Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 81 - novembro de 2002

O SENTIDO DA VIOLÊNCIA NA CIDADE DE DEUS

Gerson Valle
poeta, membro do conselho editorial de Poiésis..

 
 

Uma das boas linhas do cinema nacional, desde o aparecimento do Cinema Novo, seguia, sob alguns aspectos, o neorrealismo italiano do pós-segunda guerra. Nelson Pereira dos Santos enveredou por este caminho em seu admirável Rio, 40 graus e no Rio, zona norte. A década de 60, com sua excitação de drogas e misturas de concepções diversas em prol da transformação do mundo em um novo milênio, trouxe o gênio do Gláuber Rocha, mais afeito, se assim se pode dizer, a um realismo mágico do que um puro realismo. E isto foi tão forte na década que o próprio Nelson Pereira dos Santos iria passar por experimentalismos como o do Azyllo muito louco, não abandonando mais as cenas do imaginário (como em O amuleto de Ogum e em Terceira margem do rio), ele que tão bem realizara o mais bem acabado realismo em nossa cinematografia, que é a obra-prima Vidas Secas.
Mas, a linha que parecia seguir o neorrealismo tem tanto a ver com a forma de encarar nossos problemas sociais (e é de lembrar que a Itália do pós-guerra passava por enormes dificuldades de sua população, que a escola em questão foi o melhor achado para retratá-la artisticamente), que não poderia sumir da vista de nossos realizadores. Também o exagero das concepções misturadas em conflitos de nossa sociedade formada num melting-pot se ajusta bem à espécie de realismo mágico ou visão transtornada e apaixonada de um Terra em transe. Desta forma, tanto o realismo puro quanto o distanciamento dele, por metáforas exacerbadas ou meios megalômanos saídos de nossa diversidade e revolta pelas injustiças sociais, à la Castro Alves, tanto uma quanto outra postura são de boa tradição brasileira. Assim, tanto a expressão um tanto apocalíptica da década dos hippies e retornos a misticismos no desejo de mudança do mundo quanto o forte carisma de Gláuber no Brasil foram influentes, tanto que um cineasta como Cacá Diegues, por mais realistas que fossem as intenções artísticas ou temperamento, não pôde deixar de se levar pela linguagem alegórica, tão bem realizada, aliás, em obras como Xica da Silva ou Bye-bye Brasil.

Entretanto, o mesmo Cacá, na década de 90, parece-me falhar nesta linha alegórica, ao transplantar no tempo a bela adaptação da lenda de Orfeu que fizera Vinícius de Moraes no teatro. A minha impressão é que, diante de uma realidade já tão transtornada quanto se tornou a vida em nossas favelas (e que toma conta gradativamente das cidades e de todos nós) não há que se fazer mais alegorias. O simples retrato já toma formas alucinantes. Talvez por perceber isto, ele tirou o lirismo da peça do Vinícius, que era a sua grande sustentação, chegando mesmo a empobrecer-lhe musicalmente, fazendo "um musical quase sem música", o que demonstra encontrar-se perdido ante o tema a que se propôs. Na verdade, Diégues parecia usar de Vinícius como uma muleta, para trilhar um caminho no clima violento das favelas de nosso tempo, onde ele não soube caminhar por seus próprios pés. E onde o musical da década de 50 não serviu para mantê-lo em pé.
Curiosamente, é no caminho lírico que o neorrealismo retoma a linha de nossos filmes nos últimos anos, e é Walter Salles quem de forma primorosa muito honra a tradição lírica de encarar a realidade vinda desde De Sica/Zavatini, na incontestável obra prima que é Central do Brasil. E neste ano de 2002 surge um outro filme excepcional, Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, que usam como atores os favelados que desejam retratar (e que atingem um desempenho, pela qualidade da direção, que não compromete em nada a qualidade do filme), tal como a mesma dupla italiana citada fizera com os também favelados em Milagre em Milão (onde o neorrealismo encontrou, excepcionalmente, também a linguagem alegórica para demonstrar a necessidade de fuga da frieza do mundo capitalista), ou com os pobres do maravilhoso Ladrões de bicicleta e tantos outros de seus filmes.

Em Cidade de Deus o realismo é o mais cru que se possa apresentar. Ao contrário do citado Orfeu, passado no mesmo ambiente violento de traficantes das favelas, Meirelles não pede muletas a ninguém, filmando diretamente o próprio povo do local, quase que num documentário. E de tal sorte o tema está centrado no ambiente e personagens que a impressão que se tem, vendo o filme, é que a realidade é inexoravelmente aquela que nos envolve durante a projeção, não se podendo escapar dos conceitos, hábitos, agressividade que toma conta de todos daquele lugar. O filme, em sua intensidade dramática, joga o espectador dentro da realidade que deseja mostrar, na qual ele se habitua desde a primeira seqüência, parecendo sempre ter vivido naquela cultura... Isto só uma bem acabada obra de arte, como é o caso deste filme, consegue fazer.

Entretanto, não é raro ouvir-se de pessoas até intelectualmente bem informadas que não gostam de um filme tão "violento"... E isto me faz refletir: de que estas pessoas não gostam? O filme é violento ou a realidade que expõe que é violenta? São as mesmas pessoas que desgostam, por exemplo, de uma obra primíssima como Laranja mecânica, de Stanley Kubrick, por não perceberem que o perigoso mundo extremamente individualista e agressivo que nos ameaça o futuro, é de uma probabilidade real e é também função da obra de arte nos fazer refletir (sentindo) sobre nossa condição humana presente, passada e provável para o futuro. Se tais pessoas fossem coerentes não deviam gostar das tragédias shakespeareanas, por exemplo, com todas as violências de suas mortes e personagens perversos... Mas, em Shakespeare elas compreendem que a violência está sendo mostrada para refletirmos sobre a alma humana... Isto porque foram educadas, parece-me, para gostarem de Shakespeare, mas não sabem se educar para uma história contemporânea... Violentos, sim, são muitos filmes norte-americanos, que são levados até para a infância, onde os personagens não vivem culturalmente em um lugar primitivo como a Cidade de Deus, e cujas seqüências são idealizadas apenas para tirar o ócio dos espectadores com assassinatos a sangue frio, esquizofrênicos que parecem pessoas educadas e que de repente mandam bombas para toda parte... (Aliás, tais filmes ou retratam de fato a esquizofrenia do americano médio, ou eles influenciaram tanto o povo americano que sua esquizofrenia se espalhou até em seu presidente, que deseja, literalmente, jogar suas bombas no povo iraquiano, sob o pretexto do Iraque ter os armamentos que os EEUU sem dúvida possuem...). A violência não está na realização do filme Cidade de Deus, mas sim, é claro, na Cidade de Deus que o filme retrata. E tal retrato, tão bem realizado, acaba por se tornar o oposto da propagação da violência, pois nos faz meditar sobre a cultura em que esta violência se desenvolve, dando-nos oportunidade de refletir politicamente a respeito. E é claro que qualquer transformação só pode ocorrer a partir de uma reflexão, muito mais louvável, a meu ver, quando se origina de uma obra artística, que nos envolve com seu valor telúrico, sentimento, aflição.

A obra de arte atua na formação individual, e encaminha-a à reflexão e fruição do mundo, ou a sua alienação. A cultura atual está muito mais voltada, de uma forma geral, à fruição inconseqüente da indústria cinematográfico-televisiva comercial norte-americana, que não predispõe a qualquer reflexão (de ordem estética ou social), mas somente busca o impacto da imagem, cada vez com mais violência e cenas de sexo, embrutecendo a fruição do espetáculo, alienando cada vez mais os espectadores. Mas, nenhuma manifestação cultural é gratuita. A moça de 19 anos, de classe privilegiada, morando em casa com piscina e cursando o primeiro ano de uma faculdade de Direito, que participa do assassinato dos pais a pauladas, evidentemente, não tem outra formação cultural que a estupidez agressiva dos filmes comerciais de nossas televisões. O primeiro ano da faculdade de Direito deveria estar-lhe inspirando uma reflexão sobre o significado do próprio Direito, com suas definições, como a do clássico Ulpiano que fala em Justiça, Equidade... Como alguém com estas preocupações poderá tratar do assassinato dos pais a pauladas? Na verdade, nossas faculdades não trazem mais reflexão alguma sobre os assuntos que tratam, e a referida mocinha pode perfeitamente freqüentá-la, vir mesmo a se diplomar, e não ter a mínima preocupação com o significado do Direito! O Humanismo já não faz parte da formação de quem assiste pauladas nos pais em filmes da televisão como sendo momentos de necessária excitação pela imagem, sem relação alguma com a realidade. Mas, esta, quando lhe vem, não pode ser tratada de forma diferente.

Ao contrário dos filmes comerciais norte-americanos, Cidade de Deus nos coloca em face da realidade crua que nos cerca, e a sua violência nos obriga a cogitar humanisticamente... A tal mocinha monstruosa, de tão parva, chegou a declarar que seu crime foi por amor... Porque seus pais não queriam que namorasse o monstrengo que os assassinou a pauladas... Se algum dia sua cabecinha viciada em não refletir, conseguir perceber a sua realidade, terá de dar razão aos pais que não a queriam perto de um cara que é um assassino. Mas, se ela conseguir refletir, como poderá encarar a consciência? Naturalmente, será muito mais cômodo viver inconscientemente, sem encarar de frente seu horrendo crime. E é nesta inconsciência que a cultura predominante de nosso tempo nos coloca, para que não vejamos com clareza a violência que nos cerca. Por isto eu não entendo quando pessoas de tendência humanística não vêem a importância do cinema e de filmes como Cidade de Deus.

É curioso observar, sobre esta questão do intelectual livresco, por exemplo, que não compreende o significado artístico de um filme, que os desentendimentos entre diversas linguagens artísticas é mais comum do que se pode esperar. Imagina-se que alguém que penetre nos conceitos e meandros de uma arte, tenha sido atraído originariamente por uma indagação mais geral sobre os ofícios humanos, com interesse numa visualização genérica de todos os nossos potenciais, no princípio de colaboração em prol de um desenvolvimento orgânico, com vista a uma sociedade que se compreenda melhor, mantendo a relação com o lúdico em todos os seus componentes. Por tal imaginação, calcula-se que todo artista ou intelectual visualiza a cultura como um todo coeso, conhecendo-lhe as correspondências das linguagens, e se preocupe mais com o que de humano isto possa significar. Doce ilusão! Além da preocupação estético-formal sobrepassar em algumas linhas a função humanística da arte, nem todos os artistas são, o que hoje se chama de "politicamente corretos"... Grande parte desconhece o mundo cultural que não esteja em sua faixa de atuação. No Brasil é comum pessoas intelectualizadas citarem autores de uma grande complexidade estética em literatura e artes plásticas, por exemplo, e quando se referem à música sequer saberem o que compõem os brasileiros seus contemporâneos, como Jorge Antunes, Ronaldo Miranda, Ernani Aguiar, Edino Krieger, Gustavo Bauer, Almeida Prado, Ricardo Tacuchian, David Korenchendler, Marlos Nobre, João Guilherme Ripper, etc (E como temos bons criadores nesta área!). Música brasileira, para tais pessoas, é a de alguns cancioneiros (sem que com isto me queira desfazer da forma cancioneira, mas, há que se reconhecer, é bem simples, está a léguas de poder encerrar o significado musical de nosso tempo! sobretudo comparado com o nível dos autores de outras áreas com que a pessoa intelectualizada enche a boca para citar...).

A expressão "politicamente correto" é engraçada, mas, de certa forma pode-se inferir que o artista imbuído de humanismo, bem como o intelectual que especula sobre a autenticidade do ser e sua relação social deveriam estar ao lado dos partidos políticos que buscam uma sociedade mais justa, protegendo, racional e sentimentalmente, os valores humanos. No entanto, há sempre artistas e intelectuais dos vários lados dos mandos e desmandos de nosso governantes. Lembro-me o quanto fiquei chocado, por exemplo, quando, ainda adolescente, tendo uma admiração imensa por Jorge de Lima, considerando-o dos nossos maiores poetas, soube que ele fora parlamentar da reacionária UDN, partido à época representante das oligarquias dominantes, contrário à toda tentativa de mudança de nossas atrasadas estruturas dos desníveis sociais abissais, típico partido defensor do statu-quo, do capital internacional, domínio da cultura norte-americana a despeito de nosso próprio desenvolvimento, etc. Ele que, literariamente, representava uma força tão grande de nossa cultura!
Há bons pintores que se deliciam nos diálogos infantilizados das novelas de televisão... Há poetas que não sabem nada do mundo dos neoconcretistas em artes plásticas. E o mais curioso é que, de tal forma, a ignorância fora da área é comum, que as críticas, por exemplo, que Affonso Romano de Sant'Anna vem fazendo há quase 1 ano, todo sábado, no caderno Prosa e Verso do jornal O Globo, a certas manifestações da arte contemporânea (sobretudo ao conceitualismo duchampiano), tendo ele demonstrado um conhecimento fabuloso do assunto, independentemente de ter ou não razão em suas argumentações, são rebatidas por alguns teóricos apenas alegando não ser ele um homem da área! A que ponto chegamos: a música é feita para músicos, as artes plásticas para os artistas plásticos, a poesia para os poetas... E quanto aos argumentos usados por Affonso, sequer se dignam responder, pois não conversam com quem não se diplomou por sua escola... Ponha-se academismo nesta postura! E como a sociedade se empobrece nesta onda tecnológica, dos grandes especialistas em apertar parafuso... A deficiência na visão humanística mais ampla abre mais lugares para os desníveis sociais e injustiças.

De certa forma, entretanto, tenho de admitir que tais separações de setores artísticos acabaram por se incorporar à nossa cultura, e com ela conviver. E, claro, não posso deixar de gostar, como gosto, de Jorge de Lima e de tantos e tantos artistas que não parecem coerentes com a visão de mundo em contraste com o humanismo de suas obras, ou mantém coerências que escapam à minha própria perspectiva, que para eles é que pode ser deficiente... A compreensão humana, também, segue idiossincrasias complicadas. Mas, uma obra de arte tem um valor por si, independente da trajetória do próprio criador. Não posso, entretanto, deixar de lamentar que as relações de obras e posicionamento geral do artista possam estar desfocadas, às vezes, de uma forma bem grosseira... Uma reflexão maior sobre esta questão necessitaria um espaço também maior do jornal, ou, melhor, de um livro!

Mas, cada vez que puder pronunciar-me sobre um filme, onde percebo aspectos que atingem o âmago da realidade social e artística de nosso tempo, não posso me furtar de lembrar: olha, o cinema não é um simples lazer descomprometido com nossa função intelectual e estética, que apresenta fatos desconjuntados estruturalmente (com relação à obra e a seu meio). Portanto, deixa-me fazer um pedido: assistam Cidade de Deus, que tanto tem a ver com nossa realidade. E analisem, por favor, a construção coerente a um ritmo alucinado dentro de um ambiente fechado em sua própria indigência de educação, e vejam se não é magnífica a construção cinematográfica para retratar tal meio em tal linguagem, expressando a violência de tal sociedade, e não venham dizer que o último ato de Hamlet devia se passar num açougue...