Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 81 - novembro de 2002

"SÉCULO ALGUM", DE CAMILO MOTA

Fernando Py
poeta, membro do conselho editorial de Poiésis e da Academia Petropolitana de Letras.

 
 

Quando Camilo Mota reuniu seus poemas no volume Tríade (1998), composto de três coletâneas: Cântico (1992), Bálsamo (1994), e uma parte inédita, Miserere - escrevi que sua poesia já alcançara a maturidade expressional, conseguida não somente com o "amadurecimento visível de um volume para outro", mas também pelo despojamento das vivências anteriores, ou melhor, "assimilando-as de tal maneira que passassem a fazer parte do seu ser, engrandecendo-o aos poucos." Analisando a sua poesia, livro a livro, mostrava de que modo o poeta ia abrindo novas aberturas em seus textos, até chegar à madureza de Miserere.
Neste Século algum (Petrópolis: Poiésis, 2002, 74p.; prefácio de Gérson Valle), Camilo Mota mantém esse tom maduro que já o distinguira no livro de 1998. Os textos do livro são divididos em três partes: Preâmbulos, Cidade Nua e Ayam, o sonho. Preâmbulos (p. 9-17) se compõe de sete pequeninas notações líricas, sem título, apenas numeradas, um tanto aforismos, um tanto flashes do cotidiano e/ou instantes poéticos. As mais expressivas me parecem as de número 2 ("o tempo me diz mais do que o relógio na sala") e 5 ("quantas pessoas / só conheço / de memória"). Mas em todas se mostra sobretudo o poeta que surpreende, o poeta que sabe extrair do cotidiano o insólito, a notação inesperada e anti-rotineira, numa atmosfera um tanto surreal, como no de número 4: "ouvindo dadawa /sorvo o som / sonata e chuva / folha e flauta / a voz flutua-me".

Cidade Nua (p. 19-55) é a parte mais substancial do livro, compreendendo 32 poemas em verso ou prosa, precedidos por uma epígrafe tirada a Juan Ramón Jiménez. O que se destaca, na superfície, é a imagética surrealista dessa poesia, mas de um surrealismo enganoso pois não se trata de um surrealismo genuíno (ao menos nos moldes da escola de André Breton), mas de uma busca permanente e obsessiva pela metáfora inédita, pela imagem ainda não trabalhada em poesia. Um bom exemplo é "ela se despe / como um soneto / ao sol" de 'Lírica número 1' (p. 23, dedicado à esposa Regina Mota).

Por outro lado, a força poética do autor se mostra igualmente em textos mais longos, como 'Canção como vida', em que, a partir do título, Camilo Mota desenvolve e atribui novos elos semânticos à poesia a partir de associações homofônicas de palavras (comovida) e onde o poema se termina num toque surpreendente e que de certa forma lembra a antiga chave de ouro dos sonetos parnasianos: "Meu tempo é um menino mimado pela mão de todo ser" (p. 24). O mesmo ocorre no final de outro poema excelente, 'Fatídico setembro' (p. 28): "Morreu como quem / aprende repentinamente / a andar de bicicleta". Mas a prova de que isto não é característica da poesia de Camilo estás em que dois outros poemas de primeira plana, 'Cidade' (p. 29) e 'Verdades' (p. 32) dispensam esse recurso há muito ultrapassado. Porém a mestria técnica do poeta se revela em outro recurso, como vemos em 'Planuras' (p. 34): a disposição isolada de certas palavras, à esquerda da página, pode formar um poema (ou um flash lírico) independente do corpo do poema; assim: "O verso falava de / mendigos / ao certo. / Todos horizontes." (A pontuação é minha.), numa concisão que lembra o haicai japonês - concisão de que Camilo exibe um belo exemplo em 'Canção do exílio' (p. 27). E a grandeza da poesia do autor também pode ser medida pela profundidade poética obtida em versos de um certo matiz circunstancial, como os dedicados ao pai, à filha e à amiga falecida.

A parte final do volume, Ayam, o sonho (p. 57-70), é composta de doze poemas em prosa sem título, apenas numerados. Precede-os epígrafe tirada a uma carta do poeta Edimílson de Almeida Pereira ao autor, que de certa forma dá o "tom" desse poemas. Nesses textos, tudo é vida, tempo que passa/passou, e o poeta, mais que nunca, exibe sua "poesia visceral, anímica, cotidiana" (p. 62). Mas a expressão desse cotidiano, como temos visto, sofre uma clivagem, refratada pelo olhar especial do poeta. A expressão "século algum" indica uma nulidade ("nenhum século") ou, quando muito, uma singularidade ("século algum será como este", por exemplo). Ou seja, o poeta aponta não apenas para uma indiferença ou ausência do mundo em relação aos sentimentos ou dores individuais, como também para a importância individual dessas dores e sofrimentos. Daí, a aposta na linguagem renovada pelas metáforas inusitadas, no apelo ao misticismo esparsamente disseminado em todo o livro. A poesia de Camilo Mota atinge aqui um patamar de realização antes não alcançado e se reafirma como uma das melhores dentre os nossos contemporâneos.