Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 82 - dezembro de 2002

A TRAGÉDIA GREGA E A OPOSIÇÃO
NATUREZA X CULTURA

Cecília A. Fernandes

 

A oposição entre mito e cultura é um conflito que acompanha o homem desde tempos imemoriais. A presença e a força dessa oposição é bastante clara e rica na obra trágica. Uma análise atenta e especifica do século V em Atenas, nos dá a noção de como o homem grego clássico funde o passado profundamente mítico, inscrito na ordem aristocrática, ao despertar da consciência e da valorização do homem, que pela via do racionalismo modifica a estrutura política - através da democracia - e acaba por desprezar o caráter mítico que fora a marca daquela sociedade.

A preocupação com a existência, que estrutura a tragédia grega, teve seu canal de expressão graças ao advento da democracia, que, com o seu conceito revolucionário de isonomia, põe em questão o equilíbrio, o limite, a desmedida, conceitos essenciais, ao redor dos quais se edificou a tragédia.
O culto e a valorização do homem, cujo apogeu se dá no século V, e que se expressou na democracia como novo sistema de governo, suscitam também alguns problemas decorrentes da busca incessante da perfeição. Embora este século seja conhecido por nós como o mais fértil e intenso do ponto de vista artístico, o surgimento da tragédia nos faz pensar no aumento de uma tensão entre esse passado mítico, expresso pelo ritual teatral e pela presença ativa dos deuses e a nova tônica, agora colocada sobre o homem.

Razão e mito, travam uma disputa extremamente rica e indiscutivelmente original na tragédia, cujo maior beneficiado era o espectador. A obra trágica, enquanto conservou sua estrutura clássica, ou como quer Nietzsche1 , antes de Eurípides, foi um canal de expiação desta tensão entre a tradição mítica e a nova visão racionalista do homem.

O avanço da mentalidade cientificista neste período é responsável pela intensificação do choque entre a onipotência do saber que "endeusa", levando o homem a ultrapassar limites inimagináveis, e a real condição humana que é imperfeita , falível e enganosa.

Em termos políticos, a democracia se mostra também como um exercício de limite para o homem, tanto no plano puramente existencial quanto na sua expressão política.

Apesar de existirem discussões recentes e inéditas sobre a formação da tragédia, a sua ligação com os rituais dionisíacos, revela-se quase indiscutível. É esta ligação com Dionísio, entidade relacionada umbilicalmente à natureza, essencial para demonstrar como a transformação sofrida pela tragédia na Grécia Antiga, afetou a nossa capacidade de lidar com as agruras da condição humana.
Em Sófocles encontramos o equilíbrio mais estável do paradoxo natureza & cultura, porém é também em sua época que se gestam novos caminhos para o pensamento humano que acabarão por liquidar a fórmula mágica do trágico.
Junto ao culto e a valorização do homem, e ao ímpeto imperialista da Atenas do tempo de Péricles, desenvolve-se também uma nova forma de pensar o mundo, baseada em parâmetros científicos e racionais, que teve papel fundamental no estabelecimento da democracia. As mudanças se operam em nível filosófico, político e pedagógico, acabando por atingir também as manifestações artísticas.
È Eurípides que incorpora na tragédia, a mudança dinâmica que se operava no pensamento do homem grego, trazendo para o teatro questões do cotidiano individual, e abrindo caminho para a racionalização das emoções. Em Medéia por exemplo o discurso trágico está claramente influenciado pelos sofistas, que pela retórica eram capazes de transformar e justificar qualquer ação, utilizando pontos de vista subjetivos. A atmosfera criada no período de formação das leis, acaba dando nova forma a obra trágica por introduzir a justificação e a relativização na ação dos personagens, assim como a crítica social. Dessa forma, fazendo eco às posições de Nietzche, a tragédia acaba por perder o seu próprio sentido de ser, na medida em que abandona cada vez mais a sua porção mítica, de ligação com a natureza e se encaminha para o racionalismo deste novo período cientificista.
Eurípides é o representante inconteste dessa nova tendência racionalista na poesia. Na formação dos dramas do poeta contribuíram o realismo, a retórica sofista e a filosofia, que formariam também o helenismo posterior. A tragédia é atingida no seu âmago por essas tendências que elevam a razão ao mais alto patamar, provocando a relativização de todos os valores até então consagrados.
Para Nietzsche2 , Eurípides é responsável pela morte da tragédia exatamente por colocar em cena o espectador comum e oferecer-lhe explicações racionais através de seus personagens, que na forma de prólogos explicam e antecipam a ação posterior, subestimando a capacidade de compreensão dos indivíduos. Dessa forma, ele abandona a característica principal da tragédia que se cultivava no jogo mítico e que representava tão ricamente os paradoxos inerentes ao homem agravados pelo alargamento da liberdade política. A representação do divino e do humano em Ésquilo e Sófocles, passa, - em função do elevado nível de racionalização então em vigor - , respectivamente, às categorias "coração" e "pensamento" em Eurípides, provocando uma desmistificação na oposição natureza e cultura. Ésquilo e Sófocles colocam em categorias simbolicamente distintas esses dois conceitos, operando, graças a essa divisão, sentimentos de profunda identificação no público, que na própria ação ritual expia o conflito. Ao desprezar a simbolização mítica e a intervenção divina, e fazer com que natureza e cultura fiquem num mesmo plano - no íntimo do homem - , Eurípides abre caminho também para a racionalização das emoções.

Seguindo as bases do pensamento socrático, Eurípides criou novos caminhos para chegar à emoção; no entanto, os novos trilhos já não correspondiam aos impulsos considerados por Nietzsche como os únicos possíveis e verdadeiros : o espírito apolíneo e o dionisíaco. O que nos dois primeiros tragediógrafos era puro entusiasmo dionisíaco, irracional e inconsciente, em Eurípides será sentimento ardente , copiado do cotidiano e da realidade. Já o que pertencia à esfera do apolíneo, transformou-se em pensamento frio e paradoxal. Com este novo perfil, a tragédia acabou por acompanhar o "socratismo estético", cujas diretrizes podem se resumir a uma frase : "tudo deve ser inteligível para ser belo". Em função desse protagonismo da consciência, os elementos simbólicos e míticos tão peculiares à tragédia clássica são modificados para servir ao entendimento do espectador, supondo que a intuição não pode ser meio para entender o que quer que seja; apenas a consciência é capaz de atingir a inteligibilidade. Assim sendo, Eurípides introduz, por exemplo, um prólogo, no qual, através de um único personagem e de forma didática (no sentido que nos é familiar) conta quem é, o que precedeu a ação e o que acontecerá depois, deixando entrever a sua orientação para o racionalismo.

Dentro da "dessacralização" dos mitos, a retórica teve papel fundamental ao transformar a poesia em linguagem cotidiana. Percebemos no novo discurso trágico, além da eloqüência jurídica tão impregnada no discurso daquele tempo, a habilidade da argumentação lógica, como se vê neste trecho de Medéia, onde Jasão argumenta:

"- Tu me prestaste serviços, muito bem! Entretanto, como prêmio por meu salvamento, recebeste mais do que me deste, e vou prová-lo. Primeiramente, em lugar de um país bárbaro, agora habitas a Grécia. Aprendeste a conhecer a justiça, a recorrer às leis em lugar da força. Tua ciência tornou-se famosa em toda Grécia, alcançaste assim a glória. Mas se habitasses ainda os extremos da terra, não se falaria em ti. Pouco me importaria a mim possuir tesouros em meu palácio, ou saber cantar melhor que Orfeu, se não devesse essa fortuna ser de todos conhecida. Eis o que tinha a dizer sobre meus trabalhos, já que começaste este debate... "3 .

Na retórica sofista, quanto mais difícil a defesa, maior era a arte de converter a pior coisa na melhor. O ponto de vista subjetivo do acusado era o meio de transformação e relativização da culpa. Na passagem acima transcrita, vemos como Jasão se utiliza da retórica para subverter a sua posição no quadro que o acusa.

A subjetivação da responsabilidade jurídica no direito penal e na defesa frente aos tribunais, no tempo de Péricles, estava se tornando, de fato, um problema de graves conseqüências, que ameaçava diluir as fronteiras entre a culpabilidade e a inocência.

A substituição da fé pela razão criou grandes abismos morais e deu lugar a essa nociva contemporização que atingiu profundamente o âmago da tragédia. A relativização aniquila definitivamente o conflito trágico, uma vez que este se fundamenta exatamente na impossibilidade de conciliação, não admitindo abrandamento, nem acordo com o novo estilo urbano em vigor.

O teatro trágico dificilmente teria se formado e desenvolvido sem a democracia, não só porque graças a essa nova forma de governo foi permitida a entrada de Dionisos na pólis, mas porque a própria discussão travada entre mito e razão - ou numa visão mais ampla entre natureza e cultura - procura um equilíbrio entre os dois planos. Este equilíbrio é também a grande procura da democracia que se estrutura sobre o conceito de isonomia.

A evolução da democracia com suas lutas partidárias, práticas demagógicas e disputa pelo poder, e principalmente por ter como pano de fundo o cientificismo, faz com que se perca o caráter profundamente filosófico da isonomia, a qual no futuro não será debatida da mesma forma na tragédia.

A invasão da arte pelo vulcão de transformações que se operavam em nível político, jurídico e mental, acaba por destruir o mito, principal sustentáculo da tragédia. A batalha empreendida e ganha contra o mito desloca o sentido profundamente existencial da tragédia de Ésquilo e Sófocles, cujo eixo era o da luta incessante entre natureza e cultura. Com Eurípides, as questões são outras, embora a forma continue similar à dos outros dois; a discussão agora diz respeito apenas à validade e legitimidade das instituições criadas pela sociedade, as quais, graças à invasão racional, passam a ser questionadas uma a uma. A expulsão de Dioniso da tragédia é sintoma claro da gênese de uma nova sociedade, onde não haveria mais espaço para a catarse coletiva, para o irracional e para o instinto.

Notas:

1 NIETZSCHE, Friedrich. A origem da tragédia. São Paulo: Ed. Moraes. 1984, passim.
2 NIETZSCHE, op. Cit., passim.
3 EURÍPIDES. Medéia/ As Bacantes/ . São Paulo: Abril Cultural, 1976 p. 25