Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 82 - dezembro de 2002

NOSSO VELHO MODERNISMO

Gerson Valle
poeta, membro do conselho editorial de Poiésis

 
 

"Venham portanto os bons incendiários de dedos carbonizados!... Ei-los aqui! Ei-los aqui!... E metam logo o fogo nas prateleiras das bibliotecas! Desviem o curso dos canais para inundar as sepulturas dos museus!... Oh! que elas, as telas gloriosas, nadem à deriva! Para vocês as picaretas e os martelos! Escavem os fundamentos das cidades veneráveis!" 1

No início do século XX, espocaram diversos manifestos em busca de uma nova estética para os novos tempos. Parecia que estes se tinham desgarrado inteiramente do curso tradicional de nossa História. A tecnologia subia à cabeça dos jovens. O século XX viera para libertar as amarras com todos os costumes, tradições e fontes de conhecimento do passado. Como se, de repente, a Humanidade tivesse dado um salto que a projetasse para uma outra existência, caracterizada pela velocidade dos automóveis e dos aviões (em contraste com a tração dos cavalos e a impossibilidade de voar - note-se que há aí nesta mudança, efetivamente, uma virada tão completa que os meios de locomoção não seguem uma trajetória evolutiva continuada. Transformaram-se em outro fenômeno, sem precedentes). Os grandes centros se adensam, necessitando da construção de arranha-céus que formam grandes conglomerados. A competição se torna mais acirrada, crescendo, em conseqüência, o individualismo na luta pela sobrevivência. E com ela, o ritmo de vida se apressa, como se tudo seguisse a velocidade dos aviões e das então chamadas "baratinhas" de corrida (o que equivalia aos carros da fórmula 1 de hoje em dia)... Os artistas consideravam que era preciso transformar suas estéticas também, dando algum tipo de salto que deixasse para longe toda a forma de apreciação que até então se tinha seguido em suas manifestações. E é assim que Marinetti recomenda, em seu "Manifesto do Futurismo" de 1909, que se destruam as bibliotecas e os museus. Para um século que trazia uma rotina veloz sem precedentes, tudo deveria ser novo, inédito, com a vitalidade dos jovens!

E se multiplicam os manifestos voltados a uma transformação na estética das artes. Aquele espírito de renovação, que já despontara no final do século XIX e produzira manifestos como o "Decadente" e o "Simbolista", tornava-se então obrigatório pela crescente transformação tecnológica que o século XX trazia em vários aspectos da existência. E é assim que se sucedem movimentos fortes nas artes como o citado Futurismo, o Expressionismo, o Cubismo, o Cubofuturismo, o Dadaísmo, o Espiritonovismo, o Surrealismo, o Neovanguardismo, cada um deles, em geral, publicando mais de um manifesto, e tendo mesmo mais de uma ramificação em suas linhas gerais 2 .

Todas as linguagens do passado devem ser condenadas. O que equivale a se desprezar toda a arte existente, pois nada representava mais a velocidade do século vinte, a forma de vida que a modernidade trouxe, como se a Humanidade que houvera antes dos 1900 fosse outra, e outras suas necessidades. André Breton, em seu "Manifesto do Surrealismo" (de 1924), ironiza a linguagem do romance tradicional de tal forma, que chega a dizer que "o caráter circunstancial, inutilmente particular, de cada uma das anotações" dos romancistas, "faz-me pensar que eles se distraem à minha custa". E, tentando demonstrar a inutilidade das descrições pautadas na análise do real, similaridade, verossimilhança, que aparecem nos romances "do passado", cita um parágrafo onde o autor descreve um quarto de uma casa. O parágrafo é nada mais nada menos que de Dostoiévski, no livro "Crime e Castigo". Ou seja, Breton não ataca a má literatura. Mas, vê como ultrapassada e sem interesse para a modernidade o que há de melhor no gênero romance. É todo o passado que ele condena, em troca da tal escrita automática, que representaria o inconsciente e o mundo dos sonhos por onde deveria, na opinião propagada pelos surrealistas, transitar a verdadeira arte...
Destas "audácias" dos movimentos modernistas, duas conseqüências bastante sérias devem ser notadas: a crítica e os meios acadêmicos, de uma forma geral, passaram a considerar como sendo superiores todas as manifestações artísticas de vanguarda, como se a qualidade da obra de arte estivesse submetida a uma constante necessidade de renovação. O simples fato de se renovar passou a ser padrão para aferição da boa qualidade em arte! Os "experts", aliás, passaram a temer o grande fiasco de repetirem o desprezo acadêmico pelos impressionistas, que os obrigou a formar o "Salon des refusés", que passaram para a História como mais importante que os artistas do Salon oficial... (E este é o exemplo clássico ainda do século XIX, que parece ter sido o grande trunfo dos modernistas que se seguiram aos impressionistas). O mais importante passou a ser renovar, e, para isto a teorização da obra de arte tornou-se cada vez de maior importância; os novos conceitos substituíram a apreciação da obra em si. Afinal, apreciação por apreciação poder-se-ía para sempre apreciar as obras acabadas de um renascentista ou barroco. E isto é passado, que não equivale mais à realidade trazida pelos novos tempos... Então, a apreciação, simplesmente, tornou-se inútil. O importante passou a ser apresentar algo que pudesse representar uma novidade. Assim se estaria na linha da modernidade... O conceito é que tornou-se importante. E para dá-lo não importa o meio, contanto que não contenha mais elementos apreciados no passado anterior ao século. E a segunda conseqüência veio por uma aceleração na renovação, chegando a ponto de a arte tornar-se meio suicida, não visando mais a permanência, tudo se tornando velho pelo revezamento das sempre novíssimas escolas... Enquanto isto, o grande público, perdendo as referências que o ligavam à arte, afastou-se das vanguardas experimentais, e, assim, da arte que os críticos nomeiam como atual, do nosso tempo, viva...
Por outro lado, as posturas renovadoras, como não podia deixar de acontecer, acabaram fixando-se em alguns moldes, que, por não se terem popularizado, continuam a ser vistas como pertencentes a uma estética da contestação, e assim aceitas como dignas de figurar como contemporâneas, pois a contestação é o critério mais venerado pelos críticos, em seu medo de errarem o julgamento, como ocorreu com o impressionismo...

No ano que se encerra de 2002, a Semana de Arte Moderna brasileira tornou-se octogenária. E continua a ser moderna, seus participantes encarados ainda como revolucionários, só por terem tido um comportamento contestador à época, o que os torna eternamente modernos... (Curiosamente, Machado de Assis, que morreu apenas 14 anos antes, é visto como antigão em seu fraque de outras eras... Ele não vivera o "nervosismo moderno do século XX"...) Aliás, esta classificação, que deveria ser transitória, acabou perpetuando-se até na História. Esta é Moderna desde o século XV... Vivemos já seis séculos de modernidade. O único termo que diferencia o tempo em que vivemos é a contemporaneidade, o que, também, traz uma conotação transitória. A pobreza desta classificação terminológica é tão grande, que não se sabendo como apontar para algumas tendências artísticas do final do século XX que reviam várias posições dos diversos "modernismos" do próprio século, inventou-se que estamos vivendo uma época pós-moderna! O que consiste, convenhamos, num absurdo: como é que podemos ser posteriores ao novo, moderno? Parece o triunfo do surrealismo, que se expandiu para a terminologia das artes. E, na História, algumas correntes disseram que ela acabou, chegou ao fim... Não apenas para fazer blague, mas não seria pela impossibilidade dela continuar depois de ter sido Moderna e Contemporânea?
O que deve rever-se não é, entretanto, somente uma questão terminológica. Acho que ela é importante e confunde os conceitos. Não se pode mais chamar de Moderno tudo que se refira ao século XX, quando já não estamos neste século e ele já não deveria ser o referencial de modernidade para nós. Mas, sobretudo, os conceitos a que os críticos do século XX elevaram a modernidade está em tempo de serem revistos. O condizente com uma faceta dos tempos de nervosismo agressivo e contestador não pode mais servir de critério para o julgamento da qualidade de uma obra de arte ou literária. Neste enquadramento chegou-se a preferir o anti-social, o viciado, o violento, como sendo o mais condigno com o comportamento artístico!!! De certa forma isto ainda foi um legado vindo do Romantismo, com seus byrons incestuosos e perfumados a ópios, de que os nossos ingênuos álvaros de azevedo, para poderem se dizer poetas, tinham de arquitetar uma vida que não lhes era em nada coerente à educação e meio em que viviam.

A agressividade do Manifesto Futurista, citado em epígrafe, diz bem do espírito de seu autor, Marinetti, que duas décadas depois iria dar o braço a Mussolini. O belicismo contra o passado, de tudo queimar para refazer, como se só a novidade merecesse viver, por ser compatível com a força da juventude, é uma declaração aberta de ideologia fascista! O tempo da Giovinezza. E o futurismo é um movimento que atrairá muitas das outras modernidades de princípio do século XX. Nossos próprios modernistas foram muito confundidos com o futurismo. Mário de Andrade negou que houvesse tal identificação, no Prefácio interessantíssimo, da "Paulicéia desvairada", apesar de reconhecer alguns "pontos de contacto", o que é sincero, uma vez que, ao contrário do futurismo, Mário aí se confessa "passadista". "Ninguém pode se libertar duma só vez das teorias-avós que bebeu"3 é uma frase onde parece voltar-se contra o vandalismo futurista de destruir todo passado. Mas, ao citar Bilac, necessitando opor-se ao parnasianismo, ao mesmo tempo que confessando a admiração pelo livro Tarde, contradiz-se afirmando que "Bilac representa uma fase destrutiva da poesia; porque toda perfeição em arte significa destruição". Neste sentido, há um resquício de Marinetti também nele, opondo-se à obra acabada representativa de um passado, mesmo que a admire... Acho que o nosso Modernismo construiu mais do que destruiu, legando-nos toda uma roupagem de identificação mais natural em nossa cultura, mas, ainda assim, é importante que os conceitos do "modernismo" de época sejam aí também revistos... Afinal, o mesmo Mário, numa conferência comemorativa dos 20 anos da Semana, já empreendera, corajosamente, uma "autocrítica" ao movimento de 22. Redimindo-se, escreveu o libreto para uma ópera onde a questão social tomava pulso, O Café (Em 22, seu libreto As Enfibraturas do Ipiranga tinham uma postura contrária, inconseqüente). Infelizmente, o parceiro escolhido, Francisco Mignone, jamais o musicou .

No Manifesto Surrealista, já citado, também está expressa, como em Marinetti, a idéia de substituição por obras novas de todo o passado. E é curioso que os principais líderes deste movimento tenham aderido, após o manifesto, à outra tendência totalitária da época, tornando-se stalinistas... É fácil hoje criticar-se o posicionamento político daquele tempo, que oscilava entre os extremismos de esquerda e de direita. Neste ponto, nosso criticismo vê bem as armadilhas em que caíram algumas gerações do século XX. Mas, por que, em arte e literatura, tem-se tanta dificuldade em perceber as mesmas ciladas de posicionamentos extremados, totalitários?

Na verdade, Marinetti, ao querer queimar toda arte do passado, não passa de novo inquisidor com sua "fogueira moralizadora", fascistão que não convivia bem com a arte, sempre libertadora. Quem queira queimar um Da Vinci, um El Greco, um Goya, todos os museus do mundo, não gosta de arte, decididamente. Seu gosto identificava-se com as paradas militares dos camisas negras, e não com uma sinfonia de Beethoven... Como Breton ao dizer não ter paciência de ler uma descrição de Dostoiévski está se voltando contra a literatura. Pergunto: que autor surrealista substitui os romances de Dostoiévski? Acho que ficaram na intenção... Mesmo porque o legado cultural não pede substituição, mas continuidade. E é idiota continuarmos com as loas aos tais "modernismos" como sendo a última palavra de nossa avaliação. Superamos os fascismos em política. Por que ainda nos atemos a eles em arte? E o que é pior, endeusando esta velha modernidade como se fosse o único parâmetro a ditar o nosso gosto!?

Notas:

1 Manifesto do Futurismo, de Marinetti, 1909.
2 O interessado em tais manifestos, encontra-os no excelente "Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro", de Gilberto Mendonça Teles, 15a edição, Editora Vozes, 1999, de onde tirei as citações traduzidas.
3 Andrade, Mário de - "Poesias Completas", Livraria Martins Editora S.A., 1955