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Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte - nº 81 - novembro de 2002 |
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Anarquismo: sim ou não? Hamilton César
de Castro Carvalho |
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Data de tempos imemoriais
a preocupação humana com a edificação de sociedades
perfeitas, concebidas desde Platão a George Orwell, passando por
Tommaso Campanella, Santo Agostinho, Saint Simon e Thomas Morus. Em que
pese a inegável importância destes pensadores denominados,
talvez equivocadamente de "socialistas" utópicos, o impacto
de suas respectivas obras se limitou tão somente às elites
pensantes e intelectuais de suas respectivas épocas, jamais atingindo
a grande massa e, muito menos ainda, modificando as relações
sociais e econômicas no domínio concreto e palpável
da história. Hobbes via nele a
imagem alegórica do temível Leviatã bíblico
e Rousseau o instrumento de corrupção da pureza original
do gênero humano. Marx e Engels, opondo-se ferozmente à glorificadora
e triunfalista apologia de Hegel ao Estado prussiano de Frederico II,
viram no aparato estatal o instrumento material e o legitimador moral
de uma sociedade de escravos e senhores e ente protetor da propriedade
privada dos meios de produção. Seria injusto, entretanto,
culpar Marx e seu ideário claramente libertário e anti-estatizante
pelo posterior culto estalinista ao Estado soviético totalitário
e burocratizado, pelo horror dos expurgos promovidos por Stalin na década
de 1930, pelos arquipélagos Gulag ou, ainda e finalmente, pelas
clínicas psiquiátricas da era Brejnev, versões mais
"light" do inferno estalinista, com suas lúgubres masmorras
e seus paredões de fuzilamento. Esta glorificação
do Estado, que tanto acomete setores das esquerdas hodiernas e que tanto
desfigura e empobrece o pensamento de Marx, não passa de desviacionismos
patológicos da era pós-marxista, abertamente incompatíveis
com o visceral ódio de Marx à figura do Estado burocrático
e totalitário. Lamentavelmente e
contrariando até mesmo a visão anti-estatizante do marxismo
teórico, o culto ao Estado todo-poderoso permanece como absurdo
cavalo de batalha de uma esquerda que, incoerentemente e em frontal oposição
ao próprio Marx, ainda insiste em se auto-rotular como "marxista".
Desculpem-me se não pude aqui evitar as aspas de uma amarga mas
assumida ironia. Seria pura e inútil ociosidade intelectual discutir
até que ponto a sociedade comunista sem classes idealizada por
Marx sinaliza (como eu o creio pessoalmente) ou não na direção
da edificação de uma nova ordem social anarquista. Em princípio,
tudo indica que sim, na medida em que o "comunismo" de Marx,
que não é o dos regimes totalitários de esquerda,
se reveste de todas as características básicas de uma sociedade
anarquista, quais sejam, a abolição do Estado, da propriedade
privada dos meios de produção, da economia monetária
e da divisão da sociedade em classes sociais antagônicas.
Se, contudo, a extinção do Estado dar-se-ia por um processo
de gradual auto-superação histórica, como queria
o socialismo ou se por uma violenta ação exógena,
como queria o anarquismo, é questão historicamente irrelevante,
na medida em que, por vias históricas diversas, tanto socialistas
quanto anarquistas elaboraram suas sociedades idealizadas a partir de
uma visão política que excluía o Estado como uma
necessidade imperiosa a que o homem edificasse, no domínio concreto
da história, os alicerces de uma sociedade perfeita. Entretanto, é
necessário levantar aqui a crucial porém realista questão
da viabilidade concreta da extinção do Estado bem como a
da classe burocrática e a de todos os mecanismos de coerção
social dele decorrentes. Uma coisa é preconizar a supressão
da entidade estatal como um anacronismo histórico dispensável
à civilização; outra bem diversa, porém, é
a de se indagar até onde o grau e o nível de desenvolvimento
atingido pela civilização humana poderiam viabilizar o velho
sonho utópico de que o Estado tradicional pudesse se eclipsar da
história e tornar-se um anacronismo do passado humano. A resposta a esta
angustiante questão aponta na direção de uma conclusão
realistamente pessimista na medida em que, até hoje, toda evidência
histórico-antropológica parece indicar que o anarquismo,
a democracia e o igualitarismo puros só puderam, ao longo da história
humana, viabilizar-se em formas primitivas de organização
social, quer entre povos sedentários como os índios do Brasil,
os esquimós do Alasca, os lapões hiperbóreos ou os
aborígenes da Austrália, quer entre povos nômades,
como os beduínos do Saara setentrional ou as populações
das estepes da Ásia Central. A explicação é
bastante simples e, como tal, frustra os sonhos de visionários
e utopistas de todo o gênero: o grau de complexidade a que chegou
a civilização humana não permite que suas instituições
políticas, sociais e econômicas possam ser mantidas por meio
de uma simplista e utópica auto-organização do todo
social. A ninguém ocorreria cometer a entidades privadas ou auto-organizadas
tarefas como o julgamento e a punição dos criminosos, a
distribuição da justiça ou a manutenção
das forças armadas. A manutenção da lei e da ordem,
mesmo se entregue à milícia popular, seria um contra-senso
em uma sociedade que sempre pregou a supressão do Estado como órgão
coercitivo e privador da liberdade humana. Além do mais, a destruição
do Estado feriria elevadíssimos interesses classistas e corporativistas,
como as forças armadas, que opor-se-iam à sua substituição
pela milícia popular armada, a elite tecnoburocrática, que
desapareceria juntamente com o Estado (do qual é dependente direta)
e os grandes grupos econômicos, que certamente opor-se-iam à
substituição de uma economia de oligopólios pela
gestão econômica a cargo de uma sociedade auto-organizada
ou ainda que uma economia monetarista cedesse lugar a outra baseada em
um sistema amonetarista de trocas diretas. Paradoxalmente, contudo,
a grande crítica que se faz ao anarquismo é o fato de que,
por negar toda ordem estatal vigente como sendo contrária à
liberdade humana, ele se omite de participar no jogo político partidário
pelo poder, tornando-se pois, vítima de seu próprio idealismo,
como se fosse possível combater o poder pairando ou permanecendo
fora e/ou acima dele. O anarquismo é, portanto, uma ideologia politicamente
suicida e autofágica, que se autoconsome em seu próprio
excesso de coerência, não combatendo a patologia do poder
exatamente pelo temor a nele se envolver. Isto não significa
que, aqui e ali, em momento históricos específicos, o anarquismo
não haja pragmaticamente se aliado a outras ideologias que, menos
escrupulosas (porém mais realistas), jamais hesitaram em fazer
o sujo jogo da fisiologia do poder. A aliança entre os anarquistas
e a esquerda republicana na guerra civil espanhola, em oposição
às forças franquistas apoiadas pelo nazifascismo ítalo-germânico
representou, ao mesmo tempo, uma postura pragmática e um contra-senso,
na medida em que o anarquismo, libertário por princípio
e propósitos, é a própria negação do
totalitarismo de esquerda, brutal, estatizante e burocrático que
os republicanos espanhóis queriam implantar em seu país
após triunfar sobre o franquismo. A extensa literatura
sobre o anarquismo e principalmente aquela a ele contrária romantizou,
de forma estigmatizada, a figura do terrorista regicida, que atacava quase
sempre a bomba. De fato, os anarquistas estiveram por trás de diversos
atentados políticos, como os perpetrados contra Napoleão
III em 1858, contra o rei Afonso XII da Espanha em 1878 e contra o imperador
Francisco José I da Áustria em 1882, quer servindo a objetivos
anarquistas independentes, quer aliados a movimentos políticos
internos, inclusive o irredentismo italiano. Apesar do estereótipo
tipicamente regicida de alguns anarquistas, a prática de atentados
políticos nunca foi para o anarquismo um objetivo em si mesmo mas
tão somente um fato perfeitamente explicável como reação
às perseguições por eles sofridas por parte do aparato
estatal mantenedor da "lei e da ordem", aqui entendidas como
um eufemismo a encobrir os desmandos e abusos de uma sociedade exploradora
do homem. Além do mais, nada há que comprove que a relativa
violência das ações de cunho anarquista seja pior
do que a violência estatal institucionalizada e escudada pelo manto
protetor da "legalidade" formal do Estado. Nenhuma forma de
violência "privatizada" se compara ou pode se comparar
à violência legal do monopólio estatal da coerção
oficializada que, travestida de guardiã das instituições
da nação, na realidade faz o papel de gendarme dos interesses
das classes dominantes. A meu ver, embora
louvável em termos morais e de coerência com seus ideais,
a postura anarquista de um distanciamento do jogo sujo do poder parece
refletir uma visão pouco realista e romantizada deste próprio
poder. Obviamente fá-lo o anarquismo em nome de seus próprios
princípios éticos mas tal posição de alienação
em relação à luta contra o poder certamente não
contribui para o próprio ideal anarquista de superar a necessidade
histórica do Estado como último baluarte da civilização
contra a barbárie. Seria mais realista, portanto, que o anarquismo
se desvencilhasse de seus pendores antipartidários e se transformasse
em uma ideologia ativista, com uma real participação nas
mudanças sociais, assumindo causas nobres como a ambientalista,
o desarmamento nuclear, o combate aos resquícios colonialistas,
em vez de se limitar ao papel de mero crítico passivo do assim-denominado
"joguinho sórdido" da política e do poder oficiais.
Não serei eu quem negará a sordidez deste jogo mas não
será permanecendo fora e alheio a ele que conseguirá o anarquismo
destruir o odioso aparato estatal e implantar, em lugar deste, o velho
sonho de uma sociedade livre e auto-organizada em bases espontâneas.
A tal propósito, louvo o ativismo político do anarco-sindicalismo
italiano moderno (principalmente o da Toscana) que, abandonando o ideário
anarco-coletivista utópico de Bakunin, crítico do poder
mas dele irrealistamente distante, aproximou-se das organizações
sindicais e de sua histórica luta pela superação
da sociedade burguesa-capitalista. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 1. ANSART, Pierre 2. FABBRI, Luigi 3. MASINI, Pier Paolo
4. VOGEL, Angela |
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