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Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 83 - fevereiro de 2003 |
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| NA
CONTRAMÃO E NA BANGUELA, COM A LÍNGUA Paschoal Motta |
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| Já se tornou corriqueiro ler ou escutar, nos meios de comunicação, um enunciado com graves impropriedades na Língua Portuguesa. Uma balbúrdia: se correto gramaticalmente, vem disparatado, com significação truncada, duvidosa, insossa, e/ou mal articulado verbalmente; se coloquial, ridículo e fora de ambiente. A incompetência generalizada está pegando firme na Língua de Camões aqui no Brasil! Nada justifica tanta agressão contra o ainda bonito Português. Não falemos aqui das inserções vocabulares e frasais alienígenas, no geral inoportunas e humilhantes. E já afetam a sintaxe, onde reside o maior desacerto. Nada de xenofobismos, mas até quando carregar esse fardo secular de colonialismo cultural subserviente? Um idioma, ser pulsante, se transforma, naturalmente, na sociedade que o pratica. Mas, esse fator pode não ser bem compreendido e realizado por muitos que têm no Vernáculo sua ferramenta principal de ofício. É ler, escutar e se arrepiar. Modo geral, confirma-se que esse profissional nem terminou o Primário, e se arvora em comunicador, com uma salada mista, e intragável, de pronomes de tratamento, concordâncias estranhas, pronúncias esdrúxulas, ritmos dissonantes e o mais. E o vocabulário ortográfico legalizado? Esse é confuso, um mal necessário! E quem o conhece e pratica sem grande dificuldade? Ditadura gramatical,
nem pensar, mas compreender que o testemunho de cidadania duma sociedade
começa no respeito de cada utente à Língua Nacional,
com amor e prática sensata no aproveitamento consciente de suas
modalidades, potencialidades e possibilidades em diferentes tempos, ocasiões
e lugares. Não é isso o constatado: em áreas profissionais
de manifestação falada e escrita, um descalabro se desenvolve,
como jamais: desde o Governo Federal a estabelecimentos de ensino, professores
(até de Língua Portuguesa), publicitários, jornalistas,
editores, tradutores, escritores, executivos, advogados, reitores de universidade.
Atropelam e desfiguram a indefesa e última Flor do Lácio!
Estressam os mais vividos! Desiludem os esperançosos renitentes!
Prejudicam seriamente a mocidade em formação! Com veiculação quase instantânea de novidades, e insistentemente deterioradas, esses profissionais degradam a Língua de modo rápido e irreversível. Testemunhamos inusitada transição das linguagens para o banal, para o pobre, para o chão, para o grosseiro, para o palavroso inexpressivo, por displicência e ignorância de quem devia ser responsável por melhor utilização da Língua com que se apresenta. Corrompendo nossa consciência brasileira no trato diário com a Língua Mãe, perdemos a liberdade pessoal e coletiva, além da emoção, que nos caracteriza e transfigura nas expressões artísticas populares e eruditas. Nenhum sistema lingüístico
vivo é imune a influências externas e transformações
internas, mas viajamos com a Língua Portuguesa em velocidade muito
acima do permitido pelo código, morro abaixo, na contramão
e na banguela. |
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