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Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 82 - dezembro de 2002 |
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O ESCULTOR DENNIS
CROSS E A POLÍTICA A Fundação Cultural de Petrópolis contratou o artista plástico Dennis Cross para elaborar um pequeno busto em homenagem a Zumbi dos Palmares, e que seria inaugurado na Praça da Liberdade (cujo nome em si justifica o local escolhido) no dia 20 de novembro de 2002 (dia da consciência negra). O escritório local do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN proibiu, entretanto, a instalação da obra, sob a alegação de encontrar-se tombada a praça, nada ali devendo ser modificado sem que haja um entendimento de um projeto com a Secretaria de Planejamento do Município, que, no entanto, já aprovara e lhe encaminhara a instalação do busto na praça. Por conseguinte, a proibição seguiu critérios burocráticos diferentes do alegado. |
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POIÉSIS
- A Praça da Liberdade, em Petrópolis, tem um aspecto eclético,
com monumentos de proveniência e estilos diferentes. Mas, o ecletismo,
em si, é uma característica do Romantismo a que a cidade
está ligada. Além disto, recentemente, o bar Marowill, que
existe dentro da praça, foi bastante ampliado, admitindo mesmo
uma torre que parece um segundo andar, tirando as características
de uma praça pública. O IPHAN tem seu escritório
aparentemente adormecido em frente à praça. De repente,
no entanto, parece despertar para implicar com seu pequeno busto. Você
acha que isto se deve ao fato de você ser um anarquista, que decidiu
viver de escultura, produzindo obras que culturalmente sejam significativas,
como o grupo escultórico Santo Antônio dos Pobres dedicado
a Puebla, entronizado na Catedral de Petrópolis, ou o símbolo
da liberdade em Zumbi, e o IPHAN ache que, para preservar a Cidade Imperial
deve combater um artista livre, que aos olhos do século XIX seria
um subversivo? POIÉSIS
- O IPHAN foi o órgão idealizado, praticamente, pelos intelectuais
modernistas brasileiros, e sua criação em 1938 foi um marco
inaugural de preocupação do Estado pelo nosso patrimônio
cultural. Ele é o resultado de luta de pessoas que se voltavam
à pesquisa e compreensão da cultura brasileira, como Rodrigo
M. F. de Andrade ou Mário de Andrade. 64 anos após, o entusiasmo
destes desbravadores, que valorizaram a tempo um patrimônio que
se estava perdendo, como a cidade de Ouro Preto, por exemplo, teria se
tornado em pura burocracia de alguns funcionários, sem nenhum entusiasmo,
dentro de uma estrutura que se esclerosou? Será que isto pode explicar
o ódio pela obra de arte e pela idéia de liberdade que a
proibição de sua escultura significou? POIÉSIS
- Após a criação do IPHAN, um segundo momento significativo
da gerência do Estado em nosso patrimônio, deu-se com a atuação
no âmbito público de Aloísio Magalhães. Tornou-se
clássica a sua classificação das duas vertentes de
cultura: a de criação e a de preservação.
Ambas devem ser cuidadas pelo Estado. Teriam os atuais burocratas do IPHAN
desconhecimento do dinamismo cultural que levará sempre à
criação, a ponto de quererem congelar num espaço
indefinido (o pior é que é um espaço de vários
períodos, estilos, significados) uma praça pública
de uma cidade que o próprio IPHAN não cuidou o suficiente
para se descaraterizar em aspectos muito mais representativos que possuía?
Falta sensibilidade aos encarregados pela sensibilidade de nossas manifestações? POIÉSIS
- A cultura é o referencial da própria expressão
de uma nação, e por ela bem se pode compreender o grau de
seu desenvolvimento. Uma atitude chã como a da proibição
do IPHAN de se inaugurar uma pequena escultura libertária numa
praça pública de estilo e manifestações ecléticas,
poderia ser representativa de um certo descuido do atual governo federal
na atuação de seu Ministério da Cultura. Como artista
libertário você está otimista quanto a uma real mudança
de política no futuro governo Lula, que sai de uma esperança
popular de transformação de nossas instituições
acomodadas? |
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