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Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 81 - novembro de 2002 |
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"SÉCULO ALGUM", DE CAMILO MOTA Fernando Py |
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Quando Camilo Mota
reuniu seus poemas no volume Tríade (1998), composto de três
coletâneas: Cântico (1992), Bálsamo (1994), e uma parte
inédita, Miserere - escrevi que sua poesia já alcançara
a maturidade expressional, conseguida não somente com o "amadurecimento
visível de um volume para outro", mas também pelo despojamento
das vivências anteriores, ou melhor, "assimilando-as de tal
maneira que passassem a fazer parte do seu ser, engrandecendo-o aos poucos."
Analisando a sua poesia, livro a livro, mostrava de que modo o poeta ia
abrindo novas aberturas em seus textos, até chegar à madureza
de Miserere. Cidade Nua (p. 19-55)
é a parte mais substancial do livro, compreendendo 32 poemas em
verso ou prosa, precedidos por uma epígrafe tirada a Juan Ramón
Jiménez. O que se destaca, na superfície, é a imagética
surrealista dessa poesia, mas de um surrealismo enganoso pois não
se trata de um surrealismo genuíno (ao menos nos moldes da escola
de André Breton), mas de uma busca permanente e obsessiva pela
metáfora inédita, pela imagem ainda não trabalhada
em poesia. Um bom exemplo é "ela se despe / como um soneto
/ ao sol" de 'Lírica número 1' (p. 23, dedicado à
esposa Regina Mota). Por outro lado, a
força poética do autor se mostra igualmente em textos mais
longos, como 'Canção como vida', em que, a partir do título,
Camilo Mota desenvolve e atribui novos elos semânticos à
poesia a partir de associações homofônicas de palavras
(comovida) e onde o poema se termina num toque surpreendente e que de
certa forma lembra a antiga chave de ouro dos sonetos parnasianos: "Meu
tempo é um menino mimado pela mão de todo ser" (p.
24). O mesmo ocorre no final de outro poema excelente, 'Fatídico
setembro' (p. 28): "Morreu como quem / aprende repentinamente / a
andar de bicicleta". Mas a prova de que isto não é
característica da poesia de Camilo estás em que dois outros
poemas de primeira plana, 'Cidade' (p. 29) e 'Verdades' (p. 32) dispensam
esse recurso há muito ultrapassado. Porém a mestria técnica
do poeta se revela em outro recurso, como vemos em 'Planuras' (p. 34):
a disposição isolada de certas palavras, à esquerda
da página, pode formar um poema (ou um flash lírico) independente
do corpo do poema; assim: "O verso falava de / mendigos / ao certo.
/ Todos horizontes." (A pontuação é minha.),
numa concisão que lembra o haicai japonês - concisão
de que Camilo exibe um belo exemplo em 'Canção do exílio'
(p. 27). E a grandeza da poesia do autor também pode ser medida
pela profundidade poética obtida em versos de um certo matiz circunstancial,
como os dedicados ao pai, à filha e à amiga falecida. A parte final do volume, Ayam, o sonho (p. 57-70), é composta de doze poemas em prosa sem título, apenas numerados. Precede-os epígrafe tirada a uma carta do poeta Edimílson de Almeida Pereira ao autor, que de certa forma dá o "tom" desse poemas. Nesses textos, tudo é vida, tempo que passa/passou, e o poeta, mais que nunca, exibe sua "poesia visceral, anímica, cotidiana" (p. 62). Mas a expressão desse cotidiano, como temos visto, sofre uma clivagem, refratada pelo olhar especial do poeta. A expressão "século algum" indica uma nulidade ("nenhum século") ou, quando muito, uma singularidade ("século algum será como este", por exemplo). Ou seja, o poeta aponta não apenas para uma indiferença ou ausência do mundo em relação aos sentimentos ou dores individuais, como também para a importância individual dessas dores e sofrimentos. Daí, a aposta na linguagem renovada pelas metáforas inusitadas, no apelo ao misticismo esparsamente disseminado em todo o livro. A poesia de Camilo Mota atinge aqui um patamar de realização antes não alcançado e se reafirma como uma das melhores dentre os nossos contemporâneos. |
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