter independente e o nosso produtor executivo é o Paulo Roberto Lisbôa.

Poiésis - Marco, dá para perceber o efeito que sua música junto com as letras da Sylvia têm exercido sobre as platéias para as quais você tem se apresentado?
Marco Aureh - É uma coisa maravilhosa. Primeiro porque é um show de verdade, sem a preocupação com a idade da platéia. É claro que tem brincadeiras, a parte lúdica. A platéia sempre participa. Eles fazem a locomotiva, quando o trem está saindo da estação. Cantam junto e de uma forma geral há uma grande interação. É um show com muita luz, cenários, figurinos... esses detalhes ajudam na integração. Eles embarcam nessa viagem lúdica e nos contagiam com seu entusiasmo. Em princípio achei que fosse um espetáculo para a faixa etária de seis anos para cima. Mas me enganei. Com a experiência fomos colocando crianças menores e elas participaram com muita intensidade. Está sendo muito gratificante. Nunca tinha feito um show para crianças pequenas com todo esse aparato de um espetáculo musical normal, com a estrutura de um musical. O resultado é excelente.

Poiésis - Quem mais participa do projeto de divulgação da obra de Sylvia Orthof?
Marco Aureh - O Teatro do Livro Aberto, do Fernando Vianna, que agora esta remontando O Cavalo Transparente, que ano passado esteve em cartaz no Rio. Na ocasião a trilha sonora deste espetáculo foi indicada para o prêmio Maria Clara Machado. Fui um dos fundadores do Teatro do Livro Aberto. Eu, Sylvia, Marise Manhães e o Fernando Vianna viajamos pelo Brasil apresentando espetáculos de Sylvia Orthof. Numa dessas viagens acabei me casando. No Rio Grande do Sul, num congresso de literatura conheci uma passofundense e estamos casados há onze anos.

Poiésis - Em que circunstâncias você conheceu a Sylvia Orthof?
Marco Aureh - Estávamos encenando História de Lenços e Ventos na Sala Afonso Arinos, em Petrópolis, aí a Sylvia e o Tato, marido dela, no meio de uma cena aberta, bateram palmas de pé, assim, bastante empolgados com o espetáculo. Aí ela veio falar com a gente no final, convidou o grupo para a montagem de uma peça dela. O grupo era o Pessoal Aí, e que existe até hoje. E me orgulho muito de ter sido um de seus fundadores. O espetáculo era O Cavalo Transparente, a partir daí começamos a montar os espetáculos da Sylvia. Depois do Cavalo, foi Ponto de Tecer Poesia, Se As Coisas Fossem Mães, Zé Vagão da Roda Fina, sem contar uns três ou quatro que foram musicados e não chegaram a ser encenados. Ainda tem muita coisa inédita, por isso temos idéia de fazer outro disco dentro da mesma temática. A família da Sylvia tem sido muito bacana em relação a esse projeto. Sobretudo a Claudia Orthof. O retorno afetivo tem sido extraordinário. Com a primeira tiragem estamos divulgando o trabalho nas escolas em inúmeras cidades do país, em congressos de literatura, para a imprensa e uma boa parcela para a Fundação e as Editoras. Fico muito feliz de estar lançando este trabalho e agradeço muito ao Paulo Roberto Lisbôa, que foi amigo pessoal da Sylvia e que acreditou no projeto.

[Para maiores informações sobre a VMB, Viagem Musical Brasileira, visitar os sites www.marcoaureh.cjb.net ou www.cantandosylvia.hpg.com.br]