Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 82 - dezembro de 2002

O ESCULTOR DENNIS CROSS E A POLÍTICA
DE TOMBAMENTO DO ATUAL IPHAN

A Fundação Cultural de Petrópolis contratou o artista plástico Dennis Cross para elaborar um pequeno busto em homenagem a Zumbi dos Palmares, e que seria inaugurado na Praça da Liberdade (cujo nome em si justifica o local escolhido) no dia 20 de novembro de 2002 (dia da consciência negra). O escritório local do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN proibiu, entretanto, a instalação da obra, sob a alegação de encontrar-se tombada a praça, nada ali devendo ser modificado sem que haja um entendimento de um projeto com a Secretaria de Planejamento do Município, que, no entanto, já aprovara e lhe encaminhara a instalação do busto na praça. Por conseguinte, a proibição seguiu critérios burocráticos diferentes do alegado.

 
 

POIÉSIS - A Praça da Liberdade, em Petrópolis, tem um aspecto eclético, com monumentos de proveniência e estilos diferentes. Mas, o ecletismo, em si, é uma característica do Romantismo a que a cidade está ligada. Além disto, recentemente, o bar Marowill, que existe dentro da praça, foi bastante ampliado, admitindo mesmo uma torre que parece um segundo andar, tirando as características de uma praça pública. O IPHAN tem seu escritório aparentemente adormecido em frente à praça. De repente, no entanto, parece despertar para implicar com seu pequeno busto. Você acha que isto se deve ao fato de você ser um anarquista, que decidiu viver de escultura, produzindo obras que culturalmente sejam significativas, como o grupo escultórico Santo Antônio dos Pobres dedicado a Puebla, entronizado na Catedral de Petrópolis, ou o símbolo da liberdade em Zumbi, e o IPHAN ache que, para preservar a Cidade Imperial deve combater um artista livre, que aos olhos do século XIX seria um subversivo?
DENNIS CROSS - Acredito que o IPHAN colocou-se numa postura autoritária a serviço do conservadorismo, mostrando-se despreparado para lidar com a arte e os artistas, que, afinal, atuam questionando, provocando e materializando o seu tempo. Talvez tudo isto represente bem a Liberdade a que a praça se refere, e por isto a tenham também por subversiva. Qual é o poder do IPHAN para controlar o desenvolvimento de uma praça pública, com seus bodinhos, crianças, velhos, namorados e sonhos da cidade? O despreparo do IPHAN chegou ao ponto de uma carta de um seu funcionário sugerir que a estátua ficaria melhor perto do Palácio de Cristal (do lado de fora e num lugar nem um pouco representativo como é a Praça da Liberdade), porque foi no Palácio de Cristal que "foi assinada a Lei Áurea", confundindo o Palácio de Cristal de Petrópolis com o Paço do Rio de Janeiro... Juro que o cara cometeu esta gafe por escrito (e assinou!)...

POIÉSIS - O IPHAN foi o órgão idealizado, praticamente, pelos intelectuais modernistas brasileiros, e sua criação em 1938 foi um marco inaugural de preocupação do Estado pelo nosso patrimônio cultural. Ele é o resultado de luta de pessoas que se voltavam à pesquisa e compreensão da cultura brasileira, como Rodrigo M. F. de Andrade ou Mário de Andrade. 64 anos após, o entusiasmo destes desbravadores, que valorizaram a tempo um patrimônio que se estava perdendo, como a cidade de Ouro Preto, por exemplo, teria se tornado em pura burocracia de alguns funcionários, sem nenhum entusiasmo, dentro de uma estrutura que se esclerosou? Será que isto pode explicar o ódio pela obra de arte e pela idéia de liberdade que a proibição de sua escultura significou?
DENNIS CROSS - Não consigo imaginar o IPHAN de Petrópolis sem bolar imagens kafkianas de estruturas burocráticas escuras, perdidas em si mesmas em seus ideais mofados. A cidade de Petrópolis, que é, no Brasil, a mais representativa do século XIX, como Ouro Preto é do século XVIII, foi sendo descaracterizada ao longo dos últimos 50 anos, sem que o IPHAN nada fizesse, e agora tenta fincar pé numa pequena escultura em praça pública, onde se procura louvar a LIBERDADE!!! É ou não é coisa kafkiana?

POIÉSIS - Após a criação do IPHAN, um segundo momento significativo da gerência do Estado em nosso patrimônio, deu-se com a atuação no âmbito público de Aloísio Magalhães. Tornou-se clássica a sua classificação das duas vertentes de cultura: a de criação e a de preservação. Ambas devem ser cuidadas pelo Estado. Teriam os atuais burocratas do IPHAN desconhecimento do dinamismo cultural que levará sempre à criação, a ponto de quererem congelar num espaço indefinido (o pior é que é um espaço de vários períodos, estilos, significados) uma praça pública de uma cidade que o próprio IPHAN não cuidou o suficiente para se descaraterizar em aspectos muito mais representativos que possuía? Falta sensibilidade aos encarregados pela sensibilidade de nossas manifestações?
DENNIS CROSS -
Como disse numa entrevista anterior, a História se faz todos os dias, tudo está em movimento. Bom, já que a burocracia para ser isenta de favoritismos exige concursos, sugiro ao Governo Federal que no próximo inclua um teste de sensibilidade. Quem sabe o IPHAN e outros órgãos públicos consigam se humanizar?

POIÉSIS - A cultura é o referencial da própria expressão de uma nação, e por ela bem se pode compreender o grau de seu desenvolvimento. Uma atitude chã como a da proibição do IPHAN de se inaugurar uma pequena escultura libertária numa praça pública de estilo e manifestações ecléticas, poderia ser representativa de um certo descuido do atual governo federal na atuação de seu Ministério da Cultura. Como artista libertário você está otimista quanto a uma real mudança de política no futuro governo Lula, que sai de uma esperança popular de transformação de nossas instituições acomodadas?
DENNIS CROSS
- Sinto-me otimista, sim, porque acredito que será um Governo que caminhará sem medo e com autocrítica, onde todos deveremos, verdadeiramente, integrá-lo. Assim, estaremos mais atentos ao engessamento de nossas liberdades por pessoas ou instituições. Os debates deverão sair dos gabinetes para as ruas. Encerrando, gostaria de dizer que o que está em discussão é muito maior do que a visibilidade do busto do Zumbi. O que se discute aqui é o direito de visibilidade do negro.