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Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 82 - dezembro de 2002 |
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PIAZZOLLA: DIEZ
AÑOS DESPUÉS Hamilton César
de Castro Carvalho |
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Gênero musical
a compasso binário sincopado, o tango é produto de um inegável
hibridismo cultural, do qual a Argentina em ascensão foi, ao mesmo
tempo, cenário e desaguadouro sociais. Nas raízes do tango
estão o tango andaluz (donde o nome tango), de origens hispânicas,
a habanera, dança hispano-cubana de Havana, trazida à Argentina
pelos marujos dos navios vindos daquela ilha caribenha, o candombe - batuque
afro-americano das comunidades negras do rio da Prata - e a milonga, originariamente
o canto dos payadores ou improvisadores de versos, equivalente platino
dos nossos conhecidos repentistas nordestinos. Primitivo e desestruturado
em seus primórdios, o tango arcaico - se assim podemos chamá-lo
- aos poucos se sofisticou sob as influências andaluzas e cubanas
ou, como se diz na Argentina, el tango se aporteñó, tornou-se
portenho, urbanizado, o que aqui pode ser entendido como europeizado. Era um tango malandro,
bem dançado e não se admira que, pelas quebradas e "breques"
de seus ágeis passos, tenha influenciado visceralmente a gafieira
carioca dos anos 30. Em 1917 Enrique Santos Discépolo compôs
El Choclo, o primeiro tango cantado, um verdadeiro divisor de águas
na história do tango. Morria a Vieja Guardia e nascia a Nueva Guardia.
O velho tango coreográfico, ainda machista, em que os homens dançavam
uns com os outros, assistiu estupefato à ascensão do tango
cantado e, para horror do machismo então vigente nos meios tangueros,
viu as mulheres literalmente entrarem na dança. A Velha Guarda desaprovou
haver a danza de arrabal saído da periferia proletária portenha
para os salões da pedante e arrogante elite local, não sem
antes vencer a implacável oposição que, de início,
lhe moveu esta mesma elite que o reputava imoral, obsceno e proletário
demais para as perfumadas mocinhas que moravam nas mansões de Palermo
e Olivos (a "zona sul" portenha) e que, como tal, torciam o
nariz a este ritmo híbrido de origens populares, calcado em raízes
estrangeiras e na contribuição a ele dada pelos imigrantes
pobres que foram os artífices do milagro económico argentino
dos anos 20. Pouco a pouco, o tango
ascendeu socialmente, ganhando popularidade na voz de cantores famosos
como Carlos Gardel, o mito, a lenda viva, o "Rouxinol das Américas",
como o chamavam então. A ascensão social do tango cobrou-lhe,
entretanto, o elevado preço de ter perdido em autenticidade o que
ganhara em prestígio social. Trocou o linguajar de um lunfardo
pesado e pornográfico, assim como as críticas sociais e
políticas, por letras mais elegantes e apolíticas, abrindo
espaço aos poetas e letristas mais eruditos, compondo-se politicamente
com as classes dominantes do país, elitistas e europeizadas, cujo
estilo de vida gravitavam em torno ao domínio econômico do
capital inglês e às influências culturais francesas
e italianas. Enfim, para o bem e para o mal, o tango aburguesou-se, virou
danza de salón e ganhou as paradas de sucesso, dando fama vertiginosa
a cantores como Carlos Gardel, Agustín Magaldi e Libertad Lamarque,
fato para o qual a incipiente era do rádio e a indústria
fonográfica na Argentina desempenharam papel fundamental. Não poderia
omitir aqui a relação entre o tango e o lunfardo, termo
que, em Buenos Aires, define originariamente o malandro típico
desta grande metrópole platina. Evoluiu este como um jargão
cifrado dos bairros mais pobres da periferia portenha, quase uma linguagem
secreta de um grupo social fechado, verdadeiro idioma paralelo ao castelhano
oficial. O lunfardo, sua malandragem e sua contracultura paralela, que
hoje tem até mesmo uma Academia de cunho privado, influenciaram
profundamente a gíria, a dança de gafieira e a malandragem
cariocas dos anos 20 e 30. Os ágeis e difíceis passos do
tango estão, até mesmo, nas raízes coreográficas
do conhecido samba-de-breque carioca. Este linguajar paralelo
nos legou termos até hoje ainda usados no quotidiano coloquial
carioca e fluminense, como grana ("grana": dinheiro), otario
("otário": indivíduo enganável), bacán
/ bacana ("bacana": grã-fino ou grã-fina, gente
fina), gavión ("gavião": sedutor de mulheres),
fayuto ("fajuto": falso, falsificado), barra pesada ("barra
pesada": o mundo da delinqüência), irse en cana (ir "em
cana", ser preso) e tantos outros. O lunfardo recorreu, e ainda recorre,
a curiosas inversões silábicas como gotán (inversão
silábica de tango), gomía (inversão de amigo) e narique
(inversão de querida), inversões estas que, mais curiosamente,
ainda, seguem as mesmas normas de acentuação ortográfica
da língua espanhola culta. Este inesgotável manancial de
comunicação coloquial paralela embebeu-se prodigamente de
fontes estrangeiras, adaptando palavras do francês, do italiano,
do inglês, do português (via Brasil), do alemão e,
até mesmo, de corruptelas do próprio castelhano oficial
como quedau (quedado, particípio do verbo espanhol quedar: ficar)
ou tenés, em lugar de tienes (forma flexionada do verbo tener:
ter), sabés (sabes: forma flexionada do verbo saber) e assim por
diante. Este tango da época áurea, agora guindado a música da nova classe média argentina, revela as diversas facetas da sociedade, centrando suas letras em figuras fetiche da sociedade burguesa, como a mãe, la madre, mulher básica na vida do homem argentino, influência cultural da mamma italiana, matriarca da família e esteio do lar burguês; havia a noiva, la novia casta y pura, a mulher para casarse e também las cabareteras, as mulheres de cabarés, com quem o homem argentino se iniciava sexualmente e com quem também aprendia os primeiros passos do tango. Temáticas recorrentes nos tangos da época foram também a crítica social, posteriormente abrandada na fase do peronismo, a pujança urbana e a vida febril de Buenos Aires (tema do tango Mí Buenos Aires Querido), o deslumbramento do argentino interiorano com a capital e também as saudades da vida simples da província, tema do clássico Adiós Pampa Mía. A trágica morte
de Carlos Gardel, em 1935, chocou o mundo do tango mas não lhe
impediu a trajetória de sucesso, que duraria até meados
dos anos 50. Este apogeu coincidiu com o segundo surto de prosperidade
material da Argentina, paradoxalmente assegurado pela primeira fase da
ditadura peronista, que foi de 1944 até a morte de Eva Perón
em julho de 1952. O tango e peronismo se entenderam e se acomodaram implicitamente,
como se entre ambos existisse um secreto e implícito pacto de recíproca
não-ingerência. Enquanto os tangueros da época se
omitiram da crítica social e política, cujas demandas tinham
sido em grande parte atendidas pela política social do peronismo,
este "pegou carona" no prestígio internacional do tango
que agiu, mesmo inconscientemente, não só como uma espécie
de marketing da ditadura e dos interesses econômicos da Argentina
mas também como "cortina de fumaça" para encobrir,
no exterior, as mazelas e a brutalidade que a ditadura militar-populista
do peronismo impusera ao país. O então novo
tango da Guardia Nueva, surgido nos idos em 1920 já dava sinais
de cansaço por volta de 1952/1953, ocasionado talvez (não
há provas concretas disto) pela morte de Eva Perón em julho
de 1952, fato que lançou a nação em um estado de
patológica comoção social, ao qual seguiu-se uma
perda da auto-estima popular e um vácuo ideológico que marcou
o início do declínio peronista que, até 1955, ainda
sobreviveria por inércia. Esgotadas suas possibilidades de continuar
a evoluir dentro de um mesmo estilo o tango viu-se, nos idos de 1950,
diante do dramático dilema de inovar-se ou morrer fadado a se tornar
um anacronismo saudosista de tempos melhores. Mas a ex-Nueva Guardia,
que os novos tempos já tornaram velha, se recusava à renovação,
para isto concorrendo a já clássica tendência, tão
comum no inconsciente coletivo do argentino, de sempre olhar em direção
ao passado e de viver de recordações de dias melhores. Tal
tendência não é reacionarismo político, é
um saudosismo sentimentalóide mesmo, é aquela patológica
nostalgia pura e simples de aquellos tiempos que non volverán jamás. Entretanto, um novo
nome surgiria no cenário tanguero: Astor Piazzolla. Já no
remoto ano de 1943, ele inicia suas composições de cunho
mais erudito. Estudou música com Alberto Ginastera e piano com
Raul Spivak, ex-discípulo de Stravinsky. Estudou em Paris com Nadia
Boulanger, a qual instou-o a retornar ao tango e ao bandoneón.
Viveu toda a juventude em Nova York, onde tomou contato com o jazz norte-americano.
Piazzolla entregou-se de corpo e alma ao bandoneón, tornado em
seus dedos geniais um instrumento solo, não mais o obscuro e secundário
coadjuvante instrumental que havia sido até então. Compõe,
a par de música quase erudita, tangos famosos como El Desbande,
Adiós Nonino, uma comovente elegia em homenagem à morte
de seu pai, falecido em 1959, Contrabajeando, Tzigane Tango, que Daniel
Barenboim gravou recentemente ao piano em arranjo quase "chopiniano"
e o famoso ciclo das estações do ano conforme vistas e sentidas
por ele, de forma bem impressionista, na atmosfera cultural de Buenos
Aires, a saber o Verano Porteño, Invierno Porteño, Primavera
Porteña e o Otoño Porteño. O interlúdio nova-iorquino
de Piazzolla não ficaria "impune": envolve-se com o jazz
e com o modernismo de Béla Bártok e Stravinsky. Falhou na
sua experiência com o jazz-tango mas foi melhor assim: o jazz-tango
não era jazz nem tango. No início dos
anos 60, a mídia televisiva argentina tentou, sob influência
de novos ritmos estrangeiros e pelo nefasto e avassalador domínio
da contracultura do rock, impingir ao tango argentino, quer ao novo, quer
ao moderno ao estilo Piazzolla, o injusto rótulo estereotipado
de anacronismo musical, vinculando-o a um contexto passado remoto e a
um eventual saudosismo da Argentina peronista. Hoje, Piazzolla é tão endeusado na Argentina quanto Carlos Gardel, Eva Perón ou Diego Maradona. É com satisfação pessoal que assisto a este revival cultural do tango argentino, bem como a criação da Academía Nacional del Lunfardo e seu respectivo bacharelado em Tango, além da Academía Porteña del Lunfardo. A contracultura do rock-and-roll ainda exerce, inclusive na Argentina, sua nefasta influência no processo de desagregação e descaraterização das culturas musicais nacionais mas a politizada juventude do país, tão ciosa de seu proverbial patriotismo e de seu anti-americanismo histórico, hoje tenta rever sua posição acerca do dilema rock ou tango, passando a ver neste último não apenas o produto da casa mas, sobretudo, o veículo musical de uma revalorização do país face ao avanço perigosamente desnacionalizante da decadente contracultura do rock norte-americano.Dez anos depois de sua morte, Piazzolla revive na verve de seu tango nuevo e na suave melancolia de seus magníficos arranjos para o bandoneón. Hoje seu nome é o novo divisor de águas do tango argentino, que doravante passou a ter dois períodos distintos: antes e depois de Piazzolla. O resto é discussão absolutamente estéril e inócua. BIBLIOGRAFIA: ASUNÇÃO,
Fernando O. GESUALDO, Vicente: GOBELLO, José:
Breve Historia Crítica del Tango. Editora Corregidor |
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